‘Deadpool & Wolverine’ repetiu estratégia da Fase 1 que rendeu US$ 2,1 bi

O sucesso de ‘Deadpool & Wolverine’ não foi só carisma: foi Deadpool Wolverine estratégia lançamento. Mostramos como o “único filme do ano” — fórmula da Fase 1 do MCU — recria urgência, concentra marketing e devolve ao público a sensação de evento.

Há uma ironia saborosa no maior sucesso de bilheteria do MCU pós-‘Os Vingadores: The Avengers’ ter vindo do filme que a Marvel tratou como exceção no próprio calendário. Enquanto a franquia passou anos apostando em volume — séries e filmes em ritmo industrial — ‘Deadpool & Wolverine’ fez o oposto: foi o único longa do MCU nos cinemas em 2024. E terminou a corrida como evento de US$ 1,4 bilhão.

Isso não é “mágica do multiverso”. É estratégia — e, mais do que isso, memória institucional. A Marvel já tinha descoberto esse truque na Fase 1… e depois decidiu fingir que ele não existia.

O que ‘Deadpool & Wolverine’ copia da Fase 1: um ano inteiro para um único filme virar evento

O que 'Deadpool & Wolverine' copia da Fase 1: um ano inteiro para um único filme virar evento

Na Fase 1, o MCU ainda não era um “serviço”. Era cinema — com calendário espaçado, campanha longa e espaço cultural para cada título respirar. Em 2010, por exemplo, a Marvel lançou ‘Homem de Ferro 2’ como único filme do estúdio naquele ano. O resultado foi US$ 621 milhões, um número alto para uma sequência que dificilmente entra em qualquer lista de “top 10” da franquia.

Em 2012, a lógica se repetiu no modo máximo: ‘Os Vingadores: The Avengers’ chegou sozinho, sem um segundo filme do MCU para dividir manchete, orçamento de marketing ou conversa nas redes. Deu US$ 1,5 bilhão e consolidou o universo compartilhado como fenômeno.

Somados, os dois “anos de filme único” (2010 e 2012) rendem cerca de US$ 2,1 bilhões — e, mais importante, renderam evento. O ponto não é “um filme por ano é sempre melhor”. O ponto é que, quando o estúdio concentra a atenção, ele também concentra a urgência.

Doze anos depois, ‘Deadpool & Wolverine’ retomou exatamente esse mecanismo: um único título do MCU para o público tratar como a chance do ano. Não “mais um capítulo” — o capítulo.

Por que “único filme do ano” funciona: a psicologia da escassez aplicada ao blockbuster

Assisti ‘Deadpool & Wolverine’ na semana de estreia, e a sensação na sala não lembrava a Marvel recente — lembrava a Marvel evento. Gente caracterizada, comentários nos corredores, risadas e reações de público que parecem coreografadas por uma expectativa coletiva. A energia que, por anos, ficou associada a estreias como ‘Os Vingadores: The Avengers’.

A explicação é menos cinematográfica e mais comportamental: escassez aumenta valor percebido. Quando o MCU soltava três filmes e várias séries por ano, cada lançamento perdia “peso”. Virou rotina. Um produto constante deixa de parecer indispensável — parece só mais um item do cardápio.

Quando você tem apenas um filme no ano, a mensagem muda: “se você não for agora, acabou — o próximo só daqui a muito tempo”. A escolha vira urgência. E urgência, em cinema, vira bilheteria: mais gente na estreia, menos adiamento, menos “vejo depois no streaming”.

O problema que a Marvel fabricou: saturação e sensação de dever

O problema que a Marvel fabricou: saturação e sensação de dever

A Fase 4 apostou em expansão agressiva: sete filmes e oito séries em cerca de dois anos. Para o fã que gosta de caçar referências, é um banquete. Para o público geral, vira um labirinto — e labirinto raramente vira hábito saudável.

Isso aparece no tipo de conversa que se tornou comum fora da bolha de fãs. Eu ouvi variações da mesma frase mais de uma vez: “eu gostava, mas não sei mais o que é importante”. Um amigo resumiu com precisão incômoda: “parece que, se eu não vejo tudo, eu estou atrasado — e eu não tenho tempo pra isso”.

Esse é o coração do desgaste: o público não se cansa necessariamente de super-heróis; ele se cansa de obrigação. Quando cada filme parece exigir duas séries como pré-requisito e mais uma ponta solta do multiverso, entretenimento vira checklist.

