‘Chasing Summer’: Iliza Shlesinger equilibra humor e drama em carta ao Texas

Em ‘Chasing Summer’, Iliza Shlesinger faz a transição do stand-up para o cinema autoral com a colaboração inesperada da diretora Josephine Decker. O resultado é uma carta ao Texas que equilibra humor e dor emocional sem jamais escolher um lado — e se fortalece por isso.

Comediantes fazendo cinema ‘sério’ é um trope que costuma dar errado mais do que acerta. Pense em Adam Sandler tentando ser Paul Thomas Anderson, ou em Melissa McCarthy buscando validação dramática — intenções louváveis, resultados irregulares. ‘Chasing Summer’ chega com uma proposta diferente: não é uma comediante tentando provar que ‘também sabe fazer drama’, mas uma artista usando a ferramenta que domina — o humor — como porta de entrada para algo mais vulnerável. O resultado, estreando no SXSW, é um filme que sabe exatamente o que quer ser.

Iliza Shlesinger interpreta Jamie, uma mulher que perde emprego e namorado na mesma semana e foge de volta para sua cidade natal no Texas. O enredo soa familiar, quase clichê — a volta ao lar como dispositivo de reinvenção é um dos pilares da comédia romântica americana. Mas a execução aqui subverte expectativas. O Texas não é pano de fundo pitoresco; é quase um personagem, com seus Whataburgers, suas mulheres com cabelo ‘mais perto de Deus’, e aquela atmosfera específica de cidades pequenas onde todos conhecem seus pecados de adolescência.

A parceria entre Iliza Shlesinger e Josephine Decker que redefine o projeto

A parceria entre Iliza Shlesinger e Josephine Decker que redefine o projeto

A escolha de Josephine Decker para dirigir é o primeiro sinal de que ‘Chasing Summer’ não quer ser apenas mais uma comédia de streaming. Decker construiu carreira com dramas psicológicos experimentais — filmes que priorizam atmosfera sobre narrativa linear, que pedem ao espectador trabalho emocional ativo. Colocá-la no comando de uma história sobre nostalgia millennial parece, no papel, um mismatch criativo. Na prática, é o que dá ao filme sua textura única.

O que Decker traz é uma recusa em tratar memórias como algo limpo e organizado. Os flashbacks de Jamie não vêm com indicações visuais óbvias — não há diferença gritante de cor ou proporção de tela. Em vez disso, a transição entre presente e passado acontece de forma fluida, quase líquida, respeitando como a memória realmente funciona: você está em uma conversa no presente e, de repente, algo — um cheiro, uma frase, uma canção — te arrasta para duas décadas atrás. A diretora entende que nostalgia não é um arquivo que consultamos; é uma invasão.

Aimee Garcia, que interpreta uma amiga de colégio de Jamie, capturou bem essa dualidade em entrevista: há momentos de ‘rir até doer a barriga’ seguidos por cenas que ‘arrancam o coração’. A transição não é abrupta porque a vida não é abrupta. Você ri de uma situação absurda com seus amigos do ensino médio, e cinco minutos depois está confrontando a versão de si mesmo que abandonou.

O Texas como testemunha e cúmplice da jornada de Jamie

Garrett Wareing, que interpreta o interesse romântico de Jamie, mencionou algo revelador: Iliza, Josephine e o roteirista são todos do Texas. Isso não é trivia — é DNA do filme. A forma como a cultura texana permeia cada cena não vem de pesquisa, mas de vivência. As referências a Texas A&M, os diálogos que capturam a cadência específica de conversas em cidades pequenas do sul, até a maneira como as personagens femininas se apresentam — tudo indica alguém que cresceu respirando esse ar.

Há uma diferença palpável entre um filme que usa uma localização como ‘tema’ e um que a trata como lar. Em ‘Chasing Summer’, o Texas funciona como testemunha silenciosa da jornada de Jamie. A cidade não muda para acomodar a narrativa; é Jamie que precisa se realinhar com um lugar que seguiu existindo enquanto ela construía uma vida em outro lugar. Há dor nisso — a constatação de que o mundo não parou esperando seu retorno — mas também conforto. Algumas coisas permanecem.

A presença de uma música do Moby na trilha, comentada por Cassidy Freeman, funciona como âncora temporal específica. Para quem cresceu nos anos 2000, aquele som elétrico melancólico não é apenas música de fundo — é o som de uma era inteira, de comerciais de carro e trilhas de séries adolescentes. O filme usa esses gatilhos com intenção clara.

De stand-up para roteiro: a voz autoral de Iliza encontra o cinema

De stand-up para roteiro: a voz autoral de Iliza encontra o cinema

O elemento mais fascinante de ‘Chasing Summer’ é sua gênese. Cassidy Freeman revelou que Iliza escreveu para si mesma um email em 2000 descrevendo como seria fazer esse filme. Mais de duas décadas depois, ela não apenas realizou o projeto, mas o apresentou em Austin, no coração do Texas, no SXSW. Essa história poderia soar como mitologia construída para divulgação, mas a coerência interna do filme sugere algo genuíno.

