‘Bridgerton 4’: o erro de roteiro que transformou Benedict em ‘libertino’

Em Bridgerton 4 Benedict, a série reembala a abertura sexual do personagem como “libertinagem” para encaixá-lo no tropo do libertino reformado. Analisamos por que essa virada soa como retcon e o que ela revela sobre o piloto automático do romance na série.

Existem problemas de roteiro que a gente perdoa: inconsistências menores, furos que não mexem no núcleo emocional. Mas existe um tipo de erro que é mais difícil de engolir — quando uma série decide que você, espectador que acompanhou cada episódio, não sabe o que viu. É o que ‘Bridgerton 4’ faz com Benedict: uma temporada que olha para anos de construção e age como se a memória do público fosse opcional.

O resultado é um retcon (retrocontinuidade) de alto impacto: não muda um detalhe do mundo, muda o personagem. E, do jeito que foi executado, não parece escolha ousada; parece atalho.

O “novo Benedict” não é complexidade: é troca de etiqueta

O “novo Benedict” não é complexidade: é troca de etiqueta

Até aqui, Benedict Bridgerton era o irmão artístico e curioso, aquele que circulava por ambientes fora do “bom tom” por interesse real — em gente, em ideias, em estética. Ele experimentava, errava, se encantava. Mas havia uma linha moral relativamente estável: Benedict podia ser volúvel, nunca foi predatório.

É por isso que o rótulo de “libertino” na quarta temporada soa menos como desenvolvimento e mais como reclassificação. A série sempre mostrou um homem sexualmente aberto; agora quer que a gente leia isso como “homem que usa pessoas”. São coisas diferentes — e a diferença, numa narrativa longa, precisa ser construída, não anunciada em rumor de salão.

Quando Lady Penwood cita rumores sobre o “comportamento libertino” dele, a temporada trata como se fosse uma informação que estava no ar desde sempre. Só que não estava. O que estava no ar era outra coisa: um Benedict que buscava liberdade e pertencimento, não um Benedict que colecionava descartes.

O erro de roteiro: transformar um traço em pecado para fabricar arco

O problema central não é Benedict transar mais, ou menos, ou com quem quer que seja. O problema é a série pegar um traço que já existia (abertura sexual) e reembalá-lo como defeito moral (libertinagem) para forçar um arco de “redenção”. Isso é roteirização por necessidade de fórmula: você decide a estrutura primeiro e depois molda o personagem para caber.

E aí vem o sintoma mais evidente: certas cenas não parecem “Benedict tomando uma decisão”; parecem “o roteiro movendo uma peça”. Quando ele propõe que alguém seja sua amante — momento usado para sinalizar um suposto “lado sombrio” — o gesto não nasce de uma trajetória que vimos. Não há uma sequência clara de pequenas concessões, de cinismo crescente, de amargura acumulada. Há um salto.

Saltos podem funcionar quando a série admite a mudança e mostra o custo dela. Aqui, a mudança é vendida como se sempre tivesse sido a verdade do personagem. E isso quebra o contrato básico da serialização: continuidade emocional.

O tropo do “libertino reformado” virou piloto automático em ‘Bridgerton’

O tropo do “libertino reformado” virou piloto automático em 'Bridgerton'

O que torna tudo mais irritante é que ‘Bridgerton’ já tem um modo preferido de contar romance masculino: o homem com histórico de conquistas que precisa ser “domesticado” pela mulher certa. Com Simon, funcionou porque havia um motor dramático singular (trauma, promessa, negação de intimidade). Com Anthony, funcionou porque a série sempre o posicionou como o visconde que se escondia atrás do dever e do prazer.

Com Colin, a coisa já rangeu: a persona de “Casanova pós-Europa” apareceu rápido demais, como se a viagem tivesse vindo com um pacote de personalidade. Em Benedict, o padrão vira reincidência. E reincidência narrativa tem um efeito cruel: não repete apenas estrutura; repete a mensagem. Homens são “projeto”. Mulheres são o “conserto”.

Isso empobrece os dois lados. E é especialmente estranho numa série que, quando quer, escreve ótimas tensões de classe, reputação e desejo sem precisar moralizar o sexo como defeito.

