A 2ª temporada de ‘Cross’ expõe um fenômeno crescente no streaming: enquanto críticos celebram a honestidade da adaptação de James Patterson (82% no Rotten Tomatoes), a audiência rejeita a abordagem explícita de temas sociais (35%). Analisamos por que as duas partes estão lendo a mesma obra com chaves completamente diferentes.
Há um fenômeno crescente no streaming que Cross exemplifica com precisão cirúrgica na sua segunda temporada: críticos e audiência estão lendo a mesma obra com chaves completamente diferentes. No Rotten Tomatoes, a série baseada nos livros de James Patterson ostenta um abismo de 47 pontos percentuais entre a nota profissional (82%) e a audiência (35%). Não é divergência — é incompreensão mútua.
O que os críticos veem (e celebram)
A crítica especializada enxerga em Cross uma adaptação competente de um material que sempre foi subestimado. James Patterson escreveu 32 romances com o detective Alex Cross — um personagem negro, psicólogo e pai de família que subverte o arquétipo do detetive durão muito antes de ser trendy. Aldis Hodge, no papel principal, carrega a série com uma performance que privilegia inteligência sobre brutalidade.
Os 82% do Tomatometer refletem isso: roteiro sólido, atuação de qualidade, produção competente. Para críticos acostumados a adaptações desastradas de bestsellers, Cross é um alívio. Funciona. Respeita o material original. Tem ambição narrativa.
O que a audiência rejeita (com veemência)
Os 35% da audiência contam outra história. A principal reclamação nos fóruns e reviews não é sobre qualidade técnica — é sobre direção criativa. A segunda temporada expandiu significativamente a discussão sobre racismo estrutural, brutalidade policial e trauma intergeracional. Para uma parcela do público, isso transformou um procedural de crime em algo que eles não assinaram.
A crítica recorrente: “Eu quero ver um detetive resolvendo crimes, não uma aula de sociologia.” A resposta da crítica: “Alex Cross sempre foi sobre isso — vocês só não perceberam quando lemos os livros.”
O mal-entendido fundamental
Aqui está onde a divisão se torna sintomática de algo maior. Os livros de Patterson sempre foram bestsellers de aeroporto — entretenimento escapista para milhões. Mas o que Patterson faz bem, e que a crítica literária sempre reconheceu, é usar a estrutura do thriller para disfarçar comentário social. Cross é negro em Washington D.C. Isso nunca foi irrelevante.
A série, especialmente na segunda temporada, remove o disfarce. Torna explícito o que os livros mantinham implícito. Para críticos, isso é coragem criativa. Para parte da audiência, isso é “forçar agenda”.
O que isso revela sobre o momento do streaming
A divisão de Cross não é isolada. The Acolyte, Rings of Power, She-Hulk — todas enfrentaram o mesmo fenômeno: críticos avaliando competência técnica, audiência avaliando alinhamento ideológico. São métricas diferentes para obras diferentes.
O problema é que o Rotten Tomatoes apresenta essas notas lado a lado como se fossem comparáveis. Não são. Um crítico profissional avalia: o roteiro funciona? A direção é competente? O elenco entrega? Um usuário avalia: eu me diverti? Isso é para mim? Isso me representa ou me irrita?
Para quem Cross funciona
Se você busca um procedural tradicional onde cada episódio resolve um caso e a vida pessoal do detetive é subtrama, a segunda temporada de Cross vai te frustrar. A série quer ser drama de personagem com crimes como pano de fundo, não o inverso.
Se você leu os livros de Patterson e sempre percebeu a dimensão social neles, ou se você aprecia quando uma série usa seu gênero para dizer algo além do óbvio, Cross é uma das adaptações mais honestas dos últimos anos.
O abismo de notas no Rotten Tomatoes não é falha da série — é documento de um momento em que cultura pop e cultura crítica deixaram de falar a mesma língua.
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Perguntas Frequentes sobre Cross 2ª temporada
Onde assistir Cross, a série?
‘Cross’ é uma produção original Amazon Prime Video. As duas temporadas estão disponíveis exclusivamente na plataforma.
Quantos episódios tem a 2ª temporada de Cross?
A segunda temporada de ‘Cross’ tem 8 episódios, mesma extensão da primeira temporada.
Cross é baseado em livros?
Sim. A série adapta os romances de Alex Cross escritos por James Patterson, autor que já vendeu mais de 300 milhões de livros. O personagem apareceu pela primeira vez em 1993, em ‘Along Came a Spider’.
Por que a audiência está criticando Cross?
A principal crítica da audiência é que a segunda temporada expandiu discussões sobre racismo estrutural e brutalidade policial de forma mais explícita que a primeira. Parte do público esperava um procedural tradicional e sentiu que a série “forçou agenda”.
Preciso ver a 1ª temporada para entender a 2ª?
Sim. A série tem arcos contínuos de personagem e a segunda temporada retoma conflitos pessoais estabelecidos na primeira. Cada temporada resolve um caso principal, mas o desenvolvimento de Alex Cross é serializado.

