Como um episódio de ‘Mary Tyler Moore’ redefiniu as sitcoms para sempre

O episódio “Chuckles Bites the Dust” do Mary Tyler Moore Show transformou morte em material de comédia em 1975 e ganhou o Emmy de Melhor Roteiro. Analisamos como essa ousadia abriu as portas para sitcoms modernas abordarem temas sérios sem pedir desculpas.

Em 1975, a ideia de uma sitcom tratar de morte era impensável. Comédias existiam para escapar da realidade, não para confrontá-la. Então veio “Chuckles Bites the Dust”, do Mary Tyler Moore Show, e a televisão nunca mais foi a mesma.

O episódio do dia 25 de outubro de 1975 não quebrou regras — ele criou outras. Escrito por David Lloyd para a sétima temporada, dedica seus 22 minutos inteiros à morte de um personagem que mal aparecia na tela. Chuckles, o palhaço da emissora WJM, morre de forma bizarra demais para revelar aqui (a descrição do acidente é metade da graça). O que importa é o que acontece depois: enquanto Mary Richards horroriza-se com as piadas de seus colegas sobre o falecido, o programa nos força a rir de algo que, pela lógica da época, não deveria ter graça nenhuma.

Quando a “situação” deixa de ser confortável

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O termo “sitcom” vem de “situation comedy” — a comédia nascia da situação. Mas algo curioso aconteceu conforme o formato amionalizou nos anos 60 e 70: escritores perceberam que podiam inverter a equação. Em vez de criar situações engraçadas, podiam tomar situações sérias e encontrar o humor dentro delas. “Chuckles Bites the Dust” é o momento em que essa descoberta se cristaliza.

O roteiro de Lloyd é cirúrgico. Ele sabe que humor negro só funciona se houver tensão genuína. Por isso, Mary funciona como nossa âncora moral — ela representa o espectador que pensa “isso não está certo”. Mas o episódio nunca a pune por ser careta, nem recompensa os colegas por serem insensíveis. Ele apenas observa, deixando o desconforto respirar. É uma abordagem que parece moderna até hoje — imagine em plena era Nixon, quando a televisão ainda operava com censura corporativa e autocensura criativa.

O funeral que reescreveu o manual

A cena final é um daqueles momentos que definem carreira. No funeral de Chuckles, todos se comportam com solenidade forçada — exceto Mary, que explode em risos incontroláveis quando o padre começa a descrever as performances do palhaço. É uma inversão perfeita: a pessoa que passou o episódio inteiro julgando os outros é a única que não consegue se conter.

A transição do riso para o choro de Mary Tyler Moore é um estudo de atuação. Ela não interpreta duas emoções separadas — ela mostra como humor e tristeza moram no mesmo lugar. Quando o padre diz que Chuckles “gostaria que você risse”, a risada dela vira soluço. É genuíno, desconfortável e profundamente humano. Em retrospecto, é impossível não ver essa cena como ancestral direta de momentos como o funeral de Fleabag ou as sequências de luto mal resolvido de Curb Your Enthusiasm.

O Emmy que consagrou a ousadia

O Emmy que consagrou a ousadia

A crítica entendeu o que estava acontecendo. David Lloyd ganhou o Emmy de Melhor Roteiro de Comédia por este episódio — um reconhecimento que sinalizava à indústria: isso era o futuro. O prêmio não apenas validou o trabalho, mas deu permissão para outros criadores arriscarem. A TV Guide posteriormente elegeria “Chuckles Bites the Dust” como um dos melhores episódios de comédia da história, consolidando seu status de referência.

O legado que chega até 2026

Antes deste episódio, sitcoms operavam com uma espécie de pacto implícito: nada realmente ruim aconteceria, e se acontecesse, não teria graça. Depois dele, a porta abriu para uma linhagem que vai de M*A*S*H (que misturava guerra e comédia sem pedir desculpas) até The Good Place (que constrói uma comédia a partir de questões morais existenciais).

O que “Chuckles Bites the Dust” provou é que audiências de comédia não precisam ser tratadas como crianças. Elas conseguem processar desconforto, ironia e até tristeza — desde que o material seja honesto. Olhando hoje, o mais revolucionário talvez seja a sutileza. O programa não anuncia que está fazendo algo ousado. Não há fanfarra, nem autocongratulação. Apenas uma história sobre pessoas lidando com a morte de um colega que mal conheciam, encontrando humor onde não deveria haver nenhum.

Se sitcoms contemporâneas conseguem abordar depressão, trauma e mortalidade sem pedir desculpas — de BoJack Horseman a Bear —, é porque Mary Richards riu no funeral de um palhaço há 50 anos. E depois chorou. E nos mostrou que os dois podiam coexistir.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Mary Tyler Moore Show’

Onde assistir ‘Mary Tyler Moore Show’ hoje?

‘Mary Tyler Moore Show’ está disponível na plataforma Hulu nos Estados Unidos. No Brasil, não há streaming oficial disponível atualmente — DVDs da série podem ser encontrados em lojas especializadas.

Quantos Emmys ‘Chuckles Bites the Dust’ ganhou?

O episódio ganhou o Emmy de Melhor Roteiro de Comédia em 1976, entregue ao escritor David Lloyd. É frequentemente citado como um dos melhores episódios de comédia da história da televisão americana.

Quem escreveu ‘Chuckles Bites the Dust’?

David Lloyd escreveu o episódio. Ele foi roteirista de diversas séries de sucesso, incluindo ‘Frasier’, ‘Wings’ e ‘The Tony Randall Show’, e tornou-se referência em roteiro de comédia.

Por que a morte de Chuckles foi considerada ousada para 1975?

Em 1975, sitcoms evitavam temas pesados como morte. O episódio não apenas tratou do tema, mas fez piadas sobre ele durante o funeral — algo que quebrava o pacto implícito de que comédia servia apenas para escapismo.

Quais sitcoms modernas foram influenciadas por este episódio?

A influência aparece em ‘Fleabag’ (cena do funeral), ‘Curb Your Enthusiasm’ (luto mal resolvido), ‘The Good Place’ (questões existenciais tratadas com humor) e ‘BoJack Horseman’ (depressão em formato de comédia animada).

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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