O que separa este projeto de outros ‘filmes pessoais’ de comediantes é que Iliza não abandonou sua voz para fazer ‘cinema sério’. O humor afiado, a observação social precisa, a capacidade de encontrar o ridículo no cotidiano — tudo que a consagrou no stand-up está presente. Mas aqui essas ferramentas servem a um propósito maior. A comédia não é o objetivo; é o veículo para chegar em verdades que seriam difíceis de expressar de outra forma.

A colaboração com Decker foi crucial para isso funcionar. Uma diretora com instintos mais convencionais poderia ter suavizado as arestas, pedido mais clareza, forçado uma estrutura de três atos mais previsível. Decker, com seu background em cinema experimental, entende que intimidade requer ambiguidade. Às vezes você não sabe se deve rir ou chorar porque a vida também não te dá essa clareza.

Um elenco que entende a tarefa

Cassidy Freeman, amiga de longa data de Iliza, trouxe para o papel de irmã uma química que não se ensaia. Quando ela descreve a personagem como ‘uma mulher de 2001 que nunca mudou’ — o cabelo, as jeans, as unhas decoradas, as tatuagens — você entende que não é caricatura de texana. É uma mulher que encontrou uma versão de si mesma que funciona e decidiu preservá-la. Há dignidade nisso, mesmo quando o mundo exterior julga.

Garrett Wareing, por sua vez, navega o território perigoso de ‘interesse romântico em filme de comédia’ com mais nuance do que o gênero costuma permitir. Seu Colby representa algo mais do que o cara bonito que a protagonista reencontra — ele encarna ‘o idealismo’, como Garcia apontou, a versão de nós que acreditava que tudo era possível antes da vida adulta nos ensinar a ser cínicos. A química com Iliza funciona porque não é forçada; há uma ternura genuína nas cenas compartilhadas.

O momento mais revelador do entendimento do elenco sobre o material veio de Aimee Garcia: ‘rir e se constranger simultaneamente’. Essa é a zona onde ‘Chasing Summer’ opera melhor — não é comédia pura, não é drama pesado, é aquele território desconfortável onde você reconhece suas próprias falhas na tela e ri delas enquanto sente um aperto no peito.

Veredito: para quem é este filme?

‘Chasing Summer’ não vai satisfazer quem busca uma comédia tradicional com começo, meio e fim previsíveis. O ritmo é deliberadamente mais contemplativo, as transições emocionais exigem atenção, e o filme se recusa a entregar todas as respostas. Para alguns, isso será frustrante — ‘cadê o payoff?’, ‘por que essa cena demora tanto?’. Mas para o público certo, especialmente millennials que já voltaram para sua cidade natal e confrontaram versões anteriores de si mesmas, o filme oferece algo raro: reconhecimento.

A estreia no SXSW foi apropriada. Este não é um filme de multiplex com pipoca; é cinema de festival, feito para ser discutido depois, para ser levado para casa e processado. A parceria entre Iliza Shlesinger e Josephine Decker prova que comediantes podem fazer cinema autoral sem perder o que os torna especiais — a capacidade de encontrar humor em lugares que doem.

Se você cresceu entre os anos 90 e 2000, já voltou para casa depois de uma derrota grande, e consegue aguentar um filme que não te diz exatamente o que sentir, ‘Chasing Summer’ merece seu tempo. Se você prefere suas comédias com estruturas mais previsíveis e emoções mais claramente sinalizadas, talvez seja melhor esperar o próximo projeto de Iliza. Este aqui é mais ambicioso, mais arriscado, e por isso mesmo mais interessante.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Chasing Summer’

Onde assistir ‘Chasing Summer’?

‘Chasing Summer’ estreou no SXSW em março de 2026. Ainda não tem data de estreia em plataformas de streaming ou cinemas comerciais — distribuição deve ser anunciada após o circuito de festivais.

‘Chasing Summer’ é comédia ou drama?

É um híbrido. O filme usa humor como porta de entrada para explorar nostalgia, fracasso e reconexão com o passado. Não é uma comédia tradicional — o ritmo é mais contemplativo e as transições emocionais são fluidas, sem sinalização óbvia.

Quem dirigiu ‘Chasing Summer’?

Josephine Decker dirigiu o filme. Conhecida por dramas psicológicos experimentais como ‘Madeline’s Madeline’ e ‘The Sky Is Everywhere’, ela traz uma abordagem atmosférica que diferencia ‘Chasing Summer’ de comédias convencionais.

Quem é Iliza Shlesinger?

Iliza Shlesinger é comediante de stand-up, atriz e roteirista americana. Ficou conhecida por especiais na Netflix como ‘Elder Millennial’ e ‘Unveiled’. ‘Chasing Summer’ marca sua transição para um cinema mais autoral e pessoal.

Preciso ser do Texas para entender o filme?

Não. O Texas é central na história, mas os temas — voltar para casa, confrontar o passado, lidar com fracasso — são universais. Quem já retornou à cidade natal após anos vai reconhecer as dinâmicas emocionais, independentemente de origem.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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