Analisamos como a dependência nostálgica de ‘Schitt’s Creek’ funciona como muleta em ‘Big Mistakes’. A nova série de Dan Levy na Netflix repete fórmulas e cadências de comédia, mas esquece a alma — e explicamos o que a 2ª temporada precisa fazer para encontrar sua própria identidade.
Entregar uma obra-prima cria um pesadelo de expectativas para o passo seguinte. Dan Levy esperou seis anos para voltar à TV após o fim de ‘Schitt’s Creek’. O resultado? Ele trouxe de volta a família disfuncional, o humor baseado em falhas de caráter e o personagem sarcástico, mas esqueceu de trazer a alma. A relação entre Big Mistakes Schitt’s Creek não é apenas uma coincidência de estilo: é o maior obstáculo da nova série da Netflix. A dependência nostálgica funciona como uma muleta que impede a nova obra de andar com as próprias pernas.
A armadilha da nostalgia: quando o plágio de si mesmo engessa a série
Entendo o impulso. Se uma fórmula levou seu nome ao Olimpo da televisão, por que abandoná-la? O problema é que a disfuncionalidade dos Rose brilhava porque havia um arco de redenção profundo e paciente amparando-a. Em ‘Big Mistakes’, a família de Nicky e Morgan é entitled, julgadora e emocionalmente bloqueada — exatamente como os Rose no início —, mas a série tenta nos vender essa dinâmica como se o payoff já estivesse implícito. Não está.
Pegue a figura materna. Linda é crítica, absorvida pelos próprios desejos e quase nunca demonstra calor humano. Moira Rose tinha os mesmos traços, mas era mascarada por um vernáculo teatral tão absurdo que o frio se transformava em comédia de alto nível. Linda sofre com a ausência dessa máscara; sem o artifício do vocabulário rebuscado, ela soa apenas cruel. A proximidade forçada da família gera conflito, sim, mas a sensação de ‘já vi isso’ rouba o impacto emocional. A disfunção familiar é um tema fascinante, mas não precisa — e não deveria — vestir a mesma roupa.
O DNA duplicado: por que Nicky soa como David Rose de batina
Se a dinâmica familiar fosse a única semelhança, a série até poderia sobreviver. O golpe de misericórdia vem na cadência da comédia. A estrutura dos diálogos, as pausas longas e o desdém por coisas mundanas são cópias carbônicas. A baixa autoestima e a impulsividade de Morgan geram momentos pontualmente brilhantes — como a cena em que ele cava o túmulo errado, um dos highlights da temporada por usar o erro como motor físico da piada —, mas o entorno soa familiar demais.
A evidência mais dolorosa está no próprio Dan Levy. Nicky e David são personagens teoricamente distintos na premissa (um reverendo vs. um dono de loja de rosé), mas a voz é idêntica. O banimento seco, a impaciência, o humor reativo e o vocabulário afetado aplicado a situações banais. Assistir a Nicky é como ver David Rose usando um colarinho clerical em vez de suéteres oversized. A assinatura autoral de Levy grita tão alto que abafa qualquer chance da nova série desenvolver uma identidade própria. É o fantasma do passado dominando o presente.
Saindo da sombra: o que a 2ª temporada precisa fazer para enterrar o fantasma
A diferença de qualidade entre as duas obras torna a cópia ainda mais cruel. ‘Big Mistakes’ perde o fio da meada em sua própria bagunça narrativa, tentando capitalizar na saudade do público sem entregar a construção de personagens que fez sua antecessora ser impecável. Se a Netflix renovar o show, a segunda temporada precisa de uma operação de risco para destacar o que é único e cortar o que é puro reflexo.
- Fazer do crime o motor, não o adendo: A revelação do vilão no final da primeira temporada é a melhor chance que a série tem. Que a disfunção familiar pare de ser a muleta para todas as piadas e deixe as decisões erráticas de Nicky e Morgan no contexto do crime assumirem o volante. A comédia de crimes precisa ser o DNA principal.
- Explorar a frequência de Yusuf: Ele é a injeção de originalidade que o show tanto precisa. Engraçado, distinto e completamente desconectado da gramática de ‘Schitt’s Creek’, Yusuf opera em um ritmo cênico que a série deveria explorar muito mais.
- Arrancar a batina de David Rose de Nicky: O reverendo precisa parar de soar como um clone. Um desvio sutil no tom, talvez amadurecido pelo peso das consequências criminais que ele agora carrega, faria faculdades para diferenciar os personagens.
O diagnóstico é claro: ‘Big Mistakes’ sofre de uma síndrome de Peter Pan criativa — tem medo de crescer e deixar a casa onde foi tão feliz. Se você quer o conforto térmico de ver Dan Levy sendo Dan Levy, a série entrega o básico. Mas se você esperava que o criador evoluísse sua própria linguagem, a frustração é certa. A segunda temporada tem o cenário perfeito para cortar o cordão umbilical com o passado, ou vai definhar tentando ressuscitar um fantasma que já disse tudo o que tinha a dizer.
Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!
Perguntas Frequentes sobre ‘Big Mistakes’
‘Big Mistakes’ é um spin-off de ‘Schitt’s Creek’?
Não. Embora compartilhem o criador Dan Levy e similaridades no tom de comédia, ‘Big Mistakes’ é uma série original da Netflix com personagens e história independentes.
Onde assistir ‘Big Mistakes’?
‘Big Mistakes’ é uma produção original da Netflix e está disponível exclusivamente na plataforma de streaming.
Dan Levy atua em ‘Big Mistakes’ além de criar a série?
Sim. Assim como em ‘Schitt’s Creek’, Dan Levy não é apenas o criador, roteirista e showrunner, mas também interpreta um dos protagonistas, o reverendo Nicky.
‘Big Mistakes’ já tem 2ª temporada confirmada?
Até o momento, a Netflix ainda não anunciou a renovação oficial para a 2ª temporada. A decisão dependerá dos números de audiência nas próximas semanas.

