Cancelamento de ‘The Last Ronin’ roubou o fim que a franquia dos anos 90 merecia

O The Last Ronin cancelado não tirou só uma adaptação “sombria”: tirou a chance de um epílogo para os filmes das Tartarugas Ninja dos anos 90. Explicamos por que o possível retorno de Judith Hoag como April mudava tudo — e por que a Paramount deixou escapar um final raro em franquias.

Algumas franquias simplesmente não têm a sorte de escolher como terminar. Elas desbotam, perdem relevância ou entregam produções cada vez mais fracas até que alguém decide rebootar tudo do zero. Quando soubemos que teríamos The Last Ronin cancelado pela Paramount — não adiado, não “em desenvolvimento”, mas arquivado — ficou claro que estávamos assistindo a esse tipo de morte lenta. Só que pior, porque dessa vez dava para enxergar o que estava sendo perdido: não apenas uma adaptação sombria de HQ, mas a chance real de um fechamento tardio para quem cresceu com as Tartarugas Ninja no começo dos anos 90.

O que existia no papel era um projeto raro dentro de um IP pensado para vender brinquedo: um live-action com classificação R, baseado na graphic novel de Kevin Eastman e Peter Laird (com roteiro creditado a Tom Waltz na publicação), com Tyler Burton Smith escrevendo a adaptação para cinema. A premissa é conhecida: num futuro distópico, um dos irmãos sobrevive e carrega o luto como combustível. E é justamente aí que a ideia deixa de ser “tartaruga edgy” e vira algo com potencial dramático — porque ‘The Last Ronin’ não é sobre ninja, é sobre perda.

O detalhe que muda a conversa: Judith Hoag não seria fan service — seria chave emocional

O detalhe que muda a conversa: Judith Hoag não seria fan service — seria chave emocional

Durante meses, a leitura mais óbvia era: “beleza, mais um reboot”. E reboots existem aos montes porque são fáceis de vender para quem nunca viu nada antes. Aí veio a informação que reconfigurou o projeto por completo: Judith Hoag, a April O’Neil do filme de 1990 (a versão que muita gente ainda trata como “a April definitiva”), contou em convenção que foi procurada para voltar ao papel.

Isso não é um detalhe de elenco. É uma proposta de continuidade — nem que seja uma continuidade espiritual — com a encarnação mais respeitada da trilogia original. Hoag não voltou em ‘O Segredo do Ooze’ nem em ‘Tartarugas Ninja III’ (Paige Turco assumiu), então sua presença, agora, teria peso narrativo: não “olha quem apareceu”, e sim “olha quem ficou”.

Quando ela descreve a ideia como um “grande fechamento”, o subtexto é claro: ‘The Last Ronin’ poderia funcionar como epílogo para quem teve 1990 como porta de entrada. Não para “todos os públicos”. Para uma geração específica.

Por que os filmes dos anos 90 pediam um fim — e não só mais um recomeço

É impossível falar em “franquia dos anos 90” como um bloco só. ‘As Tartarugas Ninja’ (1990) tem um tom que ainda surpreende: a textura dos animatrônicos do Jim Henson’s Creature Shop, a fotografia mais escura do que se espera de um filme vendido para crianças e, principalmente, uma melancolia meio inadvertida — a solidão das tartarugas, o peso paternal do Splinter, a sensação de que aquele grupo existe no subterrâneo por um motivo.

‘O Segredo do Ooze’ (1991) é mais leve, mais “produto”, mas ainda carrega carisma e ritmo. Já ‘Tartarugas Ninja III’ (1993) é onde a série não encerra: ela desaba. A viagem ao Japão feudal, o truque do espelho, o visual empobrecido… é o tipo de último capítulo que não parece último capítulo. Parece abandono.

E é por isso que ‘The Last Ronin’ encaixava como luva: ele é, por natureza, uma história sobre o depois. Sobre o que sobra quando o time acabou. Michelangelo — justamente o irmão associado à piada e ao alívio — virar o sobrevivente é uma escolha cruel e inteligente: desloca o centro emocional. O que antes era energia vira trauma. O “cowabunga” vira mecanismo de defesa. Esse tipo de inversão só funciona quando existe memória afetiva. Sem lastro, é só grimdark. Com lastro, vira luto.

