Analisamos como o cão Indy e o diretor Brandon Leonberg utilizaram o Efeito Kuleshov para desbancar estrelas de Hollywood no Astra Film Awards. Entenda por que ‘Bom Menino’ é um marco técnico no terror moderno e como 400 dias de filmagem criaram a performance canina mais realista da década.
Imagine a cena: em uma categoria disputada por nomes como Ethan Hawke, Alison Brie e Sally Hawkins, o vencedor anunciado é um Nova Scotia Duck Tolling Retriever chamado Indy. O que poderia parecer uma piada de internet ou um prêmio de consolação foi, na verdade, um dos momentos mais legítimos do Astra Film Awards. ‘Bom Menino’ filme terror não é apenas um fenômeno viral; é uma aula de manipulação cinematográfica que prova que, no gênero do medo, a pureza da reação animal supera qualquer método de atuação humano.
O Efeito Kuleshov na prática: por que o ‘vazio’ de Indy funciona
Dizer que Indy “atuou” é um erro técnico, mas dizer que ele não entregou uma performance é um erro crítico. O diretor Brandon Leonberg utilizou o princípio mais fundamental da montagem: o Efeito Kuleshov. Ao intercalar planos da expressão neutra de Indy com imagens de ameaças sugeridas ou sombras rastejantes, o espectador projeta no cão uma angústia que ele, na realidade, não estava sentindo.
Diferente de Messi, o Border Collie de ‘Anatomia de uma Queda’ que realizou proezas físicas conscientes, Indy funciona como um espelho. Em uma das cenas mais tensas do filme — a sequência do corredor escuro —, a câmera fixa no focinho de Indy enquanto o som ambiente de unhas arranhando a madeira sobe de volume. Não há um rosnado ensaiado; há apenas o olhar atento de um cão esperando um comando, mas que, sob a luz de alto contraste de Leonberg, se transforma em terror absoluto.
400 dias de paciência: a logística reversa de Leonberg
Enquanto produções de terror independentes costumam ser maratonas de 20 dias, ‘Bom Menino’ foi uma prova de resistência de três anos. Com mais de 400 dias de filmagem, o cronograma era ditado pelo bem-estar de Indy. Se o cão não estava no mood para uma cena de perseguição, a equipe simplesmente não filmava. Essa abordagem orgânica evitou o aspecto artificial de animais treinados para Hollywood, que muitas vezes parecem olhar para o treinador fora de campo.
Essa limitação forçou uma economia narrativa rara. Como não podiam obrigar o cachorro a realizar ações complexas, Leonberg e o diretor de fotografia focaram em ângulos de câmera baixos (dog’s eye view) e no uso extensivo de profundidade de campo. O resultado é uma imersão sensorial onde o espectador compartilha a vulnerabilidade física do protagonista.
O peso do perigo real vs. fictício
O sucesso de ‘Bom Menino’ no Shudder também revela algo fascinante sobre a psicologia do público de terror. Existe uma barreira de segurança psíquica quando vemos um ator como Ethan Hawke em perigo; sabemos que há um dublê, um contrato e um ego envolvidos. Com um animal, essa barreira desaparece.
A campanha viral que questionava a segurança de Indy durante as filmagens — prontamente respondida com vídeos de bastidores mostrando o cão se divertindo com petiscos entre os takes de “pânico” — serviu para impulsionar o filme. O terror de ‘Bom Menino’ reside no fato de que não suportamos ver a inocência ameaçada por forças que ela não compreende. É o mesmo gatilho que tornou ‘Cujo’ um clássico, mas aqui, a perspectiva é invertida: o cão não é o monstro, é a vítima final.
Uma nova categoria para o Oscar?
A carta aberta de Indy pedindo consideração à Academia pode ter sido uma jogada de marketing brilhante, mas tocou em um ponto nevrálgico. Se premiamos a edição, a trilha e os efeitos por sua capacidade de gerar emoção, por que excluir o elemento que, no caso de ‘Bom Menino’, é o principal condutor dessa emoção? O Astra Film Awards quebrou esse paradigma ao não criar uma categoria “especial” ou “fofa”. Indy venceu por mérito técnico de tela, validando que, no cinema moderno, a performance é uma construção coletiva entre o que está no set e o que é criado na ilha de edição.
Veredito: para quem é ‘Bom Menino’?
Se você procura um slasher convencional ou um terror psicológico denso, talvez se frustre. ‘Bom Menino’ é para quem aprecia a linguagem purista do cinema. É um filme que exige que você sinta o ritmo lento e a incerteza constante. Disponível no Shudder e AMC+, é uma obra que vai fazer você olhar para o seu próprio animal de estimação e se perguntar o que realmente passa por trás daqueles olhos quando a luz da casa se apaga.
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Perguntas Frequentes sobre o filme ‘Bom Menino’
Onde posso assistir ao filme de terror ‘Bom Menino’?
‘Bom Menino’ (Good Boy) está disponível nas plataformas de streaming Shudder e AMC+. No Brasil, a disponibilidade pode variar conforme os catálogos dos serviços prime video (via canais).
Qual é a raça do cachorro Indy de ‘Bom Menino’?
Indy é um Nova Scotia Duck Tolling Retriever. A raça é conhecida por sua inteligência, agilidade e expressividade, o que facilitou o processo de filmagem ao longo dos três anos de produção.
O cachorro sofreu algum maus-tratos durante as filmagens?
Não. A produção de ‘Bom Menino’ foi acompanhada de perto por órgãos de proteção animal e o diretor, Brandon Leonberg, é o próprio dono do cão. O filme levou 400 dias para ser rodado justamente para respeitar o tempo e o bem-estar de Indy.
Indy realmente venceu Ethan Hawke em uma premiação?
Sim, no Astra Film Awards 2024/2025, Indy venceu na categoria de Melhor Performance em Filme de Terror ou Thriller, competindo diretamente com atores humanos renomados.
‘Bom Menino’ é baseado em uma história real?
Não, o roteiro é uma obra de ficção original que explora a vulnerabilidade dos animais de estimação em situações de perigo sobrenatural ou humano.

