‘Depois da Festa’: como a Apple TV criou o mistério mais criativo do streaming

Analisamos como ‘Depois da Festa’ (Apple TV+) revolucionou o gênero de mistério ao misturar o Efeito Rashomon com diferentes gêneros cinematográficos. Descubra por que esta série de Christopher Miller é uma obra-prima técnica superior a muitos sucessos do streaming.

Existe um tipo de série que, ao subir dos créditos, deixa aquela sensação incômoda de injustiça: como ninguém está falando disso? ‘Depois da Festa’ (The Afterparty), da Apple TV+, é o exemplo definitivo. Enquanto ‘Only Murders in the Building’ se tornava o queridinho das premiações, esta produção de Christopher Miller (de ‘Aranhaverso’) entregava o mistério mais audacioso e tecnicamente impecável da década.

O que torna a série especial não é o quem matou, mas o como vemos. Ao utilizar o Efeito Rashomon — onde um mesmo evento é contado sob diferentes perspectivas — a série transforma cada depoimento em um ‘filme mental’ (mind movie), adotando um gênero cinematográfico diferente para cada suspeito. É uma aula de linguagem visual disfarçada de comédia.

O conceito de ‘Mind Movies’: a subjetividade como estilo

O conceito de 'Mind Movies': a subjetividade como estilo

A premissa inicial é um clichê proposital: uma celebridade morre em uma festa de reencontro de colégio. A Detetive Danner (Tiffany Haddish) chega para interrogar os presentes. A genialidade explode aqui: a série entende que ninguém é o vilão da sua própria história. Todos somos os protagonistas do nosso próprio filme.

Quando Aniq (Sam Richardson) conta sua versão, estamos em uma comédia romântica clássica, com luz suave e trilha de piano. Mas quando o agressivo Brett (Ike Barinholtz) assume a narrativa, a câmera se torna instável, a saturação aumenta e a série vira um thriller de ação genérico dos anos 90. Essa mudança não é apenas estética; ela revela as inseguranças e delírios de cada personagem.

Análise Técnica: o rigor por trás da paródia

O que separa ‘Depois da Festa’ de uma paródia comum do ‘Saturday Night Live’ é o comprometimento técnico. Um exemplo brilhante ocorre na primeira temporada, no episódio focado em Zoe (Zoe Chao). Sua narrativa é apresentada como uma animação mista, refletindo seu estado de espírito fragmentado e artístico. A transição do live-action para o traço animado é fluida e serve para pontuar como ela se sente ‘fora de lugar’ naquela realidade.

A trilha sonora de Daniel Pemberton merece menção honrosa. Ele não apenas compõe um tema principal, mas cria identidades sonoras completas para cada gênero. Do sintetizador oitocentista do episódio ‘Noir’ ao pop chiclete do episódio musical, a música dita o ritmo da edição, que se adapta perfeitamente: cortes rápidos para ação, planos longos e simétricos para o episódio inspirado em Wes Anderson na segunda temporada.

Por que ‘Depois da Festa’ não atingiu o patamar de ‘Only Murders’?

Por que 'Depois da Festa' não atingiu o patamar de 'Only Murders'?

A comparação com o sucesso do Hulu/Disney+ é inevitável. Ambas são comédias de mistério (whodunnits) modernas. No entanto, ‘Only Murders’ é comfort food — o carisma de Steve Martin e Martin Short é um porto seguro. Já ‘Depois da Festa’ exige mais do espectador. Ela é cinética, experimental e intelectualmente densa em suas referências.

O marketing da Apple TV+ enfrentou o desafio de vender uma série que muda de rosto a cada 30 minutos. Enquanto o público médio busca familiaridade, Christopher Miller e Phil Lord entregaram inovação radical. Infelizmente, o algoritmo muitas vezes pune o que não pode ser facilmente categorizado.

O erro do cancelamento e o legado da originalidade

O cancelamento após a segunda temporada em 2023 foi um golpe na criatividade do streaming. A série provou que o gênero de mistério ainda tinha fôlego para ser reinventado. A segunda temporada, ambientada em um casamento, elevou o nível ao explorar gêneros como film noir, romance de época (Jane Austen) e até documentários found footage.

Embora a Apple tenha priorizado investimentos em épicos de ficção científica, ‘Depois da Festa’ permanece como uma obra fechada e recomendadíssima. As duas temporadas possuem conclusões satisfatórias para seus respectivos crimes. É a escolha ideal para quem busca um mistério que respeita a inteligência do público e celebra a história do cinema em cada enquadramento.

Para quem recomendamos?

Se você é fã de Knives Out (Entre Facas e Segredos) e aprecia quando a forma é tão importante quanto o conteúdo, ‘Depois da Festa’ na Apple TV+ é obrigatória. É uma série que recompensa o rewatch: após descobrir o assassino, reassistir aos episódios sob a ótica da mentira torna a experiência ainda mais rica tecnicamente.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Depois da Festa’ (The Afterparty)

Onde posso assistir ‘Depois da Festa’?

A série é uma produção original da Apple e está disponível exclusivamente na plataforma de streaming Apple TV+.

A série foi cancelada? Terá 3ª temporada?

Infelizmente, a Apple TV+ cancelou ‘Depois da Festa’ após duas temporadas. Não há planos atuais para uma terceira temporada, mas as duas existentes possuem histórias com início, meio e fim.

Preciso assistir à 1ª temporada para entender a 2ª?

Embora os crimes sejam diferentes, recomenda-se assistir na ordem. Alguns personagens centrais, como a Detetive Danner, Aniq e Zoe, retornam, e o desenvolvimento de seus relacionamentos é contínuo.

‘Depois da Festa’ é baseada em algum livro?

Não, a série é uma ideia original criada por Christopher Miller. Ela se inspira livremente na estrutura de filmes como ‘Rashomon’ de Akira Kurosawa.

Qual a classificação indicativa da série?

A série tem classificação indicativa de 14 anos, contendo consumo de álcool, linguagem moderada e situações de suspense, mas sem violência gráfica excessiva.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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