‘Em Nome do Céu’: a série que coloca Andrew Garfield contra sua própria fé

Em Nome do Céu coloca Andrew Garfield como detetive mórmon em crise de fé investigando assassinatos dentro de sua própria comunidade. Analisamos como a minissérie do Star+ transforma true crime em estudo visceral sobre autoritarismo religioso e o preço da integridade moral.

Andrew Garfield constrói em Em Nome do Céu uma performance que opera na frequência do silêncio. Como Jeb Pyre, detetive devoto da Igreja Mórmon investigando assassinatos brutais dentro de sua própria comunidade, ele não interpreta um policial comum — ele retrata um homem cuja coluna vertebral metafórica está sendo desmontada em tempo real. A minissérie de sete episódios do Star+ (original da Hulu), baseada no livro de Jon Krakauer sobre o caso real dos assassinatos Lafferty em 1984, usa o formato true crime não para entretenimento procedural, mas como veículo para uma pergunta incômoda: o que acontece quando a instituição que moldou sua moralidade é suspeita de encobrir monstros?

O que diferencia Em Nome do Céu de outras séries sobre crimes reais não é o mistério — sabemos quem matou Brenda Lafferty (Daisy Edgar-Jones) desde os primeiros minutos —, mas a estrutura psicológica da investigação. Jeb não busca justiça genérica; ele é um homem cujo universo moral foi construído sobre pilares que começam a rachar sob o peso da evidência. Quando interroga Ron e Dan Lafferty, irmãos fundamentalistas que afirmam agir por “revelação divina”, Garfield constrói tensão física palpável: mãos trêmulas segurando cadernos, garganta comprimida ao recitar versículos que outrora confortavam e agora soam como ameaças veladas.

O caso real que abalou o Utah mórmon

O caso real que abalou o Utah mórmon

A história por trás da série é suficientemente perturbadora, mas o roteiro de Dustin Lance Black evita sensacionalismo. Brenda Lafferty, jovem mãe e convertida à fé, foi assassinada junto com sua filha bebê por cunhados que a consideravam “obstáculo” à vontade de Deus — especificamente, sua recusa em submissão absoluta à autoridade patriarcal. O que poderia ser thriller religioso barato transforma-se, nas mãos de Black e do diretor David Mackenzie, em dissecação de como fundamentalismo e patriarcado se alimentam.

A estrutura narrativa utiliza flashbacks filmados em 16mm com granulação quente, contrastando violentamente com a frieza digital do Utah dos anos 80. Essa escolha técnica não é decorativa: visualiza a nostalgia idealizada de uma fé “pura” versus a realidade cinzenta de sua aplicação institucional. Quando Jeb visita a cena do crime — uma casa de subúrbio que deveria representar segurança doméstica — a câmera de Mackenzie recusa dar alívio visual. Ficamos com o personagem no espaço claustrofóbico, respirando o mesmo ar pesado de incenso e desinfetante.

O desmoronamento físico de Garfield

Para contextualizar o alcance dessa performance, vale notar que Garfield não é mórmon na vida real — é ator londrino de formação teatral que passou meses em Utah estudando a cultura, a história e até a postura física dos devotos. Esse trabalho de imersão aparece na economia de gestos.

Há uma cena no terceiro episódio que funciona como masterclass. Jeb, interrogando Allen Lafferty (Billy Howle), o marido viúvo, confronta a possibilidade de que líderes eclesiásticos possam estar encobrindo crimes para proteger a imagem da igreja. A transição de Garfield é microscópica: os ombros, sempre eretos em postura de servo devoto, caem meio centímetro. Não é teatralidade; é o físico de um homem cuja coluna vertebral está sendo retirada sem anestesia. As lágrimas surgem como traição involuntária, algo que o personagem tenta conter porque “homens de fé não duvidam em público”.

