Analisamos por que ‘Batman: A Piada Mortal’ permanece como a pior adaptação do herói após uma década. Do prólogo desastroso com Barbara Gordon à estética visual pobre que desonra a arte de Brian Bolland, explicamos por que nem as vozes de Conroy e Hamill salvam este desastre conceitual.
‘Batman: A Piada Mortal’ completará dez anos em 2026, e o tempo foi um juiz implacável para esta adaptação. O que já era problemático em 2016 hoje soa como um erro de leitura fundamental — não apenas da obra de Alan Moore, mas do próprio DNA do Cavaleiro das Trevas. Ao tentar ‘expandir’ uma das graphic novels mais densas da história, a DC produziu um filme que parece ter sido feito por pessoas que confundiram maturidade com mau gosto.
O prólogo de Barbara Gordon: como destruir uma personagem em 30 minutos
A graphic novel original de Alan Moore e Brian Bolland é um exercício de economia narrativa: 50 páginas onde cada quadro carrega um peso psicológico absurdo. Para atingir a duração de um longa-metragem, a produção tomou a decisão desastrosa de criar um prólogo de 30 minutos focado em Barbara Gordon. O problema não é dar destaque à Batgirl, mas sim como isso foi feito.
A subtrama contra um vilão genérico culmina na infame cena do ‘Bat-sexo’ no terraço. Ao transformar a relação mentor/pupila em um romance mal resolvido, o filme reduz Barbara de uma heroína competente a uma jovem obcecada que soca Batman por não retornar suas ligações. Em 2026, com discussões muito mais maduras sobre o tratamento de figuras femininas na cultura pop, essa escolha não é apenas datada — é ativamente ofensiva à trajetória da personagem que viria a se tornar a Oráculo.
A estética de ‘sábado de manhã’ vs. a arte de Brian Bolland
Um dos maiores crimes desta animação é visual. Quem conhece a obra original sabe que o detalhismo obsessivo e as cores frias (ou a psicodelia da recolorização de Bolland) são essenciais para a atmosfera de pesadelo. O filme, por outro lado, utiliza o traço genérico e chapado das animações standard da DC daquela década.
A falta de sombras profundas e a animação por vezes rígida tiram o impacto de cenas icônicas. Quando o Coringa emerge do tanque de produtos químicos, a tragédia visual que deveria ser visceral parece apenas um episódio comum de uma série matinal. A complexidade psicológica de Moore foi achatada por uma estética que não tem coragem de ser tão perturbadora quanto o roteiro exige.
Vozes lendárias presas em um roteiro medíocre
O paradoxo de ‘A Piada Mortal’ é que ele possui o ‘elenco dos sonhos’. Kevin Conroy e Mark Hamill entregam o que se espera deles, mas mesmo o talento desses gigantes tem limite. Hamill, em especial, consegue injetar aquela mistura de alegria sádica e desespero na origem do Coringa, mas o roteiro literal demais tira a ambiguidade que tornava o vilão fascinante.
Na HQ, o Coringa admite que prefere que seu passado seja ‘múltipla escolha’. No filme, a apresentação didática das cenas de flashback remove essa incerteza. Ouvir Conroy e Hamill é sempre um privilégio — especialmente após o falecimento de Conroy —, mas aqui o brilho deles serve apenas para destacar o quão vazio é o material que os cerca.
O peso do tropo da ‘mulher na geladeira’ em 2026
O filme envelhece mal porque reforça o pior dos tropos: a ‘mulher na geladeira’ (onde uma personagem feminina sofre apenas para motivar o protagonista masculino). Ao sexualizar Barbara Gordon no início para depois brutalizá-la no ato principal, o filme torna a violência do Coringa algo quase exploratório, perdendo o peso de crítica social e psicológica que Moore pretendia.
Comparado a animações como ‘Batman: O Cavaleiro das Trevas’ ou até a série da ‘Arlequina’, que tratam seus temas adultos com muito mais identidade e respeito, ‘A Piada Mortal’ permanece como um lembrete de que fidelidade não é apenas copiar diálogos, mas entender o tom. Se você busca a experiência definitiva dessa história, ignore o filme e volte para o papel. Em 50 páginas, Moore e Bolland dizem mais do que estes 76 minutos de animação esquecível jamais conseguirão.
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Perguntas Frequentes sobre Batman: A Piada Mortal
O filme ‘Batman: A Piada Mortal’ é fiel à HQ?
Parcialmente. A segunda metade do filme segue os diálogos da HQ quase palavra por palavra, mas os primeiros 30 minutos são um prólogo totalmente original (e muito criticado) que não existe na obra de Alan Moore.
Por que a cena entre Batman e Batgirl causou polêmica?
O filme introduz uma relação sexual entre Batman e Barbara Gordon. Fãs e críticos consideraram a escolha desnecessária, pois sexualiza a personagem pouco antes de ela sofrer a violência do Coringa, além de descaracterizar a relação de mentor e aprendiz.
Onde posso assistir à animação ‘A Piada Mortal’?
Atualmente, o filme está disponível no catálogo da Max (antiga HBO Max), que concentra a maior parte das produções da DC Comics.
Qual a classificação indicativa do filme?
O filme tem classificação R (para maiores de 17 anos nos EUA, equivalente a 16 ou 18 anos no Brasil) devido à violência gráfica, temas adultos e linguagem forte.
Vale a pena assistir pela dublagem original?
Sim, se você é fã de Kevin Conroy e Mark Hamill. Apesar dos problemas de roteiro, as performances da dupla continuam sendo o ponto alto da produção e um item de colecionador para fãs das vozes clássicas.

