‘Dhurandhar: The Revenge’ supera ‘Baahubali 2’ e controvérsias em estreia histórica

Com US$ 81 milhões em cinco dias e banimentos em países do Golfo, ‘Dhurandhar: The Revenge’ triunfa onde ‘Baahubali 2’ não ousou: um thriller político de quase 4 horas que prova que o público global quer autenticidade, não acessibilidade diluída.

Existe algo fascinante em assistir um filme ser condenado por críticos e governos enquanto multidões lotam cinemas para vê-lo. ‘Dhurandhar: The Revenge’ chegou aos cinemas carregando duas coisas: acusações de propaganda nacionalista e banimentos em países do Golfo. E ainda assim arrecadou US$ 81 milhões em cinco dias. Isso não é coincidência — é um fenômeno que revela algo importante sobre como o público global está consumindo cinema indiano em 2026.

O thriller de ação, sequência do surpreendente sucesso de 2025, faz algo que poucos blockbusters ousam: estica sua duração para 229 minutos — quase quatro horas — enquanto mantém um público internacional na ponta da cadeira. Para contexto, é o oitavo filme mais longo da história do cinema indiano. Em uma era onde plataformas de streaming encurtam attention spans, pedir quatro horas de dedicação ao espectador é uma aposta arriscada. Que pagou.

Como ‘Dhurandhar: The Revenge’ superou ‘Baahubali 2’ nos Estados Unidos

Os números contam uma história que marketing nenhum conseguiria fabricar. Nos Estados Unidos, o filme arrecadou US$ 14 milhões em cinco dias — superando os US$ 10,4 milhões de três dias de ‘Baahubali 2’ em 2017. Isso coloca a produção como o segundo maior lançamento indiano no mercado americano, atrás apenas de ‘Pushpa 2 — The Rule’, que abriu com US$ 97,9 milhões globalmente em 2024.

Mas aqui está onde a análise fica interessante: ‘Baahubali 2’ era um espetáculo visual familiar, um épico de fantasia que transcende barreiras culturais com facilidade. ‘Dhurandhar: The Revenge’ é um thriller político-acionista com classificação R, enraizado em eventos reais específicos do subcontinente — os ataques de 26/11 em Mumbai e a Operation Lyari em Karachi. O fato de um filme tão particular ter alcançado audiência tão ampla sugere que o público internacional está desenvolvendo apetite por narrativas indianas que não são ‘universalizadas’ para consumo ocidental.

O protagonista, um agente governamental infiltrado em grupos criminosos de Karachi, opera em um terreno moral que o cinema de ação mainstream raramente explora com essa profundidade. Não é herói limpo nem anti-herói carismático — é algo mais complexo, mais perturbador, e mais interessante.

Por que países do Golfo baniram o filme (e isso não impediu o sucesso)

A decisão de múltiplos países do Gulf Cooperation Council de proibir a exibição de ‘Dhurandhar: The Revenge’ não é detalhe — é parte central da conversa sobre o filme. Os banimentos emergem de acuações de que a produção adota uma ‘lente nacionalista’ perigosa, transformando conflitos geopolíticos complexos em narrativa de vingança simplificada.

Como crítico, preciso ser honesto: essa acusação não é infundada. O filme opera no território moralmente complicado de usar tragédias reais — como os ataques de 2008 em Mumbai — como pano de fundo para entretenimento de ação. A sequência de abertura, que recria os ataques de 26/11 com uma violência gráfica que beira o documental, é particularmente controversa. Isso levanta questões que vão além da qualidade cinematográfica. Quando um filme transforma dor coletiva real em espetáculo, quem é responsável pelo que o público sente?

No entanto, a resposta do público sugere algo que críticos e censores subestimaram: a audiência global não está consumindo ‘Dhurandhar: The Revenge’ como documento político, mas como experiência cinematográfica visceral. A fotografia usa paletas de cores desaturadas que remetem ao neo-noir, as sequências de perseguição em Karachi são editadas com um ritmo que lembra o melhor de Paul Greengrass, e o elenco entrega performances que transcendem o material. Isso não absolve o filme de suas escolhas problemáticas — mas explica por que bilheteria e controvérsia coexistem sem se cancelarem.

O paradoxo dos críticos: elogios técnicos, rejeição ideológica

As críticas mistas que o filme recebeu seguem um padrão revelador. Fotografia? Elogiada. Atuações? Elogiadas. Construção de mundo e ritmo narrativo? Também reconhecidos. O que divide opiniões é o que alguns chamam de ‘propaganda disfarçada de entretenimento’ — uma acusação que, dependendo de sua posição política, soará como censura injusta ou crítica necessária.

