‘Click’: a comédia de Adam Sandler e Walken que virou hit no streaming 20 anos depois

‘Click’ (2006) domina o top 10 da HBO Max 20 anos após o lançamento. Analisamos como a comédia de Adam Sandler se tornou um diagnóstico profético da era do burnout, onde pulamos momentos difíceis e perdemos a vida real em busca de otimização.

Algumas coisas não deveriam funcionar. ‘Click’, filme de 2006 estrelado por Adam Sandler e Christopher Walken, é uma delas — uma comédia fantasiosa sobre um arquiteto frustrado que recebe um controle remoto universal capaz de literalmente controlar o universo. E, no entanto, aqui estamos nós, duas décadas depois, vendo o longa ocupar posições no top 10 global da HBO Max, à frente de lançamentos recentes e competindo com blockbusters em mercados como Brasil, México e Colômbia. O que explica essa ressurreição digital de uma comédia que os críticos massacraram (34% no Rotten Tomatoes) mas que o público nunca abandonou (66% de aprovação)?

A resposta não está na nostalgia barata. Está no timing profético.

O controle remoto como metáfora do burnout moderno

O controle remoto como metáfora do burnout moderno

Quando reassisti ‘Click’ na semana passada — agora disponível no streaming brasileiro — uma cena específica me paralisou: aquela em que o dispositivo, programado para “pular” automaticamente os momentos de estresse, entra em modo automático e começa a avançar a vida de Michael Newman (Sandler) em velocidade crescente. Ele pula a discussão com a esposa (Kate Beckinsale), o trânsito, a reunião chata, até que, de repente, está em 2026 e percebe que perdeu anos de existência real enquanto buscava apenas conforto.

Em 2006, isso soava como moralismo fantasioso. Em 2026, parece documentário. Vivemos na era do “skip” universal — pulamos anúncios, conversas difíceis, silenciamos notificações, usamos IA para resumir textos longos e podcasts em 2x. ‘Click’ não previu o futuro; ele diagnosticou nossa relação distorcida com o tempo. O filme funciona agora não apenas como comédia, mas como horror existencial disfarçado.

Por que Walken parece estar em outro filme — e isso funciona

Walken interpreta Morty, o arquétipo do “misterioso fornecedor de magia” que poderia ter sido interpretado por qualquer ator característico dos anos 2000. Mas a escolha de Walken — que em 2006 navegava entre comédias irreverentes (‘Wedding Crashers’, 2005) e dramas de prestígio (‘Prenda-Me se For Capaz’, 2002) — cria uma tensão cômica única. Ele trata o absurdo do roteiro (livremente baseado no conto ‘The Magic Thread’) com a mesma seriedade trágica que usaria em um filme de gangsters.

Sandler, por sua vez, está em seu auge comercial dos anos 2000, aquele período pós-‘Prenda-Me se For Capaz’ onde sua persona de “homem comum irritado” ainda não tinha sido refinada pelos dramas subsequentes como ‘Joias Brutas’ (2019) ou ‘Histórias de Nova York’ (2017). A combinação é instável, mas fascinante: Walken parece estar em um drama filosófico, Sandler está tentando segurar a narrativa com sua energia característica, e essa dissonância cria um tom de “realidade quebrada” que outros filmes de comédia fantástica da época, como ‘Bruce Almighty’, não alcançavam.

Curiosamente, esta permanece a única colaboração entre os dois. Walken seguiu para séries de prestígio como ‘Severance’ (2022), enquanto Sandler construiu uma carreira dramática respeitável na Netflix. ‘Click’ permanece como este estranho ponto de interseção entre dois artistas que nunca mais dividiram a tela.

Por que os críticos erraram — e continuam errando

Por que os críticos erraram — e continuam errando

A recepção dividida de ‘Click’ (34% críticos vs 66% público) revela um problema crônico da crítica cinematográfica com relação ao cinema populista dos anos 2000. O filme foi julgado como “mais uma comédia besteirol do Sandler”, quando na verdade ele opera em registros distintos: é uma sátira corporativa (com David Hasselhoff como chefe insuportável), um drama familiar (Henry Winkler como pai ausente mas amoroso), e uma fábula moral sobre as prioridades da vida.

O erro foi esperar coerência tonal. ‘Click’ muda de humor escatológico para tragédia genuína (aquela cena no hospital, quando Newman descobre que perdeu o funeral do pai, você sabe qual é) sem aviso prévio. Frank Coraci, diretor que trabalhou com Sandler em ‘O Rei da Água’ (1998), não suaviza essas transições — ele as deixa desconfortavelmente abruptas. Para o público de 2026, acostumado com o ‘tone shifting’ de séries como ‘The Bear’ ou filmes de horror-comédia, isso soa natural. Para críticos de 2006, soava como descontrole narrativo.

O algoritmo encontrou o filme certo na hora errada

O sucesso atual de ‘Click’ no streaming não é acidental. O filme custou US$ 82,5 milhões e faturou US$ 237,7 milhões mundialmente — números sólidos que garantiram sua permanência nos catálogos. Mas sua posição no top 10 global da HBO Max, frequentemente atrás apenas de pesos pesados como ‘Os Infiltrados’ ou ‘Homem-Aranha’, sugere algo mais: o algoritmo de recomendação está empurrando o filme para quem consome conteúdo sobre “produtividade”, “mindfulness” e “vida lenta”.

É perverso, se pensarmos bem. Um filme sobre as perigosas consequências de acelerar a vida sendo descoberto por uma geração obcecada em otimizar cada segundo através de apps e atalhos de IA. Mas talvez seja exatamente isso que o torna essencial. ‘Click’ não oferece soluções fáceis — seu final é ambíguo, triste, quase desesperador na sua mensagem sobre irreversibilidade. Não há ‘reset’ verdadeiro.

Se você está entre os milhões que o assistiram recentemente no Brasil ou na América Latina, preste atenção na próxima vez que pegar o celular para “pular” um momento chato da vida real. O filme de 2006 está lá para lembrar: algumas coisas não têm botão de rewind.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Click’

Onde assistir ‘Click’ filme em 2026?

O filme está disponível exclusivamente na HBO Max (Max) no Brasil e na maioria dos mercados internacionais. Não está no Netflix, Amazon Prime Video ou Disney+.

Quanto tempo dura ‘Click’?

A duração é de 1 hora e 47 minutos (107 minutos). Apesar de ser uma comédia, o ritmo muda drasticamente na segunda metade, tornando a experiência mais intensa.

‘Click’ é baseado em história real ou livro?

O roteiro é inspirado no conto ‘The Magic Thread’ (A Fio Mágico), uma fábula francesa do século XIX escrita por Henri Murger, embora a adaptação seja livre e modernizada.

Por que ‘Click’ está no top 10 da HBO Max agora?

O filme ressoa com a geração atual por sua metáfora sobre o “skip” constante da vida moderna — pulamos anúncios, notificações e momentos desconfortáveis, assim como o protagonista faz com o controle remoto. O algoritmo também o recomenda para fãs de conteúdo sobre produtividade e mindfulness.

Adam Sandler e Christopher Walken já fizeram outro filme juntos?

Não. Apesar da química peculiar em ‘Click’, esta foi a única colaboração entre os dois atores. Walken seguiu para séries como ‘Severance’, enquanto Sandler focou em produções originais Netflix.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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