Um teste de animação 2D de 2020, postado pelo diretor Daniel Chong, revela que ‘Cara de Um, Focinho de Outro’ quase teve a alma visual do Studio Ghibli. Analisamos o que esse clip de 28 segundos diz sobre as escolhas estéticas da Pixar — e o que a Pixar ainda pode aprender com a paciência de Miyazaki.
Em março de 2020, enquanto o mundo parava, um animador chamado Lorenzo Fresta fazia um teste de 28 segundos que ninguém veria por cinco anos. Dois castores nadando contra a corrente, vento movendo as folhas, cores vibrantes e linhas que pareciam saídas de Ghibli. Era um vislumbre do que ‘Cara de Um, Focinho de Outro’ poderia ter sido — e que deliberadamente escolheu não ser.
O clip foi ao ar recentemente, postado pelo diretor Daniel Chong no X como bastidor do filme que está dominando as bilheterias de animação. A reação foi imediata: essa coisa parece japonesa. Parece Miyazaki. Parece tudo que a Pixar nunca foi — e que parte do público claramente queria que fosse.
O que 28 segundos revelam sobre influências que a Pixar raramente admite
O teste de Fresta não deixa dúvida sobre sua inspiração. As formas simplificadas dos castores, a paleta saturada mas não realista, o movimento orgânico da água e das folhas — é a gramática visual do Studio Ghibli aplicada a personagens Pixar. A tensão entre o ‘quem criou’ e o ‘como está renderizado’ é estranha e fascinante.
Mais revelador do que a estética é o que o clip diz sobre processo. Chong escreveu na legenda que o material servia de inspiração — palavra que carrega peso aqui. Significa que alguém, em algum momento, sentou com a equipe e colocou na mesa: ‘E se a gente fizesse algo com essa leveza? Esse ritmo? Essa relação diferente com o naturalismo?’ Não necessariamente em 2D puro. Mas com outra filosofia de movimento.
A versão final de ‘Cara de Um, Focinho de Outro’ tem a estética Pixar de sempre: formas arredondadas em CGI, iluminação volumétrica que imita o comportamento real da luz, esquema de cores naturalista. É tecnicamente deslumbrante. Mas é fundamentalmente outro filme estético — um que optou pelo familiar quando o desconhecido estava ali, testado, em menos de meio minuto de castores nadando.
Por que a Pixar nunca vai lançar um filme 2D — e o que isso custa
A resposta direta: a marca não permite. A Pixar existe, institucionalmente, como a empresa que inventou o longa-metragem em CGI. ‘Toy Story’ não foi apenas um sucesso de bilheteria — foi uma declaração de identidade. Voltar ao 2D seria, do ponto de vista corporativo, como a Apple lançar um produto feito de madeira e borracha. Tecnicamente possível. Estrategicamente impensável.
Tem também o componente econômico, que derruba um mito recorrente. Animação 2D não é necessariamente mais barata — para o nível de qualidade que o público espera de uma Pixar, com riqueza de detalhes e expressividade facial, seria cara e demorada. A Disney não lança um longa 2D desde ‘A Princesa e o Sapo’, em 2009. Quase duas décadas. Não foi falta de interesse artístico.
O problema mais profundo é de expectativa de audiência. O público ocidental foi condicionado a associar CGI com ‘qualidade de cinema’ e 2D com ‘produção menor’. É uma percepção injusta, mas real. Quando ‘A Princesa e o Sapo’ teve performance abaixo do esperado, a conclusão interna foi clara — e moldou decisões por anos.
O que Ghibli ensina que a Pixar ainda está aprendendo
O ponto mais interessante do teste de Fresta não é estilístico. É filosófico. O Studio Ghibli tem uma relação diferente com o tempo dentro dos filmes. As cenas respiram. Em ‘Meu Vizinho Totoro’, há sequências inteiras onde praticamente nada acontece em termos de plot — Satsuki e Mei esperando o pai na chuva, a chegada do Ônibus-Gato surgindo do escuro — e são as mais memoráveis do filme. O silêncio carrega peso. O vento existe como personagem.