Vi esse fenômeno antes. Em 2014, ‘American Sniper’ enfrentou críticas semelhantes: técnica impecável, acusações de apologia política, e bilheteria massiva. A diferença é que ‘Dhurandhar: The Revenge’ vem de uma indústria — Bollywood — que historicamente teve suas narrativas nacionalistas normalizadas de formas que o cinema americano não permite. Isso cria uma tensão interessante quando essas produções cruzam fronteiras.

O que me intriga não é a controvérsia em si, mas como ela coexiste com o reconhecimento técnico. É possível fazer cinema magistral enquanto promove mensagens problemáticas? A história do cinema responde com um ‘sim’ retumbante — de Leni Riefenstahl a filmes de guerra americanos. ‘Dhurandhar: The Revenge’ é apenas o mais recente capítulo dessa conversa desconfortável.

O que o sucesso de bilheteria revela sobre o futuro de Bollywood

Depois de ‘RRR’ conquistar o ocidente e ‘Baahubali’ provar que épicos indianos têm mercado global, ‘Dhurandhar: The Revenge’ representa uma evolução significativa: é um filme que não foi ‘suavizado’ para audiências internacionais. Seus 229 minutos, sua classificação R, seus temas politicamente carregados — tudo permaneceu intacto. E o público respondeu.

Isso tem implicações importantes para a indústria. Por anos, produções indianas com ambição internacional operaram sob a suposição de que precisavam ser ‘digested’ para consumo ocidental — mais curtas, menos específicas culturalmente, mais genéricas em tema. O sucesso de ‘Dhurandhar: The Revenge’ desafia essa lógica. O mercado global, parece, está mais interessado em autenticidade do que em acessibilidade diluída.

O fato de o filme já ser o maior sucesso indiano de 2026 e o décimo de todos os tempos — após um único fim de semana — sugere que estamos vendo apenas o começo de um fenômeno que vai muito além de números de bilheteria. É sobre como narrativas culturalmente específicas encontram audiência universal sem sacrificar sua identidade.

Veredito: um fenômeno que merece ser examinado, não apenas consumido

‘Dhurandhar: The Revenge’ não é um filme que se assiste passivamente. É uma produção que exige confronto com suas próprias contradições — como espectador, como consumidor de cultura, como pessoa com opiniões políticas. A qualidade técnica é inegável. As questões éticas também. E é exatamente essa tensão que faz do filme algo que vale a pena discutir.

Para quem gosta de ação bem executada e não se importa com duração estendida, há muito a aproveitar. Para quem se incomoda com narrativas que simplificam conflitos geopolíticos complexos, há motivos para crítica legítima. Para quem estuda cinema e indústria, há um caso de estudo fascinante sobre como controvérsia e sucesso comercial podem alimentar-se mutuamente.

O filme quebra recordes apesar de — ou talvez parcialmente por causa de — tudo que tenta impedi-lo. E isso diz mais sobre o momento cultural que vivemos do que sobre a produção em si. O público está enviando uma mensagem clara: querem cinema que tenha algo a dizer, mesmo que o que diz seja controverso. Cabe a nós, como críticos e espectadores, decidir o que fazer com essa informação.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Dhurandhar: The Revenge’

Quanto tempo dura ‘Dhurandhar: The Revenge’?

O filme tem 229 minutos de duração — quase 4 horas. É o oitavo filme mais longo da história do cinema indiano. Apesar da duração estendida, o ritmo narrativo é mantido de forma eficiente.

Por que ‘Dhurandhar: The Revenge’ foi banido em países do Golfo?

Múltiplos países do Gulf Cooperation Council proibiram o filme por acusações de ‘lente nacionalista’, alegando que a produção transforma conflitos geopolíticos complexos em narrativa de vingança simplificada. O uso de eventos reais como os ataques de 26/11 em Mumbai como pano de fundo foi particularmente controverso.

‘Dhurandhar: The Revenge’ é baseado em fatos reais?

O filme é ficção, mas usa eventos reais como pano de fundo narrativo, incluindo os ataques de 26/11 em Mumbai e a Operation Lyari em Karachi. A sequência de abertura recria os ataques de 2008 de forma gráfica, o que gerou parte das controvérsias.

Precisa ver o primeiro filme para entender ‘Dhurandhar: The Revenge’?

Recomenda-se ter visto o filme de 2025 para compreender melhor o arco do protagonista e o contexto da trama. O filme funciona como sequência direta, mas a qualidade técnica e as sequências de ação podem ser apreciadas independentemente.

Qual é a classificação indicativa de ‘Dhurandhar: The Revenge’?

O filme tem classificação R (restrito) nos Estados Unidos, indicando conteúdo inadequado para menores de 17 anos sem acompanhamento de adulto. A violência gráfica e os temas políticos intensos justificam a restrição.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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