‘Christopher’: Por que este é o único episódio ‘ruim’ de ‘Família Soprano’?

Analisamos por que ‘Christopher’ é considerado o pior episódio de ‘Família Soprano’. Entenda como a falta de sutileza no roteiro de Michael Imperioli e o tom didático transformaram um tema complexo em uma das raras falhas da obra-prima da HBO.

Existe um fenômeno curioso entre os fãs de ‘Família Soprano’: o consenso sobre sua perfeição é quase inabalável, exceto por um único ponto de discórdia. Ao longo de 86 episódios, a série de David Chase redefiniu a narrativa televisiva, mas quando o assunto é o pior episódio de Família Soprano, a resposta é imediata: ‘Christopher’, o terceiro capítulo da quarta temporada.

O que torna ‘Christopher’ um caso de estudo fascinante não é uma falha técnica ou atuações medíocres — o elenco de apoio, liderado por um Steven Van Zandt (Silvio Dante) em modo de fúria cômica, está excelente. O problema é estrutural. Em uma série que construiu seu império sobre o subtexto e o silêncio, ‘Christopher’ escolhe gritar.

A caricatura que substituiu o subtexto

A caricatura que substituiu o subtexto

O episódio gira em torno das tensões do Dia de Colombo. Silvio Dante, movido por um orgulho italo-americano ferido, decide confrontar manifestantes nativos americanos. O que se segue é uma sequência de diálogos que parecem saídos de uma sátira do Saturday Night Live, e não do drama psicológico denso que esperamos de Chase.

A falta de sutileza é gritante na cena em que os mafiosos discutem identidade no Bada Bing. Enquanto em episódios como ‘College’ a moralidade é explorada através de ações e olhares, aqui ela é mastigada e servida em discursos didáticos. A ironia mais fina do episódio — e talvez a única que realmente soa como ‘Sopranos’ — é a indiferença de Furio Giunta. Sendo o único italiano real do grupo, ele despreza Colombo, evidenciando o abismo entre a herança real e a identidade performática dos mafiosos de New Jersey. Infelizmente, esse brilho é ofuscado pelo tom de ‘episódio de mensagem’ do restante da trama.

O peso da caneta de Michael Imperioli

Há uma explicação técnica para a mudança de tom: o roteiro é assinado por Michael Imperioli. Embora o intérprete de Christopher Moltisanti seja um ator magistral e tenha contribuído com outros roteiros bons para a série, aqui ele parece ter caído na armadilha de querer ‘explicar’ demais o tema.

Comparado ao trabalho de titãs como Matthew Weiner ou Terence Winter, o texto de Imperioli em ‘Christopher’ carece daquela ambiguidade desconfortável. Em ‘The Strong, Silent Type’, vemos a vulnerabilidade de Christopher através do vício; em ‘Christopher’, vemos apenas personagens agindo como porta-vozes de editoriais políticos. A sala de roteiristas de Chase era um time de elite que raramente subestimava a inteligência do público, e este episódio é o raro momento em que a série parece não confiar que o espectador entenderá a ironia sem que ela seja sublinhada.

‘In this house, Christopher Columbus is a hero!’

'In this house, Christopher Columbus is a hero!'

Se algo salva o episódio do esquecimento total, é a capacidade da série de gerar momentos icônicos mesmo em seus piores dias. A explosão de Tony Soprano no carro — ‘In this house, Christopher Columbus is a hero. End of story!’ — tornou-se um meme imortal. A frase captura perfeitamente a hipocrisia seletiva de Tony: ele não se importa com a história, ele se importa com a manutenção da fachada de ‘homem de família tradicional’ que justifica sua violência.

Esses lampejos de humor ácido lembram que, mesmo sendo o pior episódio de Família Soprano, ‘Christopher’ ainda opera em um nível superior a 90% da televisão produzida na época. O problema é que ele compete contra gigantes como ‘Pine Barrens’ e ‘Whitecaps’.

Veredito: O erro necessário

Vale a pena pular ‘Christopher’ em um rewatch? Não. Ele é essencial para entender o único momento em que a série perdeu o equilíbrio entre o realismo visceral e o comentário social. O episódio serve como um lembrete de que a genialidade de ‘Família Soprano’ residia no que não era dito.

Enquanto a série costumava nos deixar no escuro para que encontrássemos nossa própria saída, ‘Christopher’ acende todas as luzes de uma vez, revelando que, sem as sombras do subtexto, o mundo de Tony Soprano corre o risco de parecer apenas uma caricatura barata.

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Perguntas Frequentes sobre o pior episódio de Família Soprano

Qual é o episódio ‘Christopher’ em Família Soprano?

É o 3º episódio da 4ª temporada (Episódio 42 no total). Ele foca na polêmica em torno do Dia de Colombo e na reação da máfia aos protestos de grupos nativos americanos.

Por que os fãs odeiam o episódio ‘Christopher’?

O principal motivo é a falta de sutileza. Diferente do tom habitual da série, os personagens verbalizam seus sentimentos e posições políticas de forma muito direta e caricata, perdendo a profundidade psicológica comum à obra.

Quem escreveu o episódio ‘Christopher’?

O roteiro foi escrito por Michael Imperioli, o ator que interpreta Christopher Moltisanti na série. Embora ele tenha escrito outros episódios, este é frequentemente criticado pelo tom destoante.

Onde posso assistir Família Soprano completa?

Todas as seis temporadas de ‘Família Soprano’ (The Sopranos) estão disponíveis no catálogo da plataforma de streaming Max (antiga HBO Max).

Vale a pena pular o episódio ‘Christopher’?

Não recomendamos pular. Apesar de ser considerado o ponto baixo da série, ele contém diálogos icônicos de Tony Soprano que se tornaram parte fundamental da cultura de memes da série.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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