‘Babilônia’: por que o caos de Damien Chazelle é um clássico cult moderno

Analisamos por que ‘Babilônia’ transcendeu o fracasso de bilheteria para se tornar um marco cult moderno. De Margot Robbie ao caos técnico de Damien Chazelle, explicamos como o filme equilibra a celebração da arte com uma autópsia cruel da indústria cinematográfica.

Existe um tipo de filme que nasce para ser incompreendido. Que chega aos cinemas no momento errado, com a duração errada, para um público que não estava pronto. ‘Babilônia’ filme de Damien Chazelle é exatamente isso — e três anos depois do seu fracasso retumbante de bilheteria, finalmente estamos começando a entender a magnitude da obra que tínhamos em mãos.

Quando assisti pela primeira vez, em janeiro de 2023, saí do cinema atordoado. Não no sentido positivo que a crítica costuma usar para promover blockbusters. Atordoado de verdade, como quem levou um soco no estômago e precisa de ar. Três horas de caos sensorial, de corpos suados, elefantes defecando e sangue jorrando em sets improvisados no deserto. Pensei: ‘Isso é brilhante ou é um desastre completo?’. A resposta, após cinco revisões, é: ambos. E é exatamente por isso que ‘Babilônia’ se consolidou como o clássico cult definitivo desta década.

O fracasso comercial vs. a imortalidade artística

O fracasso comercial vs. a imortalidade artística

Vamos aos fatos: ‘Babilônia’ custou aproximadamente 80 milhões de dólares e arrecadou pouco mais de 60 milhões mundialmente. Um desastre financeiro para a Paramount. O público médio, acostumado com a elegância de ‘La La Land’, foi repelido pela escatologia e pela duração de três horas e nove minutos. Mas o tempo é o melhor editor de cinema.

O problema é que ‘Babilônia’ não quer ser uma fórmula. Quer ser uma experiência visceral sobre a transição do cinema mudo para o falado. Chazelle opera em um nível de excesso que ignora as conveniências do mercado de shopping centers. Ele não filmou uma história; ele filmou um colapso nervoso coletivo.

A nostalgia que morde: o equilíbrio entre o amor e a podridão

O que torna ‘Babilônia’ fascinante é sua recusa em ser uma ‘homenagem’ açucarada. O filme ama Hollywood com uma intensidade quase doentia. Aquelas sequências de filmagem no deserto, com câmeras de manivela capturando batalhas épicas enquanto o sol se põe, são cartas de amor cinematográficas. Você sente a poeira e a adrenalina de criar o impossível.

Mas Chazelle não é ingênuo. Intercaladas com o êxtase estão cenas de racismo sistêmico, mortes em set tratadas como estatística e uma festa de abertura que funciona como o inferno de Dante regado a jazz. A sequência em que Sidney Palmer (Jovan Adepo) é forçado a escurecer a pele com cortiça queimada é brutal e silenciosa. Não há redenção fácil. Chazelle mostra que a ‘Era de Ouro’ foi construída sobre ossos e humilhação.

Margot Robbie e o domínio técnico da ‘cena do som’

Margot Robbie e o domínio técnico da 'cena do som'

Nellie LaRoy é o papel da vida de Margot Robbie. A fisicalidade da performance é impressionante — ela parece estar sempre à beira de uma combustão espontânea. Mas o ápice técnico do filme, e talvez da carreira de Chazelle, é a sequência da primeira filmagem com som de Nellie.

Ali, o filme se transforma em um thriller de claustrofobia. O calor insuportável na cabine de som, o microfone escondido nas flores, o técnico suando frio e a repetição exaustiva da mesma frase. É uma aula de montagem e design de som que ilustra como a tecnologia, ao trazer a voz, quase matou a alma e a espontaneidade dos atores daquela geração.

A trilha sonora de Justin Hurwitz como fio condutor

Não se pode falar de ‘Babilônia’ sem mencionar Justin Hurwitz. Se em ‘Whiplash’ o jazz era agressão, aqui ele é combustível. A faixa ‘Voodoo Mama’ não é apenas música de fundo; ela dita o ritmo da edição. O filme é estruturado como uma jam session de três horas — com solos longos, mudanças bruscas de tom e momentos de dissonância proposital. Se você se sente exausto ao final, é porque a trilha sonora foi projetada para não te deixar respirar.

O veredito: por que ele sobreviverá a 2026?

Com a inteligência artificial e os algoritmos ameaçando pasteurizar o cinema, ‘Babilônia’ ganha nova relevância. É um lembrete do que acontece quando um diretor recebe um cheque em branco e decide ser absolutamente autoral, sem medo do ridículo ou do fracasso.

É o tipo de filme que melhora a cada revisão porque revela novas camadas de desprezo e adoração pela sétima arte. Daqui a vinte anos, ele não será lembrado pelos números da bilheteria, mas como o testamento de uma indústria que devora seus filhos, mas imortaliza seus sonhos. Se você busca algo seguro, passe longe. Se busca a alma do cinema em sua forma mais caótica e pura, ‘Babilônia’ é obrigatório.

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Perguntas Frequentes sobre o filme ‘Babilônia’

Onde assistir ao filme ‘Babilônia’?

‘Babilônia’ está disponível para streaming em plataformas como a Netflix e Paramount+ (dependendo da região), além de estar disponível para aluguel e compra em lojas digitais como Apple TV e Google Play.

‘Babilônia’ é baseado em uma história real?

O filme é uma ficção, mas os personagens são inspirados em figuras reais. Nellie LaRoy (Margot Robbie) tem traços de Clara Bow, enquanto Jack Conrad (Brad Pitt) é vagamente baseado em John Gilbert e Douglas Fairbanks.

Qual a duração de ‘Babilônia’?

O filme tem uma duração total de 3 horas e 9 minutos (189 minutos). É uma narrativa épica que cobre quase uma década da história de Hollywood.

Por que o filme ‘Babilônia’ fracassou na bilheteria?

O fracasso é atribuído a uma combinação de fatores: a longa duração, o conteúdo explícito que dividiu a crítica, e o lançamento durante uma tempestade de inverno nos EUA que afetou a frequência aos cinemas em 2022.

‘Babilônia’ tem cenas pós-créditos?

Não, o filme não possui cenas pós-créditos. No entanto, o final apresenta uma montagem visualmente densa que serve como um epílogo para toda a história do cinema.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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