‘Círculo Fechado’: a minissérie da HBO com Soderbergh que ninguém viu

Por que ‘Círculo Fechado HBO’, minissérie de Steven Soderbergh estrelada por Timothy Olyphant e Claire Danes, passou despercebida em 2023? Analisamos este thriller sobre colonialismo e classe que desafia as convenções do streaming e respeita a inteligência do espectador.

Existe uma equação simples no streaming atual: Steven Soderbergh + HBO + elenco estelar = sucesso garantido. Foi assim com The Knick, foi assim com Mosaic. Mas em 2023, algo estranho aconteceu. Círculo Fechado HBO — minissérie de seis episódios dirigida por Soderbergh e estrelada por Timothy Olyphant e Claire Danes — simplesmente evaporou no ar. Não viralizou no Twitter, não gerou think pieces obsessivos, não entrou na conversa sobre “as melhores séries do ano”. Como um filme de noir clássico, ela apareceu, projetou sombras intrigantes, e sumiu sem deixar rastros na cultura pop.

Eu a vi no mês do lançamento, esperando o thriller de sequestro elegante que a sinopse prometia. O que encontrei foi algo mais incômodo: uma narrativa sobre riqueza, herança colonial e as feridas invisíveis do sistema imigratório americano, disfarçada de procedural policial. Talvez seja justamente essa subversão de expectativas — tão característica de Soderbergh — que tenha afastado o público massivo. Mas é também o que torna a série essencial.

O crime que não é só um crime

O crime que não é só um crime

A premissa de Círculo Fechado soa familiar até demais no primeiro episódio. Sam e Derek Browne (Danes e Olyphant) são um casal abastado de Manhattan — ele chef de cozinha de renome, ela advogada de elite — cujo filho adolescente Jared é sequestrado. A reação inicial é a que vimos em dezenas de thrillers: pânico controlado, negociações tensas, suspeitas sobre funcionários da casa. Mas Ed Solomon, criador da série (sim, o mesmo dos filmes Bill & Ted, aqui operando em registro dramático completamente oposto), tem um plano diferente.

O sequestro não é aleatório. A organização criminosa de Guiana responsável pelo rapto tem uma conexão histórica profunda com a família Browne — uma dívida de sangue que remonta a gerações de exploração colonial na América do Sul. O que começa como um home invasion psicológico se expande para uma rede de culpa, classe e dinheiro sujo que atravessa o Atlântico e pousa no Queens, especificamente no bairro de Little Guyana, uma comunidade guianesa pouco representada na ficção americana.

Aqui, Soderbergh faz o que faz de melhor: transforma geografia em personagem. Ele filma Nova York não como a cidade dos arranha-céus brilhantes de Sex and the City ou a selva de concreto de Taxi Driver, mas como um mapa de desigualdades sobrepostas. As cenas no apartamento dos Browne em Manhattan — todo vidro fumê e minimalismo frio — contrastam violentamente com as ruas do Queens, onde a câmera de Soderbergh parece respirar o mesmo ar pesado das cozinhas de restaurantes étnicos e corredores de prédios de renda controlada.

Zazie Beetz e o coração da série

Se Círculo Fechado tivesse funcionado como deveria, Zazie Beetz estaria disputando todos os prêmios de 2023 por sua interpretação de Mel Harmony. A detetive é o antídoto contra o clichê do policial desinteressado ou corrupto que infesta minisséries de mistério. Mel é implacável, mas não é heroína; é competente, mas cansada; é inteligente, mas falha. Beetz constrói a personagem com microexpressões que sugerem anos de desilusão com o sistema — algo que não está explicitado no roteiro, mas que ela traz nos ombros tensos e na forma como segura um copo de café frio durante interrogatórios.

O elenco de apoio reforça a sensação de desperdício de talento que passou despercebida. Jim Gaffigan, conhecido por sua comédia stand-up, entrega uma performance dramática contida como Manny Broward, o chefe de polícia que parece carregar o peso de todos os casos não resolvidos de Nova York nas bolsas sob seus olhos. É um trabalho de anti-carisma — Gaffigan não rouba cenas, ele as ancora na realidade. Do lado oposto, Jharrel Jerome (When They See Us) traz uma vulnerabilidade perigosa para seu personagem da quadrilha, evitando a caricatura do vilão urbano.

A direção de Soderbergh: invisível por design?

A direção de Soderbergh: invisível por design?

Soderbergh — que aqui assina como diretor e também como diretor de fotografia (pseudônimo Peter Andrews) e editor (pseudônimo Mary Ann Bernard) — trabalha com uma estética que pode ter alienado o espectador casual acostumado ao glamour de The Undoing ou à densidade emotiva de Mare of Easttown. A fotografia é escura, mas não no estilo “cinema de qualidade” das séries de prestige TV; é uma escuridão realista, onde luzes fluorescentes piscam e cores são drenadas pela poluição noturna da cidade.

