Analisamos por que ‘Plan and Execution’ é o ápice narrativo do universo de Albuquerque. Descubra como ‘Better Call Saul’ usa a culpa do espectador, o simbolismo técnico da vela e uma transição magistral para o horror para superar o impacto emocional de ‘Breaking Bad’.
Há momentos na televisão que não apenas encerram arcos, mas redefinem nossa relação com a obra. Em 2022, o episódio ‘Plan and Execution’ fez exatamente isso. No eterno debate ‘Better Call Saul’ vs ‘Breaking Bad’, este capítulo é a prova técnica e narrativa de que o spin-off não só alcançou sua série de origem, como a superou em sofisticação emocional ao transformar o espectador em cúmplice de um crime.
Assisti ao episódio na noite da estreia e a sensação de náusea moral persistiu por dias. Não pela violência gráfica — o universo de Vince Gilligan já nos entregou coisas muito piores —, mas pela percepção de que fomos manipulados. Passamos sete episódios rindo das trapaças de Jimmy e Kim contra Howard Hamlin, ignorando o perigo que espreitava nas sombras. Quando o crédito subiu, o alvo não era apenas Howard; era a nossa própria ética.
A engenharia do golpe: Como Schnauz nos transformou em cúmplices
A primeira metade de ‘Plan and Execution’ é um deleite técnico. O roteiro e a direção de Thomas Schnauz emulam um caper movie clássico, com montagem rítmica e uma trilha sonora que evoca a leveza de ‘Ocean’s Eleven’. Jimmy e Kim correm contra o tempo, trocam fotos, encenam situações. É impossível não torcer por eles. A série nos condicionou a amar o ‘corre’ de Saul Goodman.
O que torna este episódio superior a qualquer clímax de ‘Breaking Bad’ é o uso deliberado dessa estrutura contra o público. Enquanto focamos na logística brilhante do plano contra Howard, a série esconde Lalo Salamanca. Ele é uma presença constante no subtexto, mas ausente visualmente até o momento final. Essa dissonância tonal — uma comédia de erros acontecendo simultaneamente a um thriller de cartel — cria uma armadilha perfeita.
O horror doméstico e o simbolismo da vela
A transição de gênero que ocorre nos minutos finais é uma aula de direção. Quando Howard entra no apartamento, o tom ainda é de acerto de contas dramático. Patrick Fabian entrega uma performance devastadora, transformando Howard de um antagonista caricato em um homem quebrado, mas digno. E então, o detalhe técnico que separa os mestres dos amadores: a vela que pisca.
A oscilação da chama quando a porta se abre é o único aviso. Não há trilha sonora de suspense. Não há cortes rápidos. Apenas o silêncio absoluto e a entrada casual de Lalo. A fotografia de Marshall Adams muda sutilmente; as cores quentes do apartamento de Kim tornam-se claustrofóbicas sob a sombra do assassino. O tiro que encerra a vida de Howard é seco e banal, o que o torna infinitamente mais perturbador do que a morte cinematográfica de Gus Fring em ‘Face Off’.
Moralidade vs. Cumplicidade: Onde Vince Gilligan mudou o jogo
Em ‘Breaking Bad’, assistimos à descida de Walter White com um distanciamento seguro. Quando Walt deixa Jane morrer ou envenena Brock, ficamos horrorizados com as ações dele. Em ‘Better Call Saul’, a dinâmica é invertida. Howard Hamlin não morreu porque era um vilão; ele morreu porque Jimmy e Kim precisavam de um palco para seu egoísmo, e nós pagamos o ingresso com nossa torcida.
Esta é a tese central do debate ‘Better Call Saul’ vs ‘Breaking Bad’. Enquanto a série original é um estudo sobre a transformação de um homem, o spin-off é um estudo sobre a corrupção do ambiente ao redor. Howard é o dano colateral de um jogo que nós, como espectadores, incentivamos. A morte dele dói mais porque é injusta, desnecessária e, tecnicamente, fruto de uma ‘brincadeira’ que saiu do controle.
Um patamar acima do clássico
Muitos argumentam que ‘Ozymandias’ é o ápice da televisão, e há méritos nisso. Mas ‘Plan and Execution’ opera em uma frequência mais sutil e cruel. Ele não precisa de desertos, tiroteios em massa ou impérios desmoronando. Ele precisa apenas de uma sala de estar, três personagens e as consequências inevitáveis de escolhas morais duvidosas.
Ao final, ‘Better Call Saul’ prova que a paciência narrativa das primeiras temporadas — tão criticada por quem buscava apenas adrenalina — era necessária. Precisávamos conhecer a humanidade de Howard por seis anos para que sua partida nos deixasse esse vazio. É uma obra-prima de construção lenta que culmina em um dos momentos mais honestos e terríveis da história da TV. Se ‘Breaking Bad’ é o triunfo do espetáculo, ‘Better Call Saul’ é o triunfo da psicologia cinematográfica.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Better Call Saul’ vs ‘Breaking Bad’
Qual episódio de Better Call Saul o Howard morre?
Howard Hamlin morre no episódio 7 da 6ª temporada, intitulado ‘Plan and Execution’. O episódio serviu como o final da mid-season da última temporada da série.
Por que a vela pisca quando Lalo entra no apartamento?
Tecnicamente, a vela pisca devido à mudança na pressão do ar quando a porta é aberta. Narrativamente, é o único aviso visual da presença de Lalo Salamanca, simbolizando que a ‘luz’ da vida de Howard está prestes a se apagar.
Preciso assistir Breaking Bad antes de Better Call Saul?
Embora Better Call Saul seja um prelúdio, a experiência é muito mais rica se você assistir Breaking Bad primeiro. O impacto de personagens como Gus Fring, Mike e o próprio Lalo depende do contexto estabelecido na série original.
Onde assistir as duas séries completas?
Tanto ‘Breaking Bad’ quanto ‘Better Call Saul’ estão disponíveis integralmente no catálogo da Netflix no Brasil.
Quem dirigiu o episódio ‘Plan and Execution’?
O episódio foi escrito e dirigido por Thomas Schnauz, um dos principais colaboradores de Vince Gilligan desde os tempos de ‘Arquivo X’.