Havia conflito suficiente sem “pintar” Benedict de vilão romântico

O romance de Benedict (a espinha dorsal “Cinderela”, com barreiras de classe e identidade) já é um mecanismo dramático potente. Some a isso o atrito entre o mundo artístico boêmio — onde ele respira — e a engrenagem social da alta sociedade — onde ele é herdeiro. Pronto: você tem conflito interno e externo, sem necessidade de fabricar um “pecado” que a heroína precisa perdoar.

Quando a temporada insiste em dar a ele um “defeito” performático, o que aparece é preguiça de conflito genuíno: em vez de tensionar escolhas, tensiona moral. Em vez de colocar Benedict diante de dilemas (classe, status, coragem pública), coloca diante de um rótulo (“libertino”) que a própria série não sustentou antes.

Livro vs. série: fidelidade não é desculpa para quebrar continuidade

Livro vs. série: fidelidade não é desculpa para quebrar continuidade

Sim: o Benedict dos livros de Julia Quinn é mais áspero, mais “problemático” em atitudes que a série vinha evitando. Mas adaptação não é resgate tardio de uma versão anterior como se nada tivesse mudado. A Netflix construiu um Benedict específico ao longo de três temporadas — e esse é o Benedict com quem o público firmou laço.

Se a ideia era aproximá-lo do material original, havia caminhos elegantes: mostrar um desencanto progressivo, uma crise de identidade, um isolamento que azedasse suas relações; plantar reações negativas de pessoas do círculo; deixar a reputação nascer de escolhas vistas. Do jeito que está, parece que a sala de roteiro quis o efeito do “libertino reformado” sem pagar o preço da construção.

O que isso sinaliza para as próximas temporadas

Com Francesca, Eloise, Hyacinth e Gregory ainda pela frente, ‘Bridgerton’ tem chance de variar arquitetura dramática e, principalmente, de parar de tratar romance como oficina mecânica de personagem masculino. A quarta temporada, porém, sugere o contrário: quando chega a hora de escrever o protagonista, o piloto automático vence.

A Parte 2 estreia em 26 de fevereiro de 2026, e o marketing já acena para “redenção” e grande gesto emocional. Eu também vou assistir — mas com a sensação incômoda de que a série está pedindo para eu investir em um Benedict que ela mesma reescreveu por conveniência.

Veredito: para quem ‘Bridgerton 4’ funciona (e para quem não funciona)

Se você vê ‘Bridgerton’ como um espetáculo de romance, figurino, música pop reorquestrada e química de casal, a temporada ainda entrega prazer imediato. A produção continua eficiente — e, em cenas isoladas, charmosa.

Mas se você valoriza consistência de personagem, Bridgerton 4 Benedict é um teste de paciência. Não porque Benedict “erra” — personagens podem errar. Mas porque a série muda as regras e finge que você sempre jogou assim. Benedict merecia um arco que nascesse dele. E o público merecia uma série que respeitasse o que ela mesma mostrou.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Bridgerton 4’ e Benedict

Quando estreia a Parte 2 de ‘Bridgerton’ 4ª temporada?

A Parte 2 da 4ª temporada estreia em 26 de fevereiro de 2026, conforme a data divulgada no material promocional da série.

Onde assistir ‘Bridgerton’ 4ª temporada?

‘Bridgerton’ é uma série original da Netflix e a 4ª temporada fica disponível na plataforma. A divisão em partes depende do calendário de lançamento divulgado pela Netflix.

A 4ª temporada de ‘Bridgerton’ é baseada em qual livro?

O arco de Benedict na franquia vem de Um Perfeito Cavalheiro (o livro de Benedict na série de Julia Quinn). A adaptação, porém, costuma reorganizar eventos e alterar traços dos personagens.

Preciso ter visto as temporadas anteriores para entender ‘Bridgerton’ 4?

Ajuda muito. A 4ª temporada se apoia em relações já estabelecidas e na reputação dos Bridgerton; sem as temporadas anteriores, você perde contexto de personagem (especialmente no caso do Benedict) e nuances de continuidade.

‘Bridgerton’ 4ª temporada tem cenas pós-créditos?

Em geral, ‘Bridgerton’ não costuma usar cenas pós-créditos como regra. Se houver alguma exceção em episódios específicos da 4ª temporada, a própria Netflix costuma sinalizar no final do episódio (ou o público repercute rapidamente após a estreia).

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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