‘Custe o que Custar’: o erro de roteiro que impediu a série de ser impecável

Analisamos como a decisão de manter a personagem de Minnie Driver em coma sabotou o potencial de ‘Custe o que Custar Netflix’. Entenda por que o roteiro sacrificou uma tragédia emocional profunda em nome de um twist previsível e mecânico.

Existe um tipo de decisão de roteiro que você percebe imediatamente como um atalho. Não é necessariamente ruim — às vezes é até elegante. Mas em ‘Custe o que Custar Netflix’ (adaptação do livro ‘Run Away’), a escolha de colocar Ingrid em coma por quase toda a série é o tipo de artifício que sacrifica a alma da obra em nome de um twist que, ironicamente, teria sido muito mais devastador sem ele.

A série chegou ao topo da Netflix com a eficiência habitual de Harlan Coben. Ele é uma máquina de produzir suspenses que funcionam, e esta obra não é exceção. Mas há uma diferença abissal entre uma série que ‘funciona’ e uma que se torna memorável. Essa distância, neste caso, é personificada pelo desperdício de Minnie Driver.

O coma como muleta: Por que tirar Ingrid de cena foi um erro estratégico

O coma como muleta: Por que tirar Ingrid de cena foi um erro estratégico

A premissa coloca Simon (James Nesbitt) e Ingrid (Minnie Driver) no rastro da filha desaparecida, Paige. Após Ingrid levar um tiro investigando um ponto de drogas, ela passa praticamente a temporada inteira em uma cama de hospital. A partir daí, a narrativa foca quase exclusivamente na busca solitária de Simon.

Por que o roteiro fez isso? A resposta é puramente mecânica: Ingrid é quem matou Aaron. Se ela estivesse acordada e participando da investigação, o público poderia desconfiar dela cedo demais. O coma é uma forma de esconder a culpada à vista de todos, simplesmente removendo-a da equação. É funcional para o mistério, mas desastroso para o drama. Minnie Driver — uma atriz que carrega uma densidade emocional rara — fica reduzida a um adereço de cenário, enquanto a série perde sua bússola moral mais interessante.

A tragédia grega que o roteiro não teve coragem de explorar

No desfecho, descobrimos que Ingrid matou Aaron para proteger Paige, sem saber que Aaron era seu próprio filho biológico (fruto de um trauma do passado no culto Beacon of the Shining Truth). É uma tragédia de proporções clássicas: a mãe que mata o filho para salvar a filha, perpetuando o ciclo de violência que tentou deixar para trás.

O problema é que, como Ingrid está em coma, ela nunca vivencia essa revelação. Simon e Paige decidem enterrar o segredo. Tecnicamente, a fotografia da série enfatiza esse isolamento; as cenas no hospital são lavadas, estéreis e frias, contrastando com o caos visual das buscas de Simon. Mas esse distanciamento visual acaba espelhando o distanciamento emocional: a personagem que deveria estar no centro da dor é mantida em um estado de inconsciência conveniente.

Imagine o peso dramático se Ingrid estivesse acordada, investigando ao lado do marido enquanto carrega o segredo do assassinato, para então descobrir a identidade da vítima em tempo real. O payoff emocional seria incomparável ao que recebemos.

Minnie Driver merecia o protagonismo absoluto

Minnie Driver merecia o protagonismo absoluto

James Nesbitt entrega um trabalho competente como o ‘homem comum’ em situações extraordinárias, mas seu personagem é fundamentalmente reativo. Ele descobre pistas e reage a elas. Ingrid, por outro lado, é quem possui as cicatrizes mais profundas e a conexão direta com o antagonista central.

Driver mostrou em obras como ‘Good Will Hunting’ que domina o equilíbrio entre vulnerabilidade e força. Em ‘Custe o que Custar’, ela poderia ter transformado a série em um estudo de personagem sobre culpa e instinto materno. Em vez disso, o roteiro prefere o truque do ‘quem matou’ sobre o ‘por que isso importa’. É uma escolha que empobrece o material original de Coben, que na literatura permite um acesso muito mais íntimo aos pensamentos e dilemas da mãe.

O problema estrutural das adaptações de Harlan Coben

Esta não é a primeira vez que uma produção da ‘Coben-Netflix’ prioriza o choque do twist sobre a coerência emocional. A estrutura dos livros depende de revelar informações no momento exato, mas na televisão, quando você remove uma atriz do calibre de Driver da ação, o público sente a lacuna.

Compare com ‘Gone Girl’ (Garota Exemplar): David Fincher mantém a protagonista ativa e presente, mesmo quando ela é o mistério. O impacto vem de acompanhar sua mente, não de escondê-la. Em ‘Custe o que Custar’, o mistério é preservado, mas a conexão com o espectador é sacrificada no processo. A série é um entretenimento sólido, mas fica o gosto amargo de que, com um pouco mais de coragem narrativa, ela poderia ter sido impecável.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Custe o que Custar’

‘Custe o que Custar’ é baseada em qual livro?

A série é uma adaptação do livro ‘Run Away’ (lançado no Brasil como ‘Custe o que Custar’), escrito por Harlan Coben e publicado originalmente em 2019.

Quem matou Aaron na série ‘Custe o que Custar’?

O grande twist revela que Ingrid (Minnie Driver) matou Aaron. Ela cometeu o crime para proteger sua filha Paige, sem saber que Aaron era, na verdade, seu filho biológico que ela acreditava ter morrido no nascimento.

Terá 2ª temporada de ‘Custe o que Custar’ na Netflix?

Dificilmente. A produção foi concebida como uma minissérie limitada que cobre todo o arco do livro original, encerrando o mistério principal no último episódio.

Onde a série foi filmada?

Embora o livro se passe nos Estados Unidos, a adaptação da Netflix mudou a ambientação para o Reino Unido, com filmagens principais ocorrendo em Manchester e arredores.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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