O que torna a atuação genial é que Garfield recusa o arco fácil do cético convertido. Jeb não abandona seus valores — ele os redescobre fora da estrutura que os legitimava. Quando diz a seu parceiro Bill Taba (Gil Birmingham, excelente como voz da razão secular e externa à comunidade): “Eu ainda acredito, só não sei mais em quem”, a frase carrega o peso de uma educação inteira sendo reavaliada.

Crítica ao autoritarismo disfarçado de tradição

Crítica ao autoritarismo disfarçado de tradição

A série evita cair na armadilha de demonizar a fé mórmon em si. O que expõe, com coragem rara no entretenimento mainstream, é a mecânica do autoritarismo religioso. A família Lafferty não é anomalia, mas extremo lógico de uma cultura onde “revelação pessoal” pode sobrepor leis humanas quando conveniente para o poder estabelecido. A investigação de Jeb funciona como metáfora para o despertar de qualquer pessoa criada em sistemas fechados.

Daisy Edgar-Jones, em flashbacks, constrói Brenda como figura tragicamente luminosa — alguém que acreditava que fé poderia coexistir com independência intelectual. A tragédia ganha dimensão porque compreendemos que ela foi morta não apesar de sua devoção, mas porque ousou praticá-la de forma não submissa. A dinâmica entre ela e Allen ilustra como sistemas patriarcais consomem até mesmo seus supostos beneficiários.

Por que assistir agora

Em tempos onde debates sobre separação entre igreja e estado retornam com urgência, a série assume relevância que transcende sua ambientação nos anos 80. O 87% de aprovação no Rotten Tomatoes e as indicações ao Globo de Ouro reconhecem o que está claro: esta não é história sobre crime, mas sobre o preço da integridade moral quando exige rompimento com comunidades de origem.

O ritmo deliberadamente lento — alguns críticos chamaram de “contemplativo demais” — é escolha ética. A série recusa transformar o sofrimento da família Lafferty em entretenimento veloz. Exige que o espectador sinta o desconforto da investigação, assim como Jeb sente o desconforto de suas descobertas. Se você busca resoluções rápidas e vilões caricatos, talvez fique frustrado. Mas se interessa por narrativas que interrogam como boas pessoas participam de sistemas perversos, encontrará poucos exemplos melhores no streaming.

Na filmografia de Garfield, que inclui blockbusters como O Espetacular Homem-Aranha e dramas intensos como Redes de Ódio, Em Nome do Céu ocupa lugar especial: é a performance onde ele mais se dissolve no personagem, oferecendo-se como veículo para questões que raramente encontram espaço na ficção televisiva. A série recusa o conforto da resolução fácil — e é exatamente por isso que permanece com você dias depois dos créditos finais.

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Perguntas Frequentes sobre Em Nome do Céu

Onde assistir Em Nome do Céu no Brasil?

A série está disponível no Star+ (streaming da Disney no Brasil). Nos Estados Unidos, é original da Hulu. Ambas as plataformas exigem assinatura para acesso.

Em Nome do Céu é baseada em história real?

Sim. A série adapta o livro de não-ficção de Jon Krakauer sobre os assassinatos de Brenda e Erica Lafferty em 1984 no Utah, cometidos pelos irmãos Ron e Dan Lafferty. Os diálogos e alguns personagens são dramatizados, mas os eventos centrais são documentados.

Quantos episódios tem Em Nome do Céu?

A minissérie tem 7 episódios, com duração variando entre 50 e 70 minutos cada. A história se desenvolve como um arco completo, sem previsão de segunda temporada.

Andrew Garfield é mórmon na vida real?

Não. Garfield é ator britânico nascido em Los Angeles, criado em Londres, e não tem ligação com a Igreja Mórmon. Para o papel, ele passou meses em Utah estudando a cultura, história e postura física dos devotos, além de ler extensivamente sobre o caso.

Preciso ler o livro de Jon Krakauer antes de assistir?

Não é necessário. A série funciona independentemente, embora o livro ofereça mais detalhes históricos sobre a fundação do mormonismo e a cultura de Utah. A adaptação de Dustin Lance Black condensa a narrativa focando no arco dramático de Jeb Pyre, personagem fictício criado para a série.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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