O projeto prometia um filme adulto de verdade — e não “adulto” como sinônimo de gore

O argumento corporativo para a mudança de rumo é previsível: a Paramount quer uma direção mais family-friendly, alinhada ao apelo de produtos recentes e ao motor de merchandising. Só que essa justificativa costuma mascarar outra coisa: medo de segmentar.

O ponto é que segmentar não é bug — é estratégia. Um ‘The Last Ronin’ R-rated não precisava disputar espaço com animações para crianças; ele podia ocupar o lugar que Hollywood adora fingir que não existe: o do fã que cresceu. O exemplo mais óbvio é a convivência, no imaginário pop, de ‘Logan’ com outras abordagens super-heroicas mais amplas. Não é a mesma experiência. Não é a mesma venda. Nem precisa ser.

Ao manter The Last Ronin cancelado, o estúdio não “protegeu a marca”. Ele recusou uma oportunidade de transformar legado em narrativa — e preferiu a segurança do eterno recomeço. O problema do reboot constante não é existir; é virar a única linguagem possível.

O que se perde quando você mata um “bookend” antes de filmar

Existe uma diferença enorme entre “não tivemos tempo” e “não vamos deixar você ter um final”. Franquias quase nunca concluem porque concluídas, elas param de prometer continuação — e promessa é moeda de estúdio. ‘The Last Ronin’ era o oposto disso: um fim intencional, com peso de epitáfio.

Se Judith Hoag voltasse, a dinâmica mais potente nem seria ação. Seria presença. April envelhecida como último elo com a superfície, alguém que lembra do que aqueles quatro eram antes do futuro distópico — e, por isso mesmo, alguém que torna a solidão do sobrevivente insuportável. Essa é a ideia que machuca (no bom sentido): não a violência, mas a memória.

Em vez disso, a trilogia segue “terminando” em 1993, com armaduras ridículas e uma trama que parece saída de um rascunho apressado. E as versões específicas daqueles personagens — as que viveram o tom do primeiro filme, a melancolia, o senso de família — ficam congeladas num ponto que não parece despedida.

Para quem cresceu com ‘As Tartarugas Ninja’ de 1990, isso não é drama performático de fã. É uma lacuna real: a sensação de que uma franquia que um dia levou seu público a sério nunca teve a chance de se levar a sério até o fim.

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Perguntas Frequentes sobre ‘The Last Ronin’

‘The Last Ronin’ foi oficialmente cancelado?

Até onde foi divulgado publicamente, o projeto entrou em estado de arquivamento/engavetamento e deixou de avançar como filme live-action na Paramount. Como estúdios podem reativar projetos, o termo “cancelado” aqui significa: sem produção ativa e sem cronograma anunciado.

‘The Last Ronin’ é baseado em história real?

Não. ‘The Last Ronin’ é baseado na graphic novel das Tartarugas Ninja, uma história de ficção publicada nos quadrinhos, com tom mais adulto e focada no último sobrevivente do grupo.

Quem é o “Last Ronin” na história?

Na graphic novel, o último sobrevivente é Michelangelo. A revelação faz parte do impacto da obra, mas hoje é informação amplamente divulgada em sinopses e materiais promocionais do quadrinho.

O filme de ‘The Last Ronin’ seria continuação dos filmes dos anos 90?

Não havia confirmação oficial de continuidade direta. O que alimentou essa leitura foi a informação de que Judith Hoag (April de 1990) teria sido procurada para voltar ao papel, sugerindo algum tipo de ponte com aquela encarnação.

Qual seria a classificação indicativa prevista para ‘The Last Ronin’?

A proposta divulgada para o live-action era de um filme com classificação R (para maiores), acompanhando o tom mais violento e sombrio do quadrinho — bem diferente das abordagens mais familiares recentes da marca.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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