‘Deadpool & Wolverine’ entra nesse cenário oferecendo exatamente a saída que a Marvel vinha negando: um filme que se sustenta como experiência. Ele pode dialogar com a nostalgia Fox e com o passado da cultura Marvel, mas não se vende como “lição de casa”. O apelo é direto: dois personagens, carisma, piadas, violência cartunesca, e a sensação de que você não precisa de um diagrama para participar.

Bilheteria não é só qualidade: é calendário, foco e concentração de atenção

Seria desonesto reduzir US$ 1,4 bilhão a “escassez”. O filme também acerta em pontos concretos: a química Reynolds/Jackman (que funciona até quando a piada é ruim), o fan-service que sabe quando vira piada sobre si mesmo e a escolha de celebrar — não apagar — um pedaço inteiro da história dos filmes Marvel fora do MCU.

Mas a janela única importa porque muda a física do mercado. ‘Homem de Ferro 2’ fez US$ 621 milhões em 2010 sendo o único título do MCU no ano. Se tivesse concorrido com mais dois filmes “obrigatórios” da própria marca, com campanhas sobrepostas e conversa dividida, é difícil imaginar o mesmo desempenho.

O mesmo vale aqui. Em um ano com ‘Capitão América: Brave New World’ e ‘Thunderbolts’ disputando o mesmo oxigênio cultural, a bilheteria de ‘Deadpool & Wolverine’ estaria garantida? Não dá para cravar, mas dá para afirmar o óbvio: o filme ganhou um palco que a Marvel não costuma dar a si mesma.

O dilema do MCU a partir de agora: repetir o aprendizado ou repetir o excesso?

O futuro próximo está desenhado para o formato “evento”: ‘Vingadores: Doutor Destino’ e ‘Vingadores: Guerras Secretas’ prometem a escala máxima, com personagens cruzando linhas do multiverso. Para esse tipo de filme, o modelo de “poucos lançamentos, foco total” parece não apenas sensato — parece necessário.

A pergunta é o que vem depois. A Marvel vai voltar ao modo esteira, multiplicando produtos até a marca parecer barulho de fundo? Ou vai aceitar que, em 2026, menos pode ser mais lucrativo porque é mais raro, mais claro e mais fácil de acompanhar?

Existe até um argumento frio de negócios: três filmes medianos de US$ 400 milhões cada não geram o mesmo impacto cultural — e muitas vezes nem o mesmo total — que um único filme de US$ 1,4 bilhão com campanha concentrada, menos canibalização interna e mais sensação de “ocasião”.

Streaming mudou hábitos. A atenção do público ficou mais cara. E, nesse cenário, a Deadpool Wolverine estratégia lançamento não foi acaso nem sorte: foi adaptação a um mercado que já não tolera excesso da mesma franquia sem um bom motivo.

A Marvel inventou o universo compartilhado. Agora precisa aprender a administrar um universo sustentável. E a pista, ironicamente, estava lá atrás — na Fase 1 que ela parece ter esquecido.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Deadpool & Wolverine’

Qual foi a bilheteria de ‘Deadpool & Wolverine’?

O filme fechou com cerca de US$ 1,4 bilhão em bilheteria mundial, tornando-se o maior sucesso do MCU pós-‘Os Vingadores: The Avengers’ em termos de arrecadação global.

‘Deadpool & Wolverine’ foi o único filme do MCU em 2024?

Sim. Nos cinemas, a Marvel Studios lançou apenas ‘Deadpool & Wolverine’ em 2024, o que ajudou a transformar o filme em “evento” ao concentrar marketing e atenção do público.

Por que lançar só um filme no ano pode aumentar a bilheteria?

Porque reduz a canibalização entre títulos da mesma marca e aumenta a sensação de escassez: o público percebe aquela estreia como “a chance do ano” para ver MCU no cinema, o que tende a acelerar a procura nas primeiras semanas.

Preciso ver séries do Disney+ para entender ‘Deadpool & Wolverine’?

Não é obrigatório. O filme foi construído para funcionar como experiência principal por si só, com humor e dinâmica dos protagonistas guiando a história, mesmo para quem não acompanha tudo do MCU.

Qual a diferença entre a estratégia da Fase 1 e a da Fase 4 do MCU?

Na Fase 1, os lançamentos eram mais espaçados e cada filme tinha tempo para dominar a conversa cultural. Na Fase 4, a combinação de muitos filmes e muitas séries em pouco tempo aumentou a sensação de saturação e “dever de casa” para parte do público.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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