Com 100% no Rotten Tomatoes e elenco de peso, ‘Cidade Tóxica’ chegou na Netflix e foi ofuscada por ‘Adolescência’, do mesmo criador. Analisamos por que este drama sobre o escândalo ambiental de Corby merece sua atenção — e como Jack Thorne transforma negligência industrial em narrativa íntima e devastadora.
Existe uma ironia cruel no streaming: uma minissérie pode atingir 100% no Rotten Tomatoes, ter elenco estelar e ainda assim ser esquecida. Cidade Tóxica Netflix é exatamente isso — uma produção que chegou, conquistou a crítica, e depois foi engolida pela sombra de seu próprio irmão mais famoso, ‘Adolescência’. Ambas nasceram da mesma mente criativa, Jack Thorne. Mas enquanto uma virou fenômeno cultural, a outra virou uma joia esperando ser descoberta.
O paradoxo é fascinante. Como uma obra com nota máxima, elogiada por sua construção dramática impecável e relevância social urgente, pode ter passado quase despercebida? A resposta está no timing cruel do lançamento e na forma como o algoritmo de atenção funciona hoje: quando duas obras do mesmo criador surgem próximas, o público tende a abraçar uma e deixar a outra na vitrine, intocada.
Por que ‘Cidade Tóxica’ merece sair da sombra de ‘Adolescência’
Jack Thorne tem um dom específico: ele entende que as histórias mais poderosas são aquelas que acontecem em quartos pequenos, não em cenários grandiosos. Em ‘Adolescência’, isso se manifesta através de um estudo íntimo sobre família e crise. Em ‘Cidade Tóxica’, Thorne aplica a mesma abordagem — câmeras que observam de perto, silêncios que falam mais que diálogos — mas em um contexto completamente diferente: o escândalo ambiental de Corby, na Inglaterra.
A série acompanha um grupo de mães que descobrem que seus filhos nasceram com deficiências por causa de negligência industrial. Entre 1983 e 1992, a cidade de Corby se tornou um centro de reciclagem de aço, e a poeira tóxica liberada durante a descontaminação de uma antiga fábrica contaminou o ar, a água e, tragicamente, os corpos de crianças que ainda nem haviam nascido. O resultado foi uma geração com malformações congênitas — e uma batalha legal que demorou décadas para ser reconhecida.
Thorne sabe exatamente como transformar fatos em narrativa sem perder a dignidade do assunto. Não há sensacionalismo aqui. Há raiva controlada, dor legítima e uma determinação que vai se acumulando episódio a episódio até se tornar impossível de ignorar.
Jodie Whittaker e Aimee Lou Wood: performances que evitam o melodrama
Quem assistiu a ‘Broadchurch’ sabe o que Jodie Whittaker é capaz. Aqui, como Susan McIntyre, ela entrega algo diferente: não há o mistério do assassinato para sustentar a tensão, apenas a lenta e exaustiva batalha legal de mulheres que o sistema prefere ignorar. Há uma cena no segundo episódio em que Susan descobre a verdade sobre a contaminação — Whittaker não grita, não chora dramaticamente. Ela apenas olha para o filho, depois para a câmera, e o silêncio diz tudo. É um momento de atuação que ensina mais sobre dor do que qualquer monólogo.
Aimee Lou Wood, que muitos conheceram em ‘Sex Education’ e ‘The White Lotus’, traz uma energia completamente diferente aqui. Sua Tracey Taylor é uma mulher comum arrastada para uma situação extraordinária — e Wood consegue algo difícil: fazer a audiência sentir que está vendo uma pessoa de verdade, não uma “personagem de drama premiado”. A forma como sua personagem tenta manter a normalidade enquanto sua vida desmorona é um estudo em negação.
O elenco de apoio é um quem é quem da televisão britânica de qualidade. Joe Dempsie, de ‘Game of Thrones’, faz um trabalho contido, mas igualmente eficaz. Rory Kinnear traz sua habitual precisão para um papel que poderia ser desinteressante em mãos menos capazes. Ninguém está aqui para roubar a cena. Todos estão aqui para servir à história.
