Criadores de ‘Dark’ adaptam livro de terror infantil em nova série da HBO Max

Os criadores de ‘Dark’ se reúnem com Lisa Vicari para adaptar ‘Der Struwwelpeter’, livro de terror infantil alemão de 1845. Entenda por que essa combinação de procedural policial e parábolas góticas é o projeto perfeito para a dupla após o cancelamento de ‘1899’.

Quando ‘1899’ foi cancelada após uma única temporada, fãs de ‘Dark’ sentiram o mesmo vazio de quando uma série que você ama desaparece sem explicação. Agora, a nova série dos criadores de Dark na HBO Max pode ser a resposta que ninguém esperava — e o projeto faz mais sentido do que parece à primeira vista.

Baran bo Odar e Jantje Friese não escolheram adaptar qualquer livro infantil. Escolheram ‘Der Struwwelpeter’, uma obra alemã de 1845 que, convenhamos, nunca foi realmente ‘infantil’ no sentido convencional. Escrito pelo psiquiatra Heinrich Hoffmann como presente de Natal para seu filho de 3 anos, o livro contém 10 histórias onde crianças que se comportam mal sofrem consequências grotescas: o menino que não para de chupar o dedo tem os polegares cortados por uma tesoura gigante; a menina que brinca com fogo queima até virar cinza; o menino que não quer tomar sopa definha até morrer de inanição. Isso em 1845. Os alemães não brincam com moralidade infantil.

Por que ‘Der Struwwelpeter’ é o projeto perfeito para a dupla

A conexão criativa aqui é óbvia para quem analisou ‘Dark’ com atenção. A série construiu sua reputação em dois pilares: mistério estrutural complexo e um tom implacavelmente sombrio. ‘Der Struwwelpeter’ oferece os dois ingredientes, mas de uma forma que força Odar e Friese a saírem de sua zona de conforto — e isso é excelente notícia.

Em ‘Dark’, cada episódio revelava uma camada nova da intrincada teia temporal de Winden. Você não conseguia parar de assistir porque cada resposta gerava três novas perguntas. O formato procedural policial desta adaptação — um agente federal investigando assassinatos inspirados nos 10 contos — exige a mesma engenharia narrativa, mas sem o recurso fácil de viagem no tempo para explicar inconsistências. É um desafio criativo maior, não menor.

Há também uma convergência temática fascinante. Hoffmann escreveu suas histórias como representações simplificadas de distúrbios mentais infantis — algo que um psiquiatra do século XIX diagnosticaria, se pudesse. Odar e Friese passaram três temporadas explorando trauma intergeracional, ciclos de dor que se repetem através do tempo. A ideia de crimes contemporâneos baseados em parábolas sobre doença mental infantil? Isso não é apenas material para uma temporada. É material para uma tese.

O cancelamento de ‘1899’ e por que a HBO Max muda tudo

O cancelamento de ‘1899’ explica por que essa mudança de plataforma é crucial. A série era ambiciosa demais para seu próprio bem — uma mistura de mistério transatlântico, realidade simulada e comentário sobre migração europeia que nunca encontrou seu público. Era excelente, mas exigia paciência que o algoritmo da Netflix não recompensou.

A HBO Max é uma casa diferente. A plataforma que abrigou ‘True Detective’ e ‘The Outsider’ entende terror procedural lento de um jeito que a Netflix, obcecada por maratonáveis rápidos, nunca entenderá. Um crime thriller sombrio inspirado em literatura gótica alemã? Isso é exatamente o DNA da HBO.

Lisa Vicari: o reencontro que faz sentido criativo

Lisa Vicari: o reencontro que faz sentido criativo

O anúncio de que Lisa Vicari se junta ao projeto não é apenas curiosidade de elenco. Em ‘Dark’, Martha Nielsen era o contraponto emocional de Jonas — a pessoa que humanizava um protagonista cada vez mais consumido pela obsessão pelo tempo. Vicari interpretou uma personagem que existia em múltiplas versões de si mesma, algumas heroicas, algumas vilãs, todas conectadas por uma tragédia inescapável.

Para uma série sobre assassinatos baseados em histórias de advertência infantil, ter uma atriz que sabe navegar ambiguidade moral é crucial. Os contos de ‘Der Struwwelpeter’ não têm heróis — têm vítimas e consequências. Vicari provou que consegue encarnar ambos sem que o público perca a empatia.

