O quarto episódio de Daredevil: Born Again reutiliza footage da série Netflix, confirmando oficialmente o cânone. Analisamos por que essa decisão é mais eficaz que refilmar e o que significa para o futuro do MCU.
Por anos, a pergunta que assombrou os fãs do Demônio da Hell’s Kitchen não foi ‘quando ele volta?’, mas sim ‘o que vimos antes conta?’. Com o quarto episódio da segunda temporada de Daredevil: Born Again, a conexão Netflix deixa de ser uma promessa vazia para se tornar uma declaração de princípios. A Marvel Studios finalmente parou de brincar de ‘será ou não é cânone?’ e fez o que era mais lógico, honesto e emocionalmente eficaz: assumiu o passado.
Ao invés de refilmar a origem de Matt Murdock, a produção optou por reutilizar imagens de arquivo da série original. É uma decisão que parece econômica no papel, mas que carrega um peso narrativo gigantesco. É a diferença entre ‘recontar’ uma história e ‘honrar’ uma história. E, depois de anos de campanha #SaveDaredevil, ver John Patrick Hayden e Skylar Gaertner novamente na tela — mesmo que por segundos — é o tipo de validação que nenhum ator novo naqueles papéis conseguiria entregar.
Por que reutilizar footage funciona melhor que refilmar
Para quem assistiu às três temporadas da Netflix, o reconhecimento é imediato. Quando vemos o jovem Matt sentado na Clinton Church ou o close no rosto dele olhando para cima, não estamos vendo uma ‘reconstituição’. Estamos vendo exatamente o que Matt está lembrando. Há uma integridade psicológica nisso. A memória humana não refilma seus traumas em alta definição com atores diferentes; ela repete o que já foi gravado.
Ao usar os clipes originais de ‘Cut Man’ (temporada 1) e ‘Please’ (temporada 3), a série cria uma ponte direta com a experiência do personagem. Reparei num detalhe técnico imediatamente: a correção de cor foi alterada e o enquadramento, recortado. É uma sutileza que diz ‘isso é uma memória’, diferenciando visualmente o flashback da narrativa presente, mas mantendo a essência intacta. Se tivessem trazido o ator Eli D Goss, que interpretou o jovem Matt na primeira temporada de Born Again, estaríamos lidando com uma ruptura visual. Ao manter Skylar Gaertner, a série diz ao público: ‘Sim, aquele menino que você viu sofrer na Netflix é o mesmo homem que está lutando agora’.
O que essa decisão significa para o MCU
Esta é a parte que me interessa como crítico: o significado industrial dessa escolha. Durante muito tempo, a Marvel Studios tratou as séries da Netflix (e da ABC, como Agents of SHIELD) como primos pobres do universo cinematográfico. Existiam, mas não eram ‘convidados para o jantar de Thanksgiving’. A reutilização do footage de Jack Murdock preparando sua luta fatídica contra Carl Creel muda esse jogo.
Não é apenas um Easter egg — é um ato de legitimação. A Marvel Studios admitiu, tacitamente, que não precisa reinventar a roda. A atuação de Charlie Cox como Matt Murdock já era perfeita; a de Vincent D’Onofrio como Fisk, idem. E a dinâmica familiar com Jack Murdock, construída com tanto cuidado na série original, não precisava ser reescrita. Isso abre um precedente fascinante: se o jovem Matt e Jack podem voltar através de arquivos, o que impede o retorno de outros elementos daquela era? A porta está aberta para que a mitologia da Netflix não seja apenas referenciada, mas habitada novamente.
Economia criativa ou preguiça? O veredito
Alguns podem argumentar que reutilizar cenas é corte de custos. Discordo profundamente. Refilmar cenas icônicas seria o equivalente a repintar a Mona Lisa porque o museu mudou de endereço. A cena de Jack Murdock no Fogwell’s Gym, tirada do episódio ‘Cut Man’, carrega uma carga emocional específica porque nós, espectadores veteranos, sabemos o que vem depois. Sabemos que ele vai morrer. Sabemos que aquela luta é sua última atuação de amor. Um refilme diluiria essa tensão histórica.
A decisão criativa valida a experiência do público leal. É um reconhecimento de que o tempo que investimos naquelas três temporadas não foi desperdiçado em uma ‘linha do tempo alternativa descartável’. A Marvel está dizendo: ‘Se você chorou com a morte do Jack Murdock em 2015, esse sentimento ainda é válido em 2026’. Em uma era de reboots e retcons constantes, essa estabilidade é rara.
Daredevil: Born Again acerta onde muitos projetos de franquia erram: respeita o que veio antes em vez de tentar ‘melhorar’ o que já funcionava. A conexão com a série da Netflix não é mais um rumor de corredor; está gravada na tela, quadro a quadro. Para os fãs, é a vitória final. Para a Marvel, é a admissão de que às vezes o melhor caminho para frente é olhar para trás — e usar exatamente o material original.
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Perguntas Frequentes sobre Daredevil: Born Again
Daredevil: Born Again é continuação direta da série da Netflix?
Sim. O uso de footage original nas cenas de flashback confirma que os eventos da série Netflix (2015-2018) são parte oficial do MCU. A Marvel Studios validou três temporadas de história.
Quais cenas da Netflix aparecem em Born Again?
O episódio 4 reutiliza cenas de ‘Cut Man’ (temporada 1), incluindo Jack Murdock no Fogwell’s Gym, e momentos de ‘Please’ (temporada 3) com o jovem Matt na Clinton Church.
Preciso assistir a série da Netflix para entender Born Again?
Não é obrigatório — a série funciona por conta própria. Porém, quem viu a versão Netflix terá camadas emocionais adicionais, especialmente nos flashbacks com Jack Murdock e nas referências ao passado de Matt.
Charlie Cox é o mesmo ator de Daredevil na Netflix e no MCU?
Sim. Charlie Cox interpreta Matt Murdock desde a série Netflix (2015) e continuou no papel em Sem Regras (2021), Echo (2024) e Daredevil: Born Again. Vincent D’Onofrio também retorna como Wilson Fisk.
Por que a Marvel reutilizou cenas antigas em vez de refilmar?
A decisão preserva a integridade emocional do material original. Os atores John Patrick Hayden (Jack) e Skylar Gaertner (jovem Matt) construíram momentos icônicos que refilmagens não conseguiriam replicar com o mesmo impacto.