A comparação inevitável com ‘Chernobyl’ — e por que ‘Cidade Tóxica’ é mais íntima
É impossível não pensar em ‘Chernobyl’ enquanto se assiste. Ambas as séries tratam de negligência governamental e industrial que resultou em sofrimento humano evitável. Mas onde ‘Chernobyl’ opta pela escala épica do desastre, ‘Cidade Tóxica’ escolhe o íntimo. O veneno aqui não é radioatividade visível; é poeira tóxica invisível que se infiltra em casas, em corpos, em futuros que nunca existirão.
A série também ecoa outra produção, ‘Lead Children’ (Crianças do Chumbo), que abordou contaminação por chumbo em crianças. Mas Thorne traz algo que essas comparações não capturam: seu olhar específico sobre como comunidades operárias são as primeiras a sofrer e as últimas a serem acreditadas. Há uma consciência de classe em ‘Cidade Tóxica’ que a eleva acima do “drama baseado em fatos reais” genérico.
A direção de fotografia de Kate McCullough merece atenção. Repare como os tons frios dominam as cenas internas — escritórios governamentais, tribunais, hospitais — enquanto exteriores têm uma palidez que sugere algo errado no ar. Não é sutil no sentido de escondido; é sutil no sentido de que você sente antes de perceber conscientemente. A cor da série é quase um personagem: um cinza-avermelhado que evoca ferrugem, contaminação, algo apodrecendo.
O veredito: por que você deveria dar 4 horas a esta série
‘Cidade Tóxica’ tem exatamente quatro episódios. Isso não é coincidência — é uma promessa de respeito ao tempo do espectador. Thorne sabia que tinha uma história que cabia nesse formato, e se recusou a esticá-la para parecer “mais importante”. O resultado é uma minissérie que pode ser consumida em uma única noite, e que vai ficar com você muito mais tempo do que as oito horas de dramas inflados que dominam o streaming.
O fato de ter sido ignorada no Emmy 2025 é revelador. A indústria de premiações tem dificuldade com obras que não fazem barulho. ‘Cidade Tóxica’ não fez campanha agressiva, não gerou memes, não teve momentos “quote-worthy”. Ela simplesmente existe como um documento poderoso sobre injustiça — e isso, aparentemente, não foi suficiente para estatuetas.
Se você curte dramas processuais como ‘Broadchurch’, séries baseadas em histórias reais como ‘Chernobyl’, ou simplesmente quer ver um elenco britânico no auge do ofício fazendo trabalho que importa, ‘Cidade Tóxica’ é obrigatória. E se você amou ‘Adolescência’, aqui está a chance de ver outro lado do mesmo criador — um lado que merece estar sob as mesmas luzes.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Cidade Tóxica’
Onde assistir ‘Cidade Tóxica’?
‘Cidade Tóxica’ está disponível exclusivamente na Netflix desde fevereiro de 2025. É uma produção original da plataforma.
Quantos episódios tem ‘Cidade Tóxica’?
A minissérie tem 4 episódios, cada um com aproximadamente 50 minutos. Pode ser assistida em uma única sessão.
Preciso assistir ‘Adolescência’ antes de ‘Cidade Tóxica’?
Não. As duas séries são completamente independentes, apesar de serem do mesmo criador, Jack Thorne. Cada uma conta uma história diferente, com elencos e contextos distintos.
O escândalo de Corby em ‘Cidade Tóxica’ é real?
Sim. A série é baseada no caso real de contaminação por resíduos tóxicos na cidade de Corby, Inglaterra, entre 1983 e 1992. O caso resultou em crianças nascendo com malformações congênitas e uma batalha legal que durou décadas.
Qual a classificação indicativa de ‘Cidade Tóxica’?
A série é classificada como 16 anos na Netflix. Contém temas pesados como negligência governamental, deficiências congênitas e batalhas legais, mas não há violência gráfica ou conteúdo sexual explícito.

