Jo Nesbø ‘traiu’ seus próprios livros para salvar Harry Hole na tela. Descobrimos como improvisações no set e a coragem de reescrever a história transformaram a adaptação da Netflix no oposto do desastre de ‘Boneco de Neve’.
Existem autores que defendem suas obras com unhas e dentes, tratando cada vírgula como sagrada. Jo Nesbø não é um deles. Na adaptação de seus romances para a Netflix, o escritor norueguês fez algo que poucos criadores têm coragem: admitiu que ‘não é casado com a história’ e usou essa liberdade para reescrever seu próprio material. O resultado é uma série que não apenas supera o desastre de ‘Boneco de Neve’ (2017) — aquele thriller com Michael Fassbender que parecia um quebra-cabeça com peças faltando — mas estabelece um novo padrão para adaptações literárias.
O que torna Detective Hole na Netflix fascinante não é apenas sua qualidade (93% no Rotten Tomatoes falam por si), mas o processo criativo por trás dela. Nesbø literalmente esqueceu o que escreveu e usou isso como vantagem. ‘Sou abençoado com uma memória ruim’, ele contou em entrevista. ‘Reler o livro foi tipo, ‘Uau, tem umas coisas legais aqui. Vamos usar.’ E também, ‘Não, não precisamos disso.” É o tipo de honestidade brutal que você raramente ouve de autores adaptando suas próprias obras.
Por que Nesbø ‘traiu’ seus livros para salvar Harry Hole
A série puxa principalmente de ‘The Devil’s Star’, o quinto livro da série de 13 romances de Harry Hole, mas não de forma servil. Nesbø entendeu algo que muitos adaptadores ignoram: fidelidade literal não é o mesmo que fidelidade emocional. ‘Você não precisa necessariamente contar a mesma história’, ele explicou, ‘desde que consiga trazer aquele DNA para a tela.’ O detetive alcoólatra obcecado por casos, o arquirrival Tom Waaler, a relação complicada com Rakel e seu filho Oleg — o núcleo está lá, mas a estrutura foi reorganizada para funcionar como televisão, não como livro filmado.
Isso é mais corajoso do que parece. A adaptação anterior, ‘Boneco de Neve’, tentou comprimir um romance inteiro em duas horas de cinema e o resultado foi um dos fracassos mais notórios dos últimos anos. Fassbender fez o que pôde, mas o filme parecia um esqueleto sem carne — personagens sem densidade, subtramas abandonadas, um vilão cuja motivação se perdeu no caminho. Nesbø aprendeu a lição: em vez de tentar encaixar tudo, ele escolheu o que servia ao formato série e descartou o resto. Sem piedade. Sem nostalgia. Sem respeito pelo ‘autor original’ — porque ele próprio era esse autor.
O método que Tobias Santelmann e Nesbø criaram para Harry Hole
Harry Hole é um personagem notoriamente difícil de interpretar: um homem que mantém suas paredes erguidas o tempo todo, mas precisa deixar o público ver as rachaduras. Tobias Santelmann (que você reconhecerá de ‘The Last Kingdom’) e Nesbø desenvolveram um método fascinante para encontrar esse equilíbrio. ‘Tínhamos que encontrar isso juntos’, Santelmann explicou. ‘A câmera lê tudo. Então fizemos várias takes onde eu segurava tudo, e outra take onde eu abria um pouco. Brincamos com isso para que, na edição, pudessem decidir onde pousar.’
Nesbø aponta um momento específico como decisivo: uma cena onde Harry, armado, pergunta a um colega o que faz um homem atirar em inocentes. A resposta final de Santelmann — ‘Para silenciar as vozes’ — deixou o autor gelado. ‘Olhando para você ali, ‘Ok, ele está lá. Ele está no abismo agora.’ Mas então eu não te conhecia mais.’ É a definição de atuação que transcende o texto: aquele momento onde o ator chega em um lugar escuro que o próprio criador do personagem não previu.