Nos 28 segundos do teste, dois castores nadam. Isso é tudo. E funciona. Há algo ali que o CGI moderno, com toda sua capacidade técnica, frequentemente atropela: a poesia do movimento simples.
Isso dito, ‘Cara de Um, Focinho de Outro’ não é um filme sem alma. É a Pixar voltando a fazer o que faz de melhor, depois de anos tropeçando em sequências que ninguém pediu. O filme funciona dentro do seu idioma estético. A questão que o teste de Fresta coloca não é ‘deveria ter sido 2D’ — é mais sutil: o que teria mudado no ritmo, na relação emocional com os personagens, se a linguagem visual fosse outra? Se o filme tivesse aprendido não a aparência de Ghibli, mas a sua paciência?
Essa pergunta não tem resposta. Mas é a pergunta certa.
O valor dos bastidores que nunca chegaram à tela
Há algo genuinamente fascinante em ver material descartado de um filme bem-sucedido. Não porque o produto final seja inferior — às vezes é, às vezes não é —, mas porque revela o espaço de possibilidades que existia antes das decisões serem tomadas. O teste de Fresta é esse tipo de documento: não um caminho melhor, mas um caminho diferente, com suas próprias promessas.
O fato de Daniel Chong ter escolhido postar agora, com o filme em alta, não é acidental. É uma forma de dizer: ‘Olha quanta coisa consideramos antes de chegar aqui.’ Um sinal de segurança criativa — mostrar as rasuras sem medo de que elas diminuam o resultado final.
O clip de 28 segundos é, nesse sentido, mais do que curiosidade de fã. É um argumento implícito sobre como boas animações são feitas: com a disposição de explorar influências radicalmente diferentes antes de decidir quem você quer ser. A Pixar olhou para Ghibli, absorveu o que podia, e fez o filme que sabia fazer. Isso não é fraqueza criativa. É processo.
Só fico com uma pergunta que não sai da cabeça: e se alguém na sala tivesse dito ‘e se a gente tentasse de verdade’?
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Perguntas Frequentes sobre ‘Cara de Um, Focinho de Outro’
Onde assistir ‘Cara de Um, Focinho de Outro’?
‘Cara de Um, Focinho de Outro’ é uma produção Pixar lançada nos cinemas em 2025. A chegada ao streaming Disney+ deve ocorrer alguns meses após o fim da janela de exibição nos cinemas.
Qual é a classificação indicativa de ‘Cara de Um, Focinho de Outro’?
O filme tem classificação livre, sendo adequado para todas as idades. Como a maioria das produções Pixar, equilibra entretenimento infantil com camadas emocionais voltadas ao público adulto.
O que é o teste 2D de Lorenzo Fresta mencionado nas redes sociais?
É um clip de 28 segundos produzido em 2020 pelo animador Lorenzo Fresta como material de inspiração para o filme. Ele mostra dois castores em estilo 2D com estética claramente inspirada no Studio Ghibli. O diretor Daniel Chong postou o vídeo no X em 2025, gerando grande repercussão entre fãs de animação.
‘Cara de Um, Focinho de Outro’ tem relação com outros filmes da Pixar?
Não é uma sequência nem faz parte de nenhuma franquia existente da Pixar. É um filme original, o que já o distingue da fase recente do estúdio, marcada por continuações como ‘Lightyear’ e as sequências de ‘Procurando Dory’ e ‘Carros’.
A Pixar já fez algum filme em 2D?
Não em formato de longa-metragem. A identidade da Pixar foi construída sobre o CGI desde ‘Toy Story’ (1995). Alguns curtas e materiais de bastidores exploram estilos diferentes, como o teste de Fresta, mas nenhuma produção oficial do estúdio adotou o 2D como linguagem principal.

