‘En el barro’: por que o spin-off de ‘El Marginal’ é a grande joia escondida da Netflix

Com 100% no Rotten Tomatoes e elogiada pela crítica, ‘En el barro’ permanece invisível nos charts globais da Netflix. Analisamos por que o spin-off de ‘El Marginal’ sobre o presídio feminino argentino está sendo negligenciado — e por que merece sua atenção.

Há algo perversamente irônico no algoritmo da Netflix: a plataforma pode enterrar suas melhores séries enquanto empurra mediocridades para o topo dos charts. En el barro Netflix chegou discretamente no catálogo em fevereiro de 2026 — e o silêncio ao redor é ensurdecedor. Estamos falando de uma produção com 100% de aprovação no Rotten Tomatoes que simplesmente não aparece nas paradas de visualização fora da América Latina. Como isso acontece?

A resposta envolve uma combinação perigosa: falta de promoção, barreira linguística e o preconceito silencioso do público anglófono contra produções “estrangeiras”. Mas quem ignora En el barro está perdendo uma das experiências mais tensas e bem construídas do gênero prisional dos últimos anos.

O que é En el barro e por que você nunca ouviu falar

Traduzido literalmente como “Na lama”, En el barro é um spin-off de ‘El Marginal – O Cara de Fora’, a série argentina que se tornou referência em drama carcerário na América Latina. Enquanto a série original acompanhava o universo masculino das prisões argentinas, este derivado mergulha no presídio feminino — um cenário historicamente negligenciado tanto na ficção quanto no debate público.

A protagonista é Gladys Guerra, esposa de Mario Borges, o reverenciado líder de gangue da série original. E é interpretada por Natalia Oreiro — a atriz uruguaia que atravessou fronteiras com novelas como ‘Muñeca Brava’ nos anos 90, agora entregando uma performance visceral que nada tem de romântica. Após uma tentativa fracassada de sequestro, Gladys é condenada a uma penitenciária de segurança máxima. O que poderia ser apenas mais um prison drama se transforma em algo mais complexo: um estudo sobre poder, sobrevivência e as hierarquias paralelas que surgem quando mulheres são jogadas juntas em um ambiente desenhado para destruí-las.

Aqui está o primeiro sinal de que algo diferente está acontecendo: En el barro tem pontuação superior à série que a originou no Rotten Tomatoes. ‘El Marginal – O Cara de Fora’ registrou 95% de aprovação do público em sua primeira temporada — impressionante, mas não perfeito. O spin-off alcançou os tais 100%. No entanto, se você comparar os números do IMDb, a história muda: a série original ostenta 8.1, enquanto o derivado marca 6.3. Essa discrepância entre crítica e público conta uma história própria.

O paradoxo dos 100% no Rotten Tomatoes

Uma pontuação perfeita no Rotten Tomatoes não significa obra-prima — significa consenso crítico positivo. E consenso, neste caso, pode ser reflexo de uma amostragem pequena. Poucos críticos assistiram, e os que assistiram aprovaram. Mas isso diminui o mérito? Não necessariamente.

O que os críticos veem em En el barro é competência narrativa rara. A série evita os clichês do gênero com uma naturalidade que só vem de roteiristas que conhecem profundamente o universo que retratam. Os criadores Sebastián Ortega e Alejandro Puga — os mesmos responsáveis por ‘El Marginal – O Cara de Fora’ — constroem um universo que se sustenta sozinho, mas que pulsa com as conexões com a série original. Não há glorificação da violência carcerária, mas também não há moralismo barato. A câmera observa, muitas vezes incômoda, sem julgar — deixando que o espectador carregue o peso ético.

A fotografia merece menção especial: os tons terrosos e esmaecidos do presídio feminino contrastam com os flashbacks de vida “livre”, banhados em luz natural. Não é efeito visual por efeito visual — é linguagem cinematográfica funcionando como extensão da narrativa. Cada escolha de cor comunica algo sobre o estado mental das personagens.

Mas há uma questão prática nessa pontuação perfeita: ela pode criar expectativas que a série não pretende satisfazer. Quem chega esperando a “melhor série do ano” pode sair decepcionado. En el barro é excelente no que propõe, mas não é ambiciosa em escopo — é ambiciosa em execução.

Por que a série está sendo ignorada globalmente

Por que a série está sendo ignorada globalmente

No momento em que escrevo, En el barro não aparece nos charts de visualização dos Estados Unidos ou do Reino Unido. Só registra presença nas paradas da Argentina e Chile. Isso para uma série com duas temporadas completas (16 episódios no total) disponíveis desde 13 de fevereiro de 2026. A pergunta óbvia: por que?

A resposta curta: a Netflix não está promovendo. A resposta longa envolve uma cascata de negligência. Sem campanha de marketing, sem press release bombástico, sem elenco internacional reconhecível pelo público gringo, a série depende inteiramente do algoritmo — e o algoritmo, treinado em dados de consumo anglófono, não sabe o que fazer com produção argentina que não se encaixa nos padrões de sucesso pré-estabelecidos.

Há também a questão do idioma. Legendas ainda são barreira para uma fatia significativa do público, especialmente aquele que consome conteúdo de forma passiva — segunda tela, celular no rosto, série ao fundo. Produções em inglês dominam porque permitem consumo desatento. En el barro exige atenção. O espanhol platense com seus modismos regionais pede ouvidos dispostos a decifrar.

