‘Entre Montanhas’ estava perfeito até os últimos 10 minutos

‘Entre Montanhas’ mantém tensão romântica por 90 minutos com Anya Taylor-Joy e Miles Teller, mas um final apressado trai tudo o que construiu. Analisamos por que o desfecho da Apple TV+ frustra tanto quem investiu na jornada dos personagens.

Existe uma sensação específica — quase física — de ver um filme que está prestes a se tornar um clássico, apenas para assisti-lo se desfazer diante dos seus olhos nos minutos finais. ‘Entre Montanhas’ é o exemplo mais recente e frustrante desse fenômeno: por cerca de 90 minutos, temos nas mãos um dos melhores híbridos de terror e romance dos últimos anos. Daí vem a conclusão, apressada como um relatório de despacho, e tudo o que foi construído com tanta precisão desmorona.

O filme da Apple TV+, lançado no Valentine’s Day de 2025, chegou prometendo reinventar o gênero horror-romance — algo raro quando bem executado. Com Anya Taylor-Joy e Miles Teller como dois snipers elite separados por uma ravina abissal, a premissa soava como ‘Nosferatu’ (2024) encontrando ‘Enemy’ de Denis Villeneuve: romance gótico meets paranóia claustrofóbica. E por um tempo, essa combinação impossível funciona de forma quase milagrosa.

Por que os primeiros 90 minutos funcionam: restrição como arma narrativa

Por que os primeiros 90 minutos funcionam: restrição como arma narrativa

O que ‘Entre Montanhas’ acerta é entender que o melhor horror nasce da limitação. Drasa (Taylor-Joy) e Levi (Teller) são postados em torres de vigia opostas de uma fenda continental misteriosa, proibidos de comunicação direta, armados até os dentes para conter… algo. O filme demora a revelar exatamente o que ronda nas profundezas, e essa paciência narrativa é rara no streaming atual, onde tudo precisa acontecer nos primeiros sete minutos.

A química entre os protagonistas é construída através de gestos, não diálogos expositivos. A cena onde eles estabelecem um jogo de xadrez usando binóculos e placas sinalizadoras é mais romântica que 90% dos beijos forçados do cinema comercial — uma dança visual que lembra a comunicação silenciosa de ‘A Vida em Silêncio’, só que com fuzis de precisão. Quando Levi finalmente atravessa a ravina usando uma tirolesa improvisada — arriscando a própria vida apenas para compartilhar um momento de humanidade — o filme alcança um ápice de doçura amarga que ecoa os melhores momentos de ‘Antes do Amanhecer’, só que com a constante ameaça de morte iminente.

A direção de Scott Derrickson (aqui operando em modo ‘Sinister’ mais contido) introduz o horror cósmico no momento exato: quando a ação finalmente desce à ravina, o filme muda de tom sem perder a identidade. As criaturas mutadas não são apenas ameaças físicas; representam a externalização dos medos de isolamento dos protagonistas. Drasa, longe de cair no estereótipo da “donzela em apuros”, luta com uma ferocidade que ecoa os melhores trabalhos de Taylor-Joy em ‘A Bruxa’ e ‘Furiosa’. Levi, por sua vez, carrega uma vulnerabilidade rara para personagens masculinos de ação — Miles Teller finalmente escapa da sombra de ‘Whiplash’ para provar que pode ser um herói romântico sem perder a complexidade.

O colapso: quando o roteiro ignora suas próprias regras

O problema começa exatamente quando o filme deveria estar amarrando suas pontas. Após a sequência claustrofóbica dentro da ravina — onde o casal enfrenta tanto as criaturas quanto a própria desconfiança institucional representada por Andreas (Sigourney Weaver, em uma participação que merecia mais tela) — ‘Entre Montanhas’ decide que precisa terminar. Não concluir, apenas terminar.

O salto temporal para o encontro dos dois na França, planejado desde o início como meta romântica, é tão abrupto que parece edição de estúdio desesperada por encaixar o filme em um slot de tempo. Como Levi sobreviveu aos ferimentos? Como atravessou meio mundo sem documentos, sendo um atirador de elite procurado por uma organização governamental sombria? O que fez durante essa jornada? O filme não apenas não responde — ele nem mesmo reconhece que essas são perguntas relevantes.

