Analisamos ‘Dead Set’, a minissérie de Charlie Brooker que transformou o ‘Big Brother’ em um banho de sangue. Descubra como esta sátira visceral de 2008 forjou o niilismo de ‘Black Mirror’ e por que ela continua sendo a crítica mais ácida de Brooker à cultura do espetáculo.
Existe um tipo de obra que funciona como arqueologia reversa: você a consome anos depois e percebe que o DNA de um fenômeno global já estava ali, em estado bruto. ‘Dead Set’ Charlie Brooker é exatamente isso. Lançada em 2008, a minissérie não é apenas um ensaio para ‘Black Mirror’; é um ataque frontal à cultura do espetáculo que, vista hoje, parece ter previsto a nossa dessensibilização digital antes mesmo do Instagram existir.
O Big Brother como bunker: A premissa que desafiou a TV britânica
O conceito é de uma simplicidade cortante: o apocalipse zumbi explode durante uma noite de eliminação do ‘Big Brother’ britânico. Enquanto o mundo acaba em sangue lá fora, os participantes — trancados na casa mais vigiada do país — permanecem em uma ignorância cômica e trágica. Brooker não apenas satirizou o formato; ele usou a infraestrutura real do programa. A presença de Davina McCall, a apresentadora real do reality na época, interpretando a si mesma (e eventualmente sua versão morta-viva), deu ao show uma camada de hiper-realismo que nenhum departamento jurídico moderno permitiria.
Acompanhamos Kelly (Jaime Winstone), uma produtora exausta, e Patrick (Andy Nyman), o produtor executivo que encarna o pior da indústria. Patrick é, talvez, o personagem mais importante para entender o niilismo de Brooker: ele é mais cruel, egoísta e perigoso do que qualquer zumbi. Se em ‘Black Mirror’ a tecnologia é a vilã, em ‘Dead Set’ o vilão é o caráter humano moldado pela busca por audiência.
Reality show como laboratório social (e necrotério)
A sacada de Brooker não é apenas estética. O ‘Big Brother’ é, por definição, um experimento de isolamento. Ao introduzir zumbis, o autor não muda a dinâmica do jogo; ele apenas acelera o processo de eliminação. Os participantes, treinados para performar para as câmeras, continuam buscando o ângulo certo e o conflito artificial mesmo quando a morte arranha as portas de vidro temperado.
Há uma sequência específica que define a série: quando os sobreviventes precisam decidir quem sairá para buscar mantimentos, a discussão espelha as votações triviais do programa. A vida humana é reduzida a um paredão literal. Brooker nos força a encarar o fato de que já consumíamos o sofrimento alheio como entretenimento muito antes dos vídeos de tragédias viralizarem no WhatsApp.
Zumbis de ‘Extermínio’ em um cenário da Endemol
Diferente de muitas sátiras que falham como obra de gênero, ‘Dead Set’ é um terror de sobrevivência impecável. Os mortos-vivos aqui seguem a escola de Danny Boyle em ‘Extermínio’ (2002): são rápidos, raivosos e implacáveis. A direção de Yann Demange (que mais tarde brilharia em ’71’) usa as câmeras de segurança da casa para criar uma estética voyeurística e claustrofóbica.
A fotografia granulada e a montagem frenética nos momentos de ataque contrastam com o silêncio artificial dos confessionários. É um terror que entende o espaço geográfico da casa — o jardim que vira campo de morte, a despensa que vira bunker — transformando um cenário familiar de entretenimento em um labirinto de tripas e desespero.
Onde o niilismo de ‘Black Mirror’ foi forjado
Se você maratonou ‘Black Mirror’ na Netflix, vai reconhecer os genes de Brooker em cada frame, mas com uma diferença crucial: a raiva. Em 2008, Charlie Brooker ainda era o crítico de TV ácido do ‘The Guardian’, e ‘Dead Set’ foi seu grito de revolta contra a televisão vazia. Enquanto ‘Black Mirror’ é clínico e elegante, ‘Dead Set’ é sujo e visceral.
A presença de um jovem Riz Ahmed (muito antes de ‘Sound of Metal’) como Riq mostra o faro de Brooker para talentos, mas também sua disposição em submeter personagens promissores a destinos miseráveis. Não há finais reconfortantes aqui. O desfecho da minissérie é um dos mais sombrios da história da TV britânica, deixando claro que, para Brooker, a humanidade já havia perdido sua alma muito antes do primeiro zumbi morder alguém.
Por que assistir ‘Dead Set’ em 2026?
Assistir a ‘Dead Set’ hoje é entender a origem do cinismo moderno. A série antecipou a era da live-stream constante e da monetização da tragédia. É uma obra curta (apenas cinco episódios), sem gorduras, que entrega mais crítica social em três horas do que muitas séries de dez temporadas.
Se você quer ver onde o criador de uma das séries mais importantes do século começou a afiar sua lâmina, ‘Dead Set’ é parada obrigatória. É um lembrete sangrento de que, no fim das contas, o público sempre quer ver alguém ser devorado — seja por dentes ou por cancelamentos em rede nacional.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Dead Set’
‘Dead Set’ é uma continuação de ‘Black Mirror’?
Não, ‘Dead Set’ foi lançada em 2008, três anos antes de ‘Black Mirror’. No entanto, ambas foram criadas por Charlie Brooker e compartilham o mesmo tom de crítica social e niilismo tecnológico.
Quantos episódios tem a minissérie ‘Dead Set’?
A minissérie é composta por 5 episódios curtos. No total, a obra tem cerca de 145 minutos, funcionando quase como um filme longo se assistida de uma vez.
Onde posso assistir ‘Dead Set’ de Charlie Brooker?
Atualmente, a disponibilidade varia por região. No Brasil, ela já esteve no catálogo da Netflix, mas frequentemente entra e sai de plataformas de streaming. Recomenda-se verificar serviços de VOD como Apple TV ou Google Play.
O reality show mostrado na série é real?
A série utiliza a marca real ‘Big Brother’ e foi filmada com a colaboração da produtora original (Endemol). Até mesmo a apresentadora real da época, Davina McCall, participa interpretando a si mesma.
Riz Ahmed está em ‘Dead Set’?
Sim, o ator vencedor do Oscar Riz Ahmed interpreta Riq, um dos protagonistas que tenta sobreviver ao apocalipse fora da casa do Big Brother. Foi um de seus primeiros papéis de destaque.