O desafio criativo do formato procedural

Este projeto representa uma evolução necessária para Odar e Friese. ‘Dark’ foi sua tese sobre tempo e destino. ‘1899’ foi sua tentativa de escalar essa ambição para escala global. Esta adaptação de ‘Der Struwwelpeter’ parece ser algo diferente — uma oportunidade de contar histórias mais contidas, mas não menos perturbadoras.

O formato procedural tem suas vantagens. Cada um dos 10 contos pode gerar um caso semanal, permitindo que a temporada construa uma mitologia enquanto entrega resoluções parciais. Fãs de ‘Dark’ que reclamavam da densidade da mitologia podem achar este formato mais acessível. Fãs que amavam a complexidade podem confiar que a dupla não vai simplificar demais — não quando o material fonte envolve crianças tendo partes do corpo cortadas como lição de moral.

Ainda não há título oficial, mas a premissa já diz muito: um agente federal investigando uma sequência de assassinatos inspirados nas histórias. Isso significa que os crimes serão encenações literais dos contos? Ou interpretações distorcidas? A diferença importa. A primeira opção é terror slasher convencional. A segunda é psicologia criminal com camadas — algo mais próximo de ‘Mindhunter’ encontra ‘Grimm’.

Odar e Friese provavelmente vão escolher a segunda via. Sua filmografia demonstra obsessão por estrutura interna, não por choque superficial. ‘Who Am I’, seu filme de estreia, já mostrava interesse em identidade fragmentada e representação performática. ‘Dark’ expandiu isso para identidade através do tempo. Esta série pode explorar identidade através do crime — o que acontece quando alguém decide encarnar literalmente as parábolas de Hoffmann.

Motivos para otimismo (e uma preocupação legítima)

A melhor notícia é a liberdade criativa. A HBO Max tem histórico de respeitar visões autorais densas. ‘The Leftovers’ durou três temporadas. ‘The Knick’ foi finalizada quando os criadores decidiram. Se Odar e Friese tiverem a mesma clareza que tiveram com ‘Dark’ (que foi concebida como trilogia desde o início), esta série pode ser algo especial.

A preocupação? Procedurais policiais têm uma armadilha: a tentação de se tornar fórmula. Crime da semana, resolução da semana, repetição. A dupla nunca trabalhou com esse formato. Sua experiência é em narrativas serializadas onde cada episódio é um capítulo de uma novela maior. Adaptar essa mentalidade para estrutura procedural sem perder densidade será o maior teste de suas carreiras.

Mas se há algo que ‘Dark’ provou, é que Odar e Friese entendem estrutura narrativa em um nível que poucos showrunners alcançam. Eles construíram um quebra-cabeça tridimensional que funcionava em múltiplas linhas temporais simultâneas e ainda assim mantinha coerência emocional. Um procedural policial, comparativamente, é um jogo de xadrez — não tridimensional, mas ainda exigente.

Para fãs de ‘Dark’, a mensagem é clara: a dupla não está fazendo algo menor. Está fazendo algo diferente. E diferente, no caso desses criadores, geralmente significa algo que vale a pena acompanhar.

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Perguntas Frequentes sobre a nova série dos criadores de Dark

Quando estreia a nova série dos criadores de Dark?

Ainda não há data de estreia anunciada. O projeto foi confirmado pela HBO Max, mas está em fase inicial de desenvolvimento. Uma previsão realista seria 2027, considerando o tempo de produção de séries desse porte.

Onde assistir a nova série série dos criadores de Dark?

A série será exclusiva da HBO Max (que deve se chamar apenas Max até a estreia). É uma produção original da plataforma, então não deve migrar para outros serviços.

O que é ‘Der Struwwelpeter’?

‘Der Struwwelpeter’ é um livro infantil alemão escrito em 1845 pelo psiquiatra Heinrich Hoffmann. Contém 10 histórias com moralidade brutal: crianças que se comportam mal sofrem consequências grotescas, como ter dedos cortados ou queimar até virar cinza. É considerado um precursor da literatura de terror infantil.

Lisa Vicari é a protagonista da nova série?

O papel exato de Lisa Vicari ainda não foi revelado. Sabe-se apenas que ela está no elenco. A premissa central menciona um agente federal como protagonista, mas não há confirmação de quem interpretará esse personagem.

A série tem conexão com ‘Dark’?

Não. A série é um projeto original baseado em ‘Der Struwwelpeter’, sem conexão narrativa com ‘Dark’. O que conecta os projetos são os criadores (Baran bo Odar e Jantje Friese) e a atriz Lisa Vicari, que interpretou Martha Nielsen na trilogia alemã.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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