Essa omissão é particularmente irritante porque o roteiro, até aquele ponto, tinha sido meticuloso em estabelecer regras. Vimos Levi calculando trajetórias de bala considerando o efeito Coriolis; vimos Drasa montando armadilhas elaboradas usando equipamento militar. Esperar que simplesmente “aconteça” o reencontro, sem mostrar o sacrifício necessário para chegar lá, é trair a promessa de que este era um romance onde as ações tinham consequências reais.

O contexto do horror-romance e onde o filme se perde

O contexto do horror-romance e onde o filme se perde

O gênero horror-romance vive de consequências emocionais. ‘Nosferatu’ (2024) funciona porque aceita a tragédia como preço do desejo; ‘Lisa Frankenstein’ (2024) triunfa abraçando a comédia gótica. ‘Entre Montanhas’ tentava um terceiro caminho: o blockbuster romântico de ação, onde o amor é tão letal quanto as balas. Mas ao negar ao casal o direito de uma conclusão que respeite a gravidade de seus traumas — Levi deveria estar fisicamente e psicologicamente quebrado, não apenas cansado — o filme recai no pior dos mundos: nem o catharsis trágico de uma história de amor impossível, nem a satisfação de ver dois monstros humanos encontrarem paz.

O roteirista Zach Dean já falou sobre ideias para uma prequela focada na história da ravina. Honestamente? Isso soa como tentativa de consertar o que quebrou. Se um segundo filme vier, precisará não apenas expandir o universo — precisará justificar por que ignoramos a jornada mais importante de Levi, aquela que o levou de volta à humanidade após a missão.

O veredito: vale a pena o desapontamento?

Aqui está a pergunta que você realmente quer respondida: se ‘Entre Montanhas’ estraga no final, ainda recomendo? E a resposta é um sim com ressalvas dolorosas. Os 90 minutos iniciais são tão bem executados — a tensão sexual construída através de miras telescópicas, o design de produção da ravina que mistura biologia e arquitetura militar brutalista, a trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross que sabe quando silenciar para que ouçamos o vento entre as torres — que mesmo o tombo final não apaga completamente o brilho.

Mas prepare-se para uma sensação de vazio. Não o vazio existencial bom, daqueles que ficam com você por dias. Um vazio mais prosaico: o de ver algo promissor desperdiçar sua própria herança. Se você curte terror psicológico com romance que respeita sua inteligência, assista. Mas talvez pause nos créditos finais e imagine seu próprio final — provavelmente será mais satisfatório que o que a Apple TV+ entregou.

E você, já passou por isso? Conhece aquele filme que estava perfeito até simplesmente… não estar mais? Quero ouvir nos comentários: qual final destruiu uma experiência cinematográfica quase perfeita para você?

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Perguntas Frequentes sobre ‘Entre Montanhas’

Quando ‘Entre Montanhas’ foi lançado na Apple TV+?

O filme estreou exclusivamente na Apple TV+ em 14 de fevereiro de 2025 (Dia dos Namorados), posicionado como uma opção de terror-romance para a data.

Quem são os atores principais de ‘Entre Montanhas’?

Anya Taylor-Joy interpreta Drasa e Miles Teller vive Levi, os dois snipers elite separados pela ravina. Sigourney Weaver aparece como Andreas, a figura de autoridade que supervisiona a missão.

O que são as criaturas na ravina de ‘Entre Montanhas’?

O filme sugere que as criaturas são mutações biológicas resultantes de experimentos militares antigos na região, embora mantenha elementos misteriosos que lembram horror cósmico. Elas funcionam como metáfora para os medos de isolamento dos protagonistas.

‘Entre Montanhas’ tem cenas pós-créditos?

Não. O filme termina de forma conclusiva (embora apressada) e não apresenta cenas durante ou após os créditos finais. Não há indicação oficial de continuação, embora o roteirista tenha mencionado interesse em uma prequela.

Vale a pena assistir ‘Entre Montanhas’ apesar do final ruim?

Sim, especialmente para fãs de terror psicológico e romance com tensão. Os primeiros 90 minutos oferecem direção precisa de Scott Derrickson, química intensa entre os protagonistas e sequências de ação criativas. O desapontamento vem apenas nos últimos 10 minutos, mas o caminho até lá é superior à maioria dos lançamentos recentes do gênero.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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