Karl Urban nunca voltou a vestir o capacete, mas ‘Dredd’ teve continuações em HQs entre 2014 e 2018. Analisamos se ‘Underbelly’ e ‘Final Judgement’ entregam o que o filme prometeu — e por que faltam a voz de Alex Garland.
Se você está entre os fãs que ainda sonham com ‘Dredd 2’, tenho uma notícia curiosa: a Dredd sequência que você procura já existe. Só que provavelmente você nunca ouviu falar dela. Não é um filme perdido, nem um projeto cancelado que vazou na internet. É uma série de quadrinhos publicada pela 2000 AD entre 2014 e 2018 — continuações diretas do universo do filme de 2012, com o mesmo Juiz Dredd que Karl Urban interpretou. O problema? Elas passaram batidas. E há uma razão para isso.
Antes de falar das HQs, vale lembrar o que fez ‘Dredd’ especial. Não era só mais um filme de ação violento — era um exercício de economia narrativa. 90 minutos, um prédio, dois personagens principais, zero gordura. O diretor (oficialmente Pete Travis, mas sabemos agora que Alex Garland ghost-directed o filme inteiro) entendeu algo que adaptações de quadrinhos frequentemente erram: você não precisa explicar tudo. Dredd não tira o capacete. Não tem flashback traumático. Não tem arco de redenção. Ele simplesmente É — um fascista simpático em um mundo que justifica o fascismo. Essa abordagem minimalista, combinada com a fotografia saturada das cenas de slow-motion e a brutalidade seca dos confrontos, criou algo único. Não é à toa que o filme virou referência, frequentemente comparado a ‘The Raid’ no quesito “ação confinada executada com precisão cirúrgica”.
As HQs que continuaram o filme — e por que você não conhece
Em 2014, dois anos após o filme, a 2000 AD publicou ‘Dredd: Underbelly’. Arthur Wyatt assumiu o roteiro, com arte de Henry Flint — nomes respeitados na casa, mas não exatamente conhecidos por reinventar a roda. Era uma continuação direta: mesmo Dredd, mesma Anderson, mesmo visual sujo de Mega-City One. A trama segue os dois em um novo caso envolvendo tráfico de drogas nas profundezas da cidade — basicamente, mais do mesmo que o filme entregou, só que sem o mesmo apuro visual.
Seguiram-se mais títulos ao longo dos anos: ‘Dust’, que leva Dredd à Cursed Earth; ‘Uprise’, com foco em rebelião nos megablocks; e spin-offs centrados em Anderson, explorando facetas do universo que o filme só sugeriu. A saga terminou em 2018 com ‘Final Judgement’, onde Dredd enfrenta sua própria versão dos Dark Judges — aqueles juízes sobrenaturais que consideram a vida um crime punível apenas com morte. T.J. Henry e Dylan Teague dividiram a arte final, entregando páginas competentes, mas que raramente saltam aos olhos.
Se você conhece os quadrinhos originais de Judge Dredd, sabe que os Dark Judges (Judge Death, Judge Fear, Judge Mortis e Judge Fire) são antagonistas icônicos do lore. Garland tinha planos explícitos para eles em suas sequências cinematográficas planejadas. As HQs deram uma versão própria — alternativa, mas reconhecível. É o tipo de fan service que funciona no papel, mas deixa você imaginando como seria ver Judge Death renderizado em CGI de alto orçamento.
O problema central: falta a voz de Garland
Aqui entra a parte honesta que você não vai encontrar em releases promocionais: as HQs são competentes, mas não essenciais. O roteiro do filme de Garland tinha uma característica distintiva — diálogos afiados, ritmo cirúrgico, uma compreensão de que silêncio vale mais que exposição. Dredd fala pouco no filme inteiro, e cada linha carrega peso. As HQs, sem o input dele, funcionam como… bem, como quadrinhos genéricos de 2000 AD.
Não são ruins, deixe isso claro. A arte de Flint captura o visual do filme com fidelidade — o capacete de Urban, o psi-helmet de Anderson, a arquitetura opressiva dos blocos residenciais. Mas falta aquele algo a mais que transformou o filme de 2012 em objeto de culto. É como assistir a uma série de TV com diretor substituto no segundo episódio: a técnica está lá, a alma nem tanto.