Curiosamente, esse cenário beneficia um tipo específico de espectador: aquele disposto a cavar pelo ouro escondido. Quem descobre En el barro por conta própria chega sem hype, sem expectativas infladas, pronto para avaliar pelo que é — não pelo que o marketing prometeu.

Como o som constrói tensão onde não há violência

Há uma sequência no primeiro episódio que define o tom de toda a série: Gladys atravessa o corredor de entrada do presídio. Sem diálogos. Sem trilha sonora. Apenas o eco de seus passos no piso frio, o rangido de grades, o murmúrio distante de vozes femininas que não conseguimos distinguir. O design de som de En el barro é um personagem à parte — os silêncios são tão pesados quanto qualquer grito.

Isso é raro em produções do gênero. A maioria dos prison dramas aposta em trilhas orquestradas para ditar a emoção, em sons de impacto para sublinhar a violência. Aqui, a equipe de som confia no ambiente: portas metálicas que ecoam como sinos fúnebres, ventos que entram pelas grades e carregam vozes de um pátio que nunca vemos completamente. É uma escolha que pede fones de ouvido — assistir no celular, com áudio baixo, é perder metade da experiência.

A conexão com El Marginal e o legado do drama prisional argentino

A conexão com El Marginal e o legado do drama prisional argentino

Não existe En el barro sem ‘El Marginal – O Cara de Fora’. A série original correu por cinco temporadas entre 2016 e 2022, construindo um universo de mitologia carcerária que rivaliza com qualquer produção hollywoodiana em densidade. Mas onde ‘El Marginal – O Cara de Fora’ focava em códigos de honra masculinos, hierarquias de poder entre homens, o spin-off explora um território diferente: como mulheres encarceradas constroem seus próprios sistemas de poder.

Gladys Guerra não é versão feminina de seu marido Mario. A série evita esse reducionismo fácil. Ela é uma figura complexa, obrigada a navegar em um ambiente onde as regras que conhecia — as regras do mundo externo, as regras do crime organizado “tradicional” — não se aplicam da mesma forma. Há algo fascinante em observar uma personagem que foi poderosa fora dos muros ter que reconstruir seu status dentro deles.

Para fãs de prison dramas como ‘O Dono de Kingstown’, a comparação é inevitável. Ambas as séries compartilham DNA temático: a prisão como microcosmo social, a violência como moeda, a negociação constante entre autoridades e submundo. Mas onde a produção de Taylor Sheridan é operística em sua abordagem masculina do poder, En el barro é mais íntima, mais psicológica, mais interessada nas fissuras emocionais que o cárcere provoca.

Para quem vale a pena (e para quem não vale)

Se você curte dramas carcerários com densidade psicológica, En el barro é obrigatória. Se você assistiu ‘El Marginal – O Cara de Fora’ e quer expandir esse universo, ainda mais obrigatória. A série funciona como continuação temática, não como cópia diluída.

Agora, se você busca adrenalina constante, reviravoltas chocantes a cada episódio, talvez passe raiva. O ritmo de En el barro é deliberado. Os criadores confiam que a tensão acumulada vale mais que o choque momentâneo. Não é série para maratonar de forma distraída — é série para assistir com atenção, deixando os silêncios respirarem.

Há também uma recomendação inversa: se você não assistiu ‘El Marginal – O Cara de Fora’, comece por ela. O spin-off funciona sozinho, mas ganha camadas adicionais quando você entende o contexto prévio. A relação de Gladys com Mario, as referências ao mundo externo, a mitologia do crime organizado argentino — tudo ressoa mais forte com o background adequado.

No fim das contas, En el barro é uma dessas séries que merece ser descoberta, não entregue. A Netflix falhou em promovê-la, mas isso pode ser oportunidade disfarçada: você chega sem ruído, sem expectativas fabricadas, pronto para formar sua própria opinião. Com 16 episódios disponíveis e crítica unânime a favor, a pergunta real é: quanto tempo você vai ignorar essa joia escondida?

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Perguntas Frequentes sobre ‘En el barro’

Onde assistir ‘En el barro’?

‘En el barro’ está disponível exclusivamente na Netflix desde 13 de fevereiro de 2026. A plataforma disponibilizou as duas temporadas completas (16 episódios) simultaneamente.

Precisa assistir ‘El Marginal’ antes de ‘En el barro’?

Não é obrigatório — o spin-off funciona sozinho. Porém, assistir a série original adiciona camadas importantes: você entende a relação de Gladys com Mario Borges, a mitologia do crime organizado argentino e referências que enriquecem a experiência.

Quantos episódios tem ‘En el barro’?

A série tem 16 episódios distribuídos em duas temporadas. Cada episódio tem aproximadamente 45 minutos de duração.

Quem é a protagonista de ‘En el barro’?

A protagonista é Gladys Guerra, interpretada por Natalia Oreiro. A atriz uruguaia, conhecida internacionalmente por novelas como ‘Muñeca Brava’, entrega uma performance dramática distante de seus papéis românticos anteriores.

Por que ‘En el barro’ tem 100% no Rotten Tomatoes mas nota baixa no IMDb?

A diferença reflete o perfil de cada plataforma. Rotten Tomatoes agrega críticos profissionais — poucos avaliaram, mas aprovaram. O IMDb reflete o público geral, incluindo espectadores que podem ter chegado com expectativas erradas ou resistência a produções em espanhol. A série tem 100% no RT e 6.3 no IMDb.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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