O improviso do macaco de brinquedo que definiu a dinâmica Harry-Tom
Se você assistiu à série, lembra daquele macaco de brinquedo com pratos que aparece em uma cena entre Harry e Tom Waaler? Não estava no roteiro. Joel Kinnaman (‘For All Mankind’, ‘Suicide Squad’) simplesmente pegou o objeto durante uma tomada e começou a brincar com ele, colocando-o na frente de Santelmann que estava ao telefone. A irritação real do ator — ‘Estou no foda-se telefone, você não vê?’ — foi capturada e acabou no corte final. ‘Foi uma coisa realmente irritante de fazer’, Santelmann admitiu, rindo. ‘Ele se divertiu.’
Esse momento encapsula por que a série funciona onde ‘Boneco de Neve’ falhou. Kinnaman descreveu Tom Waaler como ‘impulsionado por instinto, por sua confusão sexual, sua fome por poder e dominância, seus impulsos sádicos’ — um homem que ‘às vezes age contra seu próprio benefício porque é tão movido por impulsos.’ A imprevisibilidade que Kinnaman trouxe para o set, improvisando e fazendo escolhas inesperadas, espelha exatamente a natureza caótica do personagem. Não é apenas atuação; é incorporação.
Joel Kinnaman redescobriu uma ‘marcha’ que não usava há 15 anos
Há algo revelador em Kinnaman interpretar Tom Waaler. O ator sueco-americano passou anos em produções de língua inglesa, mas retornar à Escandinávia para esta série o fez perceber algo: ‘Tenho uma marcha. Tenho outra marcha que simplesmente não estava usando.’ Ele explicou que atuar em sueco traz ‘outro nível de relaxamento e criatividade’ que ele não tem em inglês, mesmo após anos nos EUA. ‘Os primeiros 30 anos da minha vida, crescendo na Suécia com meus amigos, imitando pessoas, imitando dialetos como criança — é algo que conecta em um nível diferente.’
Kinnaman ficou tão impactado pela experiência que fez um ‘juramento’ a si mesmo: ‘Vou fazer trabalhos suecos regularmente de agora em diante.’ É o tipo de detalhe que você só obtém quando um ator está genuinamente engajado com o material, não apenas cumprindo contrato. Ele inclusive admitiu que não tinha lido os livros de Harry Hole antes — conhecia Nesbø por ‘Headhunters’ e outras adaptações — mas mergulhar no ‘mundo depravado de Tom Waaler’ foi ‘material suculento, que faz a boca salivar, para um ator cravar os dentes.’
Veredito: para quem é (e para quem não é) Detective Hole
Se você gosta de noir escandinavo com personagens que carregam feridas visíveis e invisíveis, Detective Hole na Netflix é obrigatório. A série entende que o melhor tipo de adaptação não é aquela que reproduz o livro cena por cena, mas aquela que captura sua essência e encontra novas formas de expressá-la. Nesbø teve a coragem de ‘trair’ seu próprio material porque entendeu que a lealdade verdadeira é ao personagem, não à página escrita.
Agora, se você prefere investigações limpasasas com detetives heróicos e finais embrulhados para presente, talvez passe raiva. Harry Hole não é herói. Ele é um homem caindo em um abismo, e a série tem a honestidade de não tirar seus olhos disso. A pergunta que fica, assistida a primeira temporada: quantos autores teriam a humildade de Nesbø para olhar para sua própria obra e dizer, sem cerimônia, ‘podemos fazer melhor que isso’?
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Perguntas Frequentes sobre Detective Hole
Onde assistir Detective Hole?
Detective Hole está disponível exclusivamente na Netflix desde 2026. É uma produção original da plataforma baseada nos romances de Jo Nesbø.
Quantos episódios tem Detective Hole?
A primeira temporada tem 6 episódios. Cada episódio tem aproximadamente 45-50 minutos de duração.
Precisa ler os livros de Jo Nesbø antes de assistir?
Não. A série foi reescrita pelo próprio Nesbø para funcionar independentemente dos livros. Na verdade, o autor alterou elementos da história original, então conhecer os romances pode até gerar expectativas diferentes do que a série entrega.
É necessário ter visto ‘Boneco de Neve’ (The Snowman)?
Não, e inclusive ‘Boneco de Neve’ (2017) é considerado uma adaptação fracassada. Detective Hole é um reinício da franquia na tela, sem conexão com o filme anterior.
Detective Hole tem segunda temporada confirmada?
A Netflix ainda não confirmou oficialmente a segunda temporada. Com 13 romances na série de Harry Hole, há material suficiente para múltiplas temporadas.

