Com 98% de aprovação, ‘Pluribus’ quase teve elenco atuando nu

Vince Gilligan revelou no SXSW que considerou nudez total para a ‘hive mind’ em ‘Pluribus’ na Apple TV. A decisão de abandonar a ideia revela como a era pós-Game of Thrones mudou a televisão — e por que isso fortalece a narrativa da série com 98% de aprovação.

Existe um tipo de decisão criativa que parece absurda no papel, mas faz todo sentido quando você para para pensar. Vince Gilligan, criador de ‘Pluribus’ na Apple TV, admitiu no SXSW que considerou fazer todos os membros da ‘hive mind’ atuarem nus. A ideia foi descartada — e isso revela muito sobre como a televisão mudou depois de ‘Game of Thrones’.

A série, que estreou com 98% de aprovação no Rotten Tomatoes, parte de uma premissa cirúrgica: um vírus alienígena transforma quase toda a humanidade em uma mente coletiva, restando apenas 13 sobreviventes imunes. Entre eles está Carol Sturka (Rhea Seehorn), uma escritora de romances determinada a reverter a catástrofe. A lógica do conceito sugere que seres sem individualidade, sem vergonha e focados apenas em sobrevivência não precisariam de roupas. Gilligan pensou nisso. E então decidiu não fazer.

Por que a nudez fazia sentido cientificamente — e por que foi abandonada

Por que a nudez fazia sentido cientificamente — e por que foi abandonada

Durante o painel em Austin, Gilligan foi direto: ‘Conversamos sobre como eles não precisariam usar roupas, mas não trabalhamos para a HBO’. A piada carrega uma verdade importante sobre o ecossistema atual de streaming. A Apple TV não é o lugar para a nudez gratuita que marcou a era dourada da HBO — e isso não é necessariamente uma limitação. É uma diferença de identidade.

O criador de ‘Breaking Bad’ e ‘Better Call Saul’ mencionou também o fator humano: colocar centenas de extras nus por horas de filmagem criaria problemas práticos e éticos que vão além do orçamento. Rhea Seehorn, que protagoniza a série, respirou aliviada: ‘Meu Deus, obrigada… Você consegue imaginar se eu tivesse que tentar atuar com 300 pessoas nuas?’

A decisão de vestir a hive mind não foi covardia criativa. Quando Carol encontra Zosia (Karolina Wydra), uma das integrantes da mente coletiva, existe uma oportunidade de conexão humana que seria quase impossível se o personagem estivesse nu o tempo todo. A roupa permite que Carol a veja como algo próximo de uma pessoa, não apenas um corpo funcional.

O legado de ‘Game of Thrones’ e a nudez na televisão

‘Game of Thrones’ normalizou corpos nus em escala de produção — às vezes com propósito narrativo, muitas vezes sem. A série da HBO criou um precedente que outras produções sentiram necessidade de seguir ou deliberadamente evitar.

O que Gilligan fez em ‘Pluribus’ foi reconhecer que nem toda história precisa desse recurso. A mente coletiva poderia logicamente estar nua, mas a série não precisa disso para funcionar. A ausência de nudez mantém o foco no que importa: a tensão entre individualidade e coletividade, a luta de Carol contra um mundo que não a reconhece como relevante.

A decisão também reflete uma mudança maior na indústria. A era de ‘choque e admiração’ está dando lugar a algo mais sustentável. Audiências cansadas de nudez gratuita recompensam produções que usam cada elemento com intenção clara. Os 98% de aprovação sugerem que o público entendeu exatamente o que Gilligan estava fazendo.

Como a escolha fortalece a relação entre Carol e Zosia

Como a escolha fortalece a relação entre Carol e Zosia

A conexão gradual entre Carol e Zosia depende parcialmente do fato de Zosia estar vestida. Quando Carol começa a desenvolver atração romântica e sexual por ela, existe uma humanização progressiva que seria muito mais difícil se o primeiro encontro fosse com uma pessoa completamente nua.

Isso não é puritanismo — é construção de personagem. A roupa funciona como ferramenta narrativa, permitindo que a audiência e Carol vejam Zosia como algo mais do que apenas uma extensão da hive mind. É uma camada de complexidade que a nudez total removeria.

Com a segunda temporada confirmada, a relação da hive mind com roupas pode ser explorada de outras formas. Talvez vejamos situações onde a ausência de necessidade de vestuário se torne relevante para a trama. O que importa é que Gilligan provou que é possível fazer ficção científica adulta e complexa sem depender do choque visual.

Veredito: uma escolha que serve à história, não ao marketing

A decisão de não usar nudez em ‘Pluribus’ ilustra algo que críticos de TV sabem há tempo demais: as melhores escolhas criativas são aquelas que você não percebe, mas que fazem toda a diferença. Gilligan poderia ter ido pelo caminho fácil, usando a lógica científica como desculpa para criar imagens impactantes. Em vez disso, escolheu servir à narrativa.

A série vale pelo conceito, pela atuação de Seehorn (finalmente em um papel central após anos de trabalho excepcional em ‘Better Call Saul’), e pela prova de que ficção científica inteligente não precisa de choque barato. A Apple TV apostou em Gilligan, e os números mostram que a aposta valeu.

Se você curte ficção científica que leva seus próprios conceitos a sério, ‘Pluribus’ é obrigação. Se espera algo no estilo ‘anything goes’ da HBO antiga, vai se decepcionar — e talvez isso seja exatamente o ponto.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Pluribus’

Onde assistir ‘Pluribus’?

‘Pluribus’ está disponível exclusivamente na Apple TV+. É uma produção original da plataforma, lançada em 2026.

‘Pluribus’ tem relação com ‘Breaking Bad’?

Não. ‘Pluribus’ é uma história original de Vince Gilligan, o criador de ‘Breaking Bad’ e ‘Better Call Saul’. A série compartilha a estrela Rhea Seehorn, mas é uma obra independente sem conexão narrativa com o universo de Albuquerque.

Quantas temporadas tem ‘Pluribus’?

A primeira temporada está completa na Apple TV+. A segunda temporada já foi confirmada pela plataforma.

O que é a ‘hive mind’ em ‘Pluribus’?

A ‘hive mind’ (mente coletiva) é o resultado de um vírus alienígena que transformou quase toda a humanidade em um organismo único, sem individualidade. Os infectados agem como um só ser, coordenados e sem emoções pessoais.

Quem é a protagonista de ‘Pluribus’?

Rhea Seehorn protagoniza como Carol Sturka, uma escritora de romances que está entre os 13 sobreviventes imunes ao vírus. É seu primeiro papel central em uma série após sua atuação aclamada como Kim Wexler em ‘Better Call Saul’.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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