‘Custe o que Custar’: o que explica o abismo entre críticos e público?

Analisamos o abismo de 21 pontos no Rotten Tomatoes de ‘Custe o que Custar’, a nova série de Harlan Coben na Netflix. Entenda por que a crítica elogia a técnica enquanto o público demonstra sinais claros de fadiga da fórmula de suspense do autor.

Harlan Coben se consolidou como uma espécie de algoritmo humano para a Netflix. A cada nova estreia, o roteiro parece seguir um GPS narrativo infalível: um subúrbio aparentemente calmo, um desaparecimento inexplicável e uma sucessão de segredos que fariam qualquer serviço de inteligência invejar a rede de mentiras de uma família comum. ‘Custe o que Custar’ (Run Away), a mais recente incursão nesse universo, estreou em 1º de janeiro de 2026 escancarando um fenômeno: o público está começando a questionar a fórmula que antes consumia sem piscar.

No Rotten Tomatoes, os números desenham um cenário de conflito. Enquanto a crítica especializada sustenta um sólido 78%, a audiência despencou para 57%. Essa discrepância de 21 pontos não é apenas um detalhe estatístico; é o sintoma de que a ‘fadiga de Coben’ finalmente chegou, transformando o que era suspense eletrizante em algo que beira o previsível para o espectador veterano.

O olhar técnico: por que a crítica ainda compra a ideia?

O olhar técnico: por que a crítica ainda compra a ideia?

Para o crítico que assiste a dezenas de pilotos por semana, ‘Custe o que Custar’ se destaca pela competência técnica. James Nesbitt, um veterano do gênero (visto em ‘The Missing’), entrega um Simon Greene visceral. A direção de fotografia opta por uma paleta fria e dessaturada que sublinha o desespero de um pai procurando a filha em cracolândias e submundos urbanos. É um thriller bem montado.

A crítica tende a premiar a execução. Jeff Ewing (Collider) e outros analistas focam na capacidade da série em manter o ritmo. De fato, a estrutura de montagem é cirúrgica: cada episódio termina exatamente no ponto de maior tensão, uma técnica de ‘gancho’ que Coben domina como poucos. O problema é que, para quem busca substância além do mecanismo de retenção, a série começa a mostrar as costuras.

A exaustão do plot twist: quando o choque vira clichê

O público, por outro lado, avalia a experiência emocional. E aqui, ‘Custe o que Custar’ tropeça em sua própria ambição de surpreender. A série empilha reviravoltas com tamanha frequência que a suspensão de descrença — aquele contrato invisível onde o espectador aceita o absurdo em nome da diversão — acaba rompido.

Diferente de ‘Não Fale com Estranhos’, onde o mistério parecia orgânico, aqui as coincidências são forçadas. Quando Simon Greene cruza caminhos com Elena Ravenscroft (Ruth Jones), a trama se torna um emaranhado de conveniências. Para o espectador que já maratonou ‘Safe’ e ‘A Grande Ilusão’, o truque de transformar o personagem mais insuspeito no vilão final já não causa impacto; causa revirar de olhos. O público não está punindo a qualidade técnica, mas a falta de frescor.

O ranking Coben-Netflix: onde a nova série se encaixa?

O ranking Coben-Netflix: onde a nova série se encaixa?

Apesar da recepção mista, ‘Custe o que Custar’ se posiciona curiosamente no meio da tabela das adaptações do autor. O histórico mostra que a Netflix encontrou o ‘ponto doce’ entre crítica e audiência em produções fora do eixo britânico:

  • ‘O Inocente’ (100%): A versão espanhola de Oriol Paulo continua sendo a obra-prima, usando o estilo de Coben com uma elegância cinematográfica superior.
  • ‘Fique Comigo’ (92%): Conseguiu equilibrar o drama familiar com o suspense sem parecer exageradamente artificial.
  • ‘Custe o que Custar’ (78% críticos / 57% público): Supera produções mais fracas como ‘Que Falta Você Me Faz’ (50%), mas sinaliza o declínio do interesse popular.

Vale notar que o sucesso comercial de Coben parece imune a notas baixas. ‘A Grande Ilusão’ detém números de audiência astronômicos (98,2 milhões de visualizações) mesmo com avaliações medíocres do público. Isso prova que a ‘engenharia de binge-watching’ da Netflix funciona: você pode não gostar da série, mas não consegue parar de assistir até descobrir quem matou quem.

Veredito: vale o seu tempo?

‘Custe o que Custar’ é o equivalente televisivo a um fast-food de luxo. É eficiente, mata a fome de entretenimento imediato e é produzido com ingredientes de qualidade (atuações e técnica). No entanto, não deixa um sabor duradouro. Se você é fã ardoroso do autor, encontrará todos os elementos que ama. Se você já sente que as histórias de Coben estão começando a parecer todas iguais, esta série dificilmente mudará sua opinião. O abismo entre críticos e público reflete exatamente isso: a diferença entre admirar a engrenagem e cansar-se da repetição do movimento.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Custe o que Custar’ (Harlan Coben)

‘Custe o que Custar’ é baseada em qual livro?

A série é uma adaptação direta do livro ‘Run Away’ (publicado no Brasil como ‘Custe o que Custar’), lançado por Harlan Coben em 2019.

Quantos episódios tem a série ‘Custe o que Custar’ na Netflix?

A minissérie possui 8 episódios, com duração média de 45 a 50 minutos cada, seguindo o padrão das outras produções de Coben na plataforma.

Preciso assistir a outras séries de Harlan Coben antes desta?

Não. Embora façam parte de um acordo de produção entre Coben e Netflix, as histórias são independentes e não compartilham o mesmo universo ou personagens.

Onde a série foi filmada?

Diferente do livro que se passa nos EUA, a série da Netflix foi filmada e ambientada no Reino Unido, principalmente na região de Bristol e arredores de Manchester.

Haverá uma 2ª temporada de ‘Custe o que Custar’?

Não é provável. A série foi concebida como uma minissérie que cobre todo o arco do livro original, finalizando a trama de Simon e Paige Greene.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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