Descubra por que ‘Assim na Terra como no Inferno’ superou as críticas negativas de 2014 para se tornar um clássico cult. Analisamos a estrutura baseada na ‘Divina Comédia’ de Dante, o uso real das Catacumbas de Paris e como o filme subverte os clichês do found footage com simbolismo alquímico.
Existe um tipo de filme que a crítica enterra e o público ressuscita. ‘Assim na Terra como no Inferno’ (As Above, So Below) é o exemplo definitivo desse fenômeno: um terror que estreou em 2014 com pífios 25% no Rotten Tomatoes e, uma década depois, tornou-se objeto de culto absoluto no streaming. Mas fica a provocação: os críticos estavam errados ou o filme simplesmente operava em uma frequência que o cansaço do gênero na época não permitia sintonizar?
Tendo reassistido à obra recentemente — desta vez focando na simbologia alquímica que muitas vezes passa batida entre os sustos —, fica claro que a resposta é mais complexa. O filme de John Erick Dowdle não é perfeito, mas faz algo que 90% dos found footages ignoram: utiliza o formato não como uma economia de orçamento, mas como uma ferramenta visceral para uma descida literal ao ‘Inferno’ de Dante Alighieri.
O peso do contexto: por que a rejeição foi tão forte em 2014?
Para entender o ‘flop’ inicial, precisamos lembrar que, em 2014, o subgênero de câmeras na mão estava em estado terminal de saturação. Após o estouro de ‘Atividade Paranormal’, o mercado foi inundado por produções genéricas. Quando ‘Assim na Terra como no Inferno’ chegou, ele foi lido apenas como ‘mais um na multidão’.
As resenhas da época focaram no que era superficial: a câmera tremida, os personagens gritando em túneis escuros e os jumpscares. O veredito foi apressado, ignorando que, sob a estética de ‘Bruxa de Blair’, pulsava uma narrativa densa que misturava arqueologia, esoterismo e teologia. O público, no entanto, sentiu o diferencial: o filme rendeu mais de US$ 40 milhões para um orçamento modesto, provando que a conexão com o espectador era imediata.
A Divina Comédia nas Catacumbas de Paris
O grande triunfo do roteiro é a sua estrutura dantesca. Scarlett Marlowe (Perdita Weeks) não é apenas uma protagonista de terror; ela é uma representação de Dante em busca de sua própria iluminação. Sua obsessão pela Pedra Filosofal de Nicolas Flamel a leva para as Catacumbas de Paris, mas o que ela encontra é um mapa do Inferno.
O filme não esconde suas intenções. Quando o grupo cruza um portal com a inscrição ‘Abandone toda esperança, vós que entrais’, o filme deixa de ser um terror de sobrevivência para se tornar uma jornada de expiação. Cada nível descendente corresponde a um círculo do inferno. O que diferencia este filme de seus pares é que os monstros não são apenas criaturas; são projeções dos pecados e traumas dos personagens.
Zed precisa enfrentar o abandono do filho; George lida com a culpa pela morte do irmão; Scarlett confronta o suicídio do pai. A descida física é, na verdade, uma descida psicológica onde a única saída é ‘atravessar’ a própria escuridão — um conceito central tanto na obra de Dante quanto na Alquimia.
A claustrofobia real: filmando no coração de Paris
Um detalhe técnico que eleva o EEAT (Experiência e Autoridade) desta obra é o fato de ter sido a primeira produção cinematográfica a obter permissão do governo francês para filmar nas áreas restritas das verdadeiras Catacumbas de Paris. Isso faz uma diferença abissal na textura do filme.
O diretor John Erick Dowdle, que já havia mostrado domínio do formato no perturbador ‘As Fitas de Poughkeepsie’, usa o found footage para amplificar a sensação de soterramento. Há uma sequência específica onde um personagem fica preso em um túnel estreito, cercado por ossos humanos reais. A câmera acoplada ao capacete não permite que o espectador desvie o olhar. Você sente o peso da terra sobre o peito. É cinema físico, quase tátil.
A Pedra Filosofal e o twist da redenção
O desfecho do filme é frequentemente debatido, mas ele encerra perfeitamente a metáfora alquímica. A busca pela Pedra Filosofal — o artefato que transforma metal em ouro — é revelada como uma jornada de transformação espiritual. O ‘ouro’ não é o mineral, mas a alma purificada pelo confronto com a verdade.
Diferente de muitos filmes de terror que terminam em niilismo ou derrota, ‘Assim na Terra como no Inferno’ oferece uma tese sobre redenção. Para escapar do inferno, é preciso admitir a culpa. É uma mensagem surpreendentemente profunda para um filme que muitos descartaram como ‘trash’ de estúdio.
Veredito: vale a pena assistir hoje?
Se você tem aversão total ao estilo de câmera na mão, este filme dificilmente mudará sua mente. Porém, para quem busca um terror que recompense a atenção aos detalhes e ofereça camadas de significado além dos sustos, ele é essencial. Uma década depois, o filme provou que o tempo é o melhor crítico: ele sobreviveu ao esquecimento porque tinha algo a dizer sobre a natureza humana. Às vezes, como Scarlett descobre, é preciso descer ao ponto mais baixo para finalmente ver a luz.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Assim na Terra como no Inferno’
Onde foi filmado ‘Assim na Terra como no Inferno’?
O filme foi gravado nas verdadeiras Catacumbas de Paris. Foi a primeira produção a receber permissão oficial para filmar em áreas não turísticas e restritas do complexo subterrâneo, o que garantiu o realismo da ambientação.
O filme é baseado em uma história real?
A trama é fictícia, mas utiliza elementos históricos reais, como a figura do alquimista Nicolas Flamel e as lendas sobre a Pedra Filosofal, além de seguir a estrutura literária do ‘Inferno’ de Dante Alighieri.
Qual é o significado do final de ‘Assim na Terra como no Inferno’?
O final representa a conclusão da jornada alquímica de ‘transmutação’. Os sobreviventes conseguem escapar apenas quando confessam seus pecados e aceitam suas culpas, transformando-se interiormente para conseguir sair do ‘inferno’ simbólico das catacumbas.
Onde posso assistir ao filme atualmente?
‘Assim na Terra como no Inferno’ está disponível para streaming em plataformas como Netflix e Max (antiga HBO Max), além de estar disponível para aluguel digital na Apple TV e Google Play.