A montagem é caracteristicamente fragmentada. Soderbergh corta cenas no meio de frases, salta temporalidades sem aviso, e recusa-se a dar ao público o conforto dos flashbacks explicativos bem comportados. Quando a conexão histórica entre os Browne e os sequestradores é revelada, não há música dramática de fundo ou câmera lenta — apenas diálogo denso, entregue em sotaques carregados de história. É um cinema de resistência contra a binge-watching passiva; exige atenção, e talvez em 2023, quando competia com o barulho de The Patient e outras séries de sequestro mais convencionais, essa exigência tenha sido seu tiro no pé comercial.

Por que Círculo Fechado HBO passou batido?

A pergunta que o título deste texto faz exige uma resposta honesta: por que uma minissérie com este pedigree foi vista por tão poucos? A HBO, afinal, é a casa de Chernobyl e The White Lotus — quando ela aposta em minisséries de mistério com elenco A-list, o público geralmente aparece.

Primeiro, há o problema do marketing. A campanha de Círculo Fechado vendeu um thriller de sequestro elegante, mas entregou um drama sobre colonialismo e culpa de classe. O descompasso entre expectativa e realidade é fatal no ambiente atual, onde séries são canceladas ou ignoradas antes de terem chance de encontrar seu público. Quem esperava Taken em formato de série encontrou algo mais próximo de Traffic (o filme de Soderbergh de 2000) — uma narrativa de múltiplas camadas onde ninguém é totalmente inocente nem totalmente culpado.

Segundo, a série recusa o conforto da resolução catártica. Enquanto Mare of Easttown oferecia uma detetive falha mas redimida e um mistério resolvido com lágrimas e justiça, Círculo Fechado termina com uma constatação amarga: algumas feridas são sistêmicas demais para serem curadas por prisões ou resgates. O final não é triste no sentido melodramático; é desconfortável no sentido existencial.

Terceiro, e talvez mais importante: a série coloca um espelho diante da audiência típica da HBO — geralmente branca, abastada, urbana. Ao focar na comunidade guianesa de Queens e retratar a família Browne não como vítimas inocentes mas como beneficiários de um sistema colonial que agora as alcança, Círculo Fechado é politicamente incômoda de formas que séries como The Undoing (sobre ricos em crises) evitam cuidadosamente.

Redescoberta e recomendação

Dois anos após seu lançamento silencioso, Círculo Fechado merece uma reavaliação. Não é uma série perfeita — o ritmo dos dois primeiros episódios é deliberadamente lento, e algumas tramas secundárias sobre a família estendida dos Browne poderiam ser mais desenvolvidas. Mas é uma obra rara: um thriller que respeita a inteligência do espectador, que usa o formato de minissérie para explorar temas que filmes de duas horas não conseguiriam sustentar, e que oferece atuações de Olyphant e Danes em seus registros mais vulneráveis.

Se você curte o cinema de Soderbergh — especialmente seus trabalhos mais experimentais como Schizopolis ou a série The Knick —, esta é obrigatória. Se você busca um mistério de sequestro que vá além das reviravoltas plot-driven e explore o porquê das coisas, não apenas o quem, aqui está. Mas aviso: não é para maratonar enquanto mexe no celular. Círculo Fechado exige o compromisso que boa parte do streaming atual tenta evitar a todo custo — e talvez seja essa recusa em facilitar que a tenha condenado ao ostracismo, e que também a torne imperdível para quem valoriza o cinema (ou a televisão) como arte.

Quem já viu? Quero saber se vocês acharam o ritmo inicial um obstáculo ou uma preparação necessária para o impacto do final. E para quem ainda não viu: está disponível na Max. Dê uma chance a esta estranha, inquieta e necessária série antes que ela realmente desapareça.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Círculo Fechado’

Onde assistir ‘Círculo Fechado’?

A minissérie está disponível exclusivamente na Max (antiga HBO Max) desde seu lançamento em 2023. É uma produção original da HBO.

Quantos episódios tem ‘Círculo Fechado’?

A série tem 6 episódios, com duração média de 50 a 60 minutos cada. A estrutura compacta permite uma narrativa fechada e conclusiva, sem deixar pontas soltas.

‘Círculo Fechado’ é baseada em história real?

Não. Embora explore temas reais como a imigração guianesa em Nova York e as sequelas do colonialismo na América do Sul, a trama do sequestro é ficção. O criador Ed Solomon desenvolveu a narrativa especificamente para explorar as dinâmicas de classe e herança colonial através do gênero de suspense.

Quem são os protagonistas de ‘Círculo Fechado’?

Os protagonistas principais são Claire Danes e Timothy Olyphant, que interpretam Sam e Derek Browne, pais ricos do menino sequestrado. Zazie Beetz vive Mel Harmony, a detetive investigadora, e Dennis Quaid aparece como o avô da família. O elenco inclui ainda Jim Gaffigan e Jharrel Jerome.

Por que ‘Círculo Fechado’ não fez sucesso?

A série passou despercebida por três motivos principais: (1) marketing que vendia um thriller convencional mas entregou um drama lento sobre colonialismo; (2) ritmo deliberadamente contemplativo que exige atenção total, contrariando a lógica do binge-watching; e (3) temas politicamente incômodos sobre classe e privilégio que confrontam a própria audiência típica da HBO.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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