‘Final Judgement’ oferece fechamento — mas que fechamento?
O arco final de 2018 pelo menos oferece algo que o filme negou: uma conclusão. Dredd enfrenta os Dark Judges em uma batalha que, nas páginas, tenta ser grandiosa. Há confrontos filosóficos sobre a natureza da justiça, mortes significativas, e um final que fecha a jornada desse Dredd específico.
Para fãs que sofrem com “cliffhangers eternos” — aqueles filmes que terminam no meio e nunca ganham continuação — isso tem valor. É um funeral digno para uma franquia que morreu cedo demais nas telas. Mas também é impossível não imaginar o que poderia ter sido. Garland planejava dois filmes sequenciais. Dois! Com orçamento real, trazendo Judge Death para a tela com efeitos visuais à altura. ‘Final Judgement’ é um consolo, não uma realização.
Vale a pena ler? Depende do que você busca
Se quer mais tempo no universo do filme — ver Dredd chutando portas, Anderson usando seus poderes psi, o visual decadente de Mega-City One — as HQs entregam isso. São um comfort food para fãs saudosos. Funcionam como episódios extras de uma série cancelada: não elevam o material, mas estendem o prazer.
Se espera a mesma qualidade de roteiro, o mesmo rigor narrativo, a mesma sensação de “isso foi feito por alguém com visão clara”… provavelmente vai sair desapontado. Eu li por completismo. Não me arrependo, mas também não vou guardar na estante dos essenciais. Funcionam mais como curiosidade histórica — o registro de uma continuação que existiu porque o cinema não quis (ou não conseguiu) fazê-la.
E o futuro? Há esperança real?
Para fechar com o que importa: existe uma luz no fim do túnel, mas é fraca. Uma série ‘Mega-City One’ foi anunciada em 2017, com Dredd como personagem coadjuvante. Até agora? Nada de concreto. Passaram-se quase nove anos.
Mais promissor é o novo filme com Taika Waititi dirigindo. Waititi trabalhou com Karl Urban em ‘Thor: Ragnarok’, então há conexão prévia. Urban inclusive disse ao The Playlist que voltaria ao papel “em um heartbeat”. Mas as chances de ser uma continuação do filme de 2012? Praticamente zero. Mais provável que seja um reboot — o que, sinceramente, pode não ser ruim. Waititi tem olho para comédia negra e violência estilizada (vide ‘What We Do in the Shadows’), e Dredd suporta várias interpretações.
Enquanto isso, as HQs permanecem como o que são: uma sequência esquecida que a maioria dos fãs nem sabe que existe. Para os dedicados, isso já é algo. Para os demais, o filme de 2012 continua sendo o melhor desfecho que essa versão do personagem vai ter.
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Perguntas Frequentes sobre Dredd sequência
Existe ‘Dredd 2’?
Não existe um filme ‘Dredd 2’. Porém, existem quadrinhos que continuam a história do filme de 2012: ‘Underbelly’ (2014), ‘Dust’, ‘Uprise’ e ‘Final Judgement’ (2018), publicados pela 2000 AD.
Onde ler as HQs de Dredd sequência?
As HQs estão disponíveis em inglês através do site oficial da 2000 AD e em aplicativos como Comixology. Não há edições brasileiras publicadas.
Quem criou as HQs de Dredd sequência?
Os roteiros foram escritos principalmente por Arthur Wyatt, com arte de Henry Flint, T.J. Henry e Dylan Teague em diferentes volumes. Alex Garland, roteirista do filme, não participou.
Vale a pena ler as HQs de Dredd?
Se você quer mais tempo no universo do filme, sim. Se espera o mesmo nível de roteiro e rigor narrativo, provavelmente não. As HQs são competentes, mas não essenciais.
Dredd vai ter continuação no cinema?
Existe um projeto com Taika Waititi na direção, mas provavelmente será um reboot, não continuação do filme de 2012. Karl Urban afirmou que voltaria ao papel, mas as chances são mínimas.

