‘Boardwalk Empire’: a série que Scorsese elevou ao nível do cinema

Analisamos por que Boardwalk Empire merece revisão no cânone da HBO: a gramática cinematográfica que Scorsese codificou no piloto, o que Steve Buscemi fez com Nucky Thompson que Gandolfini não poderia, e por que a série melhorou justamente quando o público desistiu.

Existe um momento muito específico no piloto de Boardwalk Empire que revela imediatamente a escala da ambição da série. A câmera acompanha Nucky Thompson caminhando pelo calçadão de Atlantic City enquanto o Proibicionismo é declarado — e em vez de cortes rápidos ou música dramática, Scorsese deixa a cena respirar. Você sente o peso político e moral daquele instante. É linguagem de cinema, não de televisão.

E é exatamente aí que está o paradoxo de Boardwalk Empire: uma série que opera no mais alto nível cinematográfico possível, mas que ainda hoje não recebe o reconhecimento que merece ao lado de ‘Família Soprano’ e ‘A Escuta’. Cinco temporadas, 56 episódios, 57 Emmy nominations — e ainda assim tratada como coadjuvante do panteão da HBO.

O que Scorsese estabeleceu que nenhum showrunner estabeleceria sozinho

O que Scorsese estabeleceu que nenhum showrunner estabeleceria sozinho

Martin Scorsese não assina qualquer projeto de televisão. Quando ele se envolve com uma série da HBO e dirige pessoalmente o piloto, você presta atenção — não por reverência ao nome, mas porque o que ele colocou naquele primeiro episódio não foi apenas um visual bonito. Foi uma gramática.

Uma forma de enquadrar, mover a câmera e usar o espaço que dispensava as convenções de cobertura televisiva — o padrão de eixo, o corte funcional, a câmera que existe apenas para registrar. Scorsese tratou Atlantic City dos anos 1920 como trataria qualquer locação de longa-metragem: como um personagem com peso histórico e atmosfera própria. Os diretores dos episódios seguintes receberam esse vocabulário pronto e foram obrigados a estar à altura.

Repare na forma como as cenas noturnas nos clubes usam luz âmbar — quente, sedutora, levemente corrompida. E como os ambientes da política e do governo aparecem em tons frios e deslavados. Não é escolha estética; é a série usando luz para argumentar sobre poder. Essa consistência visual, episódio após episódio, é herança direta do que Scorsese codificou no piloto.

Steve Buscemi fez o que ninguém apostaria que ele faria

Escalar Steve Buscemi para o papel de Enoch ‘Nucky’ Thompson foi uma decisão que muita gente questionou na época. Buscemi não tem a fisicalidade intimidadora de James Gandolfini em ‘Família Soprano’, nem o magnetismo quase sobrenatural de outros anti-heróis televisivos canônicos.

E é exatamente por isso que funciona. Nucky é um operador político, não um intimidador físico. Seu poder vem de saber o que todo mundo quer — e de ser o único capaz de entregar. Buscemi entende isso na espinha. Ele constrói Nucky como alguém que nunca precisa levantar a voz porque nunca deixa chegar ao ponto onde isso seria necessário.

Há uma cena na segunda temporada onde ele simplesmente senta à mesa de um jantar e, sem dizer praticamente nada, rearticula completamente o equilíbrio de poder da conversa. É o tipo de atuação que você só percebe analisando depois — o que é, talvez, o maior elogio possível.

O elenco que nenhuma outra série teria ao mesmo tempo

O elenco que nenhuma outra série teria ao mesmo tempo

HBO tem histórico de escalações extraordinárias. Mas Boardwalk Empire é um caso específico: uma série que, vista hoje, parece ter capturado um grupo de atores exatamente no momento certo de suas carreiras.

Michael Shannon como Van Alden — o agente do Proibicionismo que lentamente implode por dentro — é uma das construções de personagem mais perturbadoras que a televisão produziu naquela era. Shannon encontrou no papel um espaço para trabalhar uma rigidez moral que vai se corroendo episódio a episódio. Quando a fachada finalmente cai, você entende retrospectivamente cada escolha que ele fez nas cenas anteriores. É atuação arquitetural: só faz sentido completo quando você vê a estrutura inteira.

Michael K. Williams como Chalky White — empresário negro de Atlantic City navegando entre o poder branco da máquina política e as expectativas da própria comunidade — trouxe ao papel uma dignidade e uma contenção que transcendem o que o roteiro exigia. Cada cena com Buscemi é uma negociação de forças que raramente resolve da forma que você espera.

E há ainda Kelly Macdonald, Stephen Graham, Shea Whigham — um elenco que em qualquer outra série seria o topo do cartaz, aqui funcionando como tecido conjuntivo de um universo densamente habitado.

Por que ‘Boardwalk Empire’ caiu no esquecimento crítico — e por que isso é injusto

A série estreou em 2010, exatamente quando ‘Breaking Bad’ começava sua ascensão e o debate sobre a ‘era de ouro da televisão’ consumia toda a atenção crítica. ‘Boardwalk Empire’ era lenta, densa, geograficamente específica e recusava a catarse fácil que anti-heróis como Walter White entregavam com precisão cirúrgica.

Além disso, a série melhorou. As duas primeiras temporadas estabelecem o mundo com uma paciência que beira o deliberado. Da terceira em diante — especialmente com a chegada de Bobby Cannavale como Gyp Rosetti, um dos vilões mais instáveis e aterrorizantes da televisão paga — a série encontra uma velocidade que mantém o rigor visual sem abrir mão da tensão narrativa.

Quem desistiu cedo perdeu a melhor parte. Quem aguentou foi recompensado com um dos finais mais elegantes e thematicamente coerentes que uma série de crime já produziu.

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Perguntas Frequentes sobre Boardwalk Empire

Onde assistir Boardwalk Empire no Brasil?

Boardwalk Empire está disponível na Max (antiga HBO Max) no Brasil. As cinco temporadas completas estão na plataforma.

Quantas temporadas tem Boardwalk Empire?

A série tem 5 temporadas e 56 episódios no total, exibidos entre 2010 e 2014 pela HBO. O encerramento foi uma decisão criativa — a série não foi cancelada.

Boardwalk Empire é baseado em história real?

Sim, parcialmente. Enoch ‘Nucky’ Johnson foi um político real que controlou Atlantic City durante o Proibicionismo. Vários personagens — incluindo Al Capone, Lucky Luciano e Arnold Rothstein — são figuras históricas reais, embora a série combine fatos com ficção.

A partir de qual temporada Boardwalk Empire fica melhor?

O consenso entre fãs é que a série atinge seu pico a partir da terceira temporada, com a chegada de Bobby Cannavale como Gyp Rosetti. As duas primeiras temporadas são densas e de ritmo lento, mas estabelecem o universo necessário para o que vem depois.

Scorsese dirigiu toda a série ou apenas o piloto?

Scorsese dirigiu apenas o episódio piloto, mas manteve supervisão criativa como produtor executivo. Seu papel mais duradouro foi estabelecer a linguagem visual que os diretores subsequentes seguiram ao longo das cinco temporadas.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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