‘Era Uma Vez no Oeste’: o choque de ver Henry Fonda como vilão psicopata

Em ‘Era Uma Vez no Oeste’, Sergio Leone usa Henry Fonda como arma: transforma o “herói americano” em assassino e obriga o espectador a encarar o mito do Oeste como violência organizada. Esta análise mostra como mise-en-scène, som e ritmo sustentam esse choque até o duelo final.

Faz sentido que muita gente se lembre de ‘Era Uma Vez no Oeste’ (1968) como “o western enorme do Sergio Leone”, com música do Ennio Morricone e um clima de despedida de um gênero inteiro. Mas há um choque específico que não envelhece: ver Henry Fonda — o rosto moral da América clássica — como um vilão capaz de matar uma criança. Leone não usa isso como truque; ele usa como tese. E, a partir dessa inversão, o filme reprograma a nossa bússola ética cena a cena.

O impacto não depende de “surpresa de elenco” apenas. Ele nasce de como o filme foi construído para que o espectador traga para a sala de cinema a bagagem de Fonda (e dos westerns americanos) e, então, tenha essa bagagem esmagada na primeira grande aparição de Frank. É uma ideia simples e brutal: se até Henry Fonda pode ser o mal, então o Velho Oeste — e o mito americano — não é mais um lugar de heróis.

A entrada de Frank: Leone filma o “herói” como uma ameaça

Leone segura Fonda como se estivesse guardando uma carta marcada. Depois do prólogo na estação — aquele teatro do tempo em que o rangido do moinho, a mosca e as gotas d’água viram trilha — a violência explode com uma frieza quase administrativa. E quando Frank finalmente aparece, o filme faz algo decisivo: a câmera não “apresenta uma estrela”; ela caça um predador.

O enquadramento chega aos poucos, com um movimento que parece procurar, até encontrar o rosto. Não é um close de idolatria; é um close de verificação. E então vem o gesto que sela a proposta do filme: o assassinato da família McBain, incluindo a criança. Leone não corta para “poupar” o público; ele quer que a ruptura com a imagem de Fonda seja irrecuperável. A partir dali, qualquer nostalgia por um Oeste moralmente claro vira ingenuidade.

Por que Henry Fonda é a escolha perfeita (e não “chocante” por acaso)

Para entender o golpe, é preciso lembrar o que Fonda representava no imaginário: integridade, retidão, decência — um corpo de ator que carregava a ideia de justiça antes mesmo de falar. Leone se aproveita disso com precisão cirúrgica. Frank não é um bandido caricatural; ele é um homem com autoridade natural, postura de “líder”, voz calma. Em outras palavras: ele parece alguém confiável. É exatamente por isso que ele apavora.

Esse é o ponto mais cruel da subversão: Leone sugere que a violência fundadora do mito americano não vem apenas de figuras obviamente monstruosas. Ela também pode vir de rostos “respeitáveis”. Frank é o mal com boa presença — e o filme não dá ao espectador o conforto de tratá-lo como exceção.

O vilão como engrenagem do capitalismo: matar para abrir caminho aos trilhos

Em muitos westerns clássicos, a disputa é “lei vs. caos”. Aqui, Leone desloca o conflito para um terreno mais moderno: economia, propriedade, infraestrutura. Frank não mata por impulso; ele mata para viabilizar negócios. Ele é contratado, negociado, substituível — e isso o torna ainda mais ameaçador. O filme liga a violência ao nascimento de um novo mundo: o trem, a cidade, o capital.

Repare como o trilho não é apenas cenário: ele é destino. A narrativa empurra todos os personagens para esse ponto de inevitabilidade. Jill (Claudia Cardinale) não entra numa “aventura”; ela chega como peça central de uma transição histórica. Frank é o braço sujo dessa transição. E o fato de ser Henry Fonda — símbolo de honra — reforça a irononia amarga: a modernidade se constrói com um sorriso confiável e uma arma na mão.

Leone troca ação por ritual: tensão no tempo, não na correria

A grande ousadia de ‘Era Uma Vez no Oeste’ é que ele não tem pressa de “ser entretenimento”. Ele usa duração como instrumento dramático: estica esperas, deixa o silêncio virar som, transforma gestos pequenos em prenúncio de morte. Isso não é estilo vazio. É método: quanto mais tempo o filme nos obriga a olhar, mais ele controla nossa expectativa — e mais pesado fica quando a violência chega.

O trabalho de som (com ruídos diegéticos dominando a cena) conversa diretamente com a música do Morricone, que não “enche buraco”: ela comenta, antecipa, marca destino. Cada personagem tem uma assinatura musical que funciona quase como sentença. Frank, em especial, é filmado e ouvido como uma certeza: quando ele entra, algo já foi decidido.

O duelo final não é sobre “quem é mais rápido” — é sobre memória e culpa

No fim, a pergunta não é se Frank vai perder — o gênero já nos treinou para esperar isso. A pergunta é: o que ele representa precisa morrer para que tipo de mundo nasça? O acerto de contas com Harmonica (Charles Bronson) é montado como revelação, não como espetáculo. O filme finalmente explica a ferida que move o protagonista — e, ao fazer isso, transforma o duelo num ajuste de memória.

Frank, nesse desenho, é menos “o rival” e mais “o trauma materializado”. E ver Henry Fonda ocupando esse lugar é o último giro de faca do Leone: o cinema americano que ensinou virtude agora é obrigado a encarar seu próprio rosto como violência.

Para quem este filme funciona (e para quem pode não funcionar)

Vale muito para quem gosta de western como linguagem (ritmo, enquadramento, som), para quem se interessa por filmes que desmontam mitos nacionais e para quem quer entender por que Leone virou referência para diretores tão diferentes. Também é um prato cheio se você quer ver atuação de estrela contra o próprio tipo — Fonda é controlado, econômico, quase elegante no horror.

Pode frustrar quem procura ação contínua ou “história andando” o tempo todo. O filme é deliberadamente cerimonial: ele faz da espera uma forma de violência. Se você entra aceitando esse pacto, o choque de Fonda como Frank não é só memorável — ele vira o eixo moral de tudo.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Era Uma Vez no Oeste’

‘Era Uma Vez no Oeste’ é de que ano?

‘Era Uma Vez no Oeste’ foi lançado em 1968 (produção italiana/americana dirigida por Sergio Leone).

Henry Fonda é o vilão em ‘Era Uma Vez no Oeste’?

Sim. Henry Fonda interpreta Frank, o antagonista do filme — um pistoleiro contratado que comete crimes brutais a serviço de interesses econômicos ligados à expansão ferroviária.

Quanto tempo dura ‘Era Uma Vez no Oeste’?

A duração mais comum das edições exibidas e lançadas em home video é de cerca de 2h45 (aproximadamente 165 minutos), podendo variar levemente conforme a versão.

‘Era Uma Vez no Oeste’ é continuação de algum filme do Sergio Leone?

Não. Apesar de também ser um western do Leone, ‘Era Uma Vez no Oeste’ não é continuação da “Trilogia dos Dólares”. É uma história independente, com tom mais elegíaco e estrutura mais épica.

‘Era Uma Vez no Oeste’ tem cena pós-créditos?

Não. O filme não tem cenas durante ou após os créditos.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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