Arte inédita revela o retorno cancelado de Cillian Murphy em ‘Tron: Ares’

Concept art inédita mostra Cillian Murphy vestindo o traje de Sark em ‘Tron: Ares’ — um retorno que foi cortado por decisão criativa. Explicamos por que o diretor Joachim Rønning escolheu priorizar a narrativa sobre a nostalgia, e como Evan Peters herdou o manto do vilão.

Entre as dezenas de conexões narrativas que ‘Tron: Ares’ poderia ter resgatado, uma parecia óbvia: o retorno de Cillian Murphy como Edward Dillinger Jr. Afinal, seu cameo em ‘Tron: O Legado’ (2010) funcionava como uma semente plantada para o futuro. Agora, uma concept art recém-revelada mostra exatamente o que perdemos — e a razão por trás do corte revela uma escolha criativa que merece ser discutida.

O artista Phil Saunders compartilhou no Instagram uma ilustração de Cillian Murphy Tron Ares vestindo o icônico traje de Sark — o vilão interpretado por David Warner no filme original de 1982. A imagem não é apenas um exercício de design; representa uma ponte direta entre as gerações da família Dillinger dentro do universo Tron. Uma ponte que, por decisão criativa, nunca foi construída.

A arte que Phil Saunders criou para atrair Cillian Murphy

A arte que Phil Saunders criou para atrair Cillian Murphy

A ilustração de Saunders carrega uma história própria. Segundo ele, o designer de produção Darren Gilford pediu o desenho ainda durante a pré-produção de ‘Tron: O Legado’ — não para o filme em si, mas como ferramenta de persuasão. “Acho que era para atrair Murphy para a produção e reprisar seu papel como o Dillinger Jr.”, explica Saunders no post. Havia intenção de expandir o personagem muito antes de ‘Ares’ sequer existir.

O detalhe que torna a arte especial é sua referência explícita a Moebius. O artista francês Jean Giraud, lendário por seu trabalho em quadrinhos de ficção científica e em filmes como ‘Blade Runner’ e ‘O Abismo Negro’, influenciou profundamente a estética de Tron desde o início. Saunders menciona que Moebius “sempre foi um grande herói meu” e que ficou entusiasmado em criar uma variação do traje clássico de Sark. Isso não é apenas design de figurino — é reverência à história visual da ficção científica.

O resultado impressiona. A imagem mostra Murphy com a silhueta inconfundível do programa Sark: o capacete angular, as linhas luminosas cortando o preto absoluto, a postura de autoridade ameaçadora. É um visual que conectaria diretamente o vilão de 1982 a uma nova geração — através do filho de Ed Dillinger assumindo o manto digital de seu pai. A composição lembra os traços fluidos e geométricos que Moebius usava em obras como ‘O Mundo de Edena’, adaptados para a linguagem visual digital que Tron estabeleceu.

A decisão de Joachim Rønning: cortar o personagem pela narrativa

Aqui entra a escolha que separa ‘Tron: Ares’ da maioria das sequências modernas. O diretor Joachim Rønning não cortou Murphy por questões logísticas ou orçamentárias. Ele removeu o personagem porque a história pediu — uma atitude que vai contra a tentação contemporânea de encher sequências de callbacks nostálgicos.

“A história acabou num lugar onde sentimos que não precisávamos dos personagens antigos em destaque”, explicou Rønning. “Queríamos levar isso para uma nova direção e, ao mesmo tempo, honrar o universo em que estamos.” É uma declaração que parece simples, mas carrega uma filosofia de roteiro que muitos blockbusters ignoram: nem toda conexão serve à narrativa.

O diretor também reconheceu que “essas coisas não são apenas escolhas criativas; às vezes atores não querem mais participar”. É uma admissão honesta de que nem tudo é controle criativo — mas a ausência de Murphy não foi tratada como um buraco a ser preenchido com outro fan service. Foi aceita como parte do rumo natural da história.

Isso é notável em uma era de franquias que ressuscitam personagens por puro apelo nostálgico. Pense em como ‘Star Wars: O Despertar da Força’ estruturou metade de seu apelo emocional em “olha, está o Han Solo de novo!” — ou como ‘Ghostbusters: Afterlife’ dependeu inteiramente do retorno do elenco original para justificar sua existência. Rønning escolheu outro caminho.

Como Evan Peters herdou o manto de Sark em ‘Tron: Ares’

A ausência de Murphy não significa que a linhagem Dillinger desapareceu. ‘Tron: Ares’ introduz Julian Dillinger, interpretado por Evan Peters — o neto do Ed Dillinger original e novo CEO da Dillinger Systems. E durante o desfecho do filme, Peters eventualmente veste o traje de Sark.

É uma solução narrativa interessante: em vez de Murphy herdando o manto de seu pai (o que seria uma progressão linear), temos Peters assumindo um legado que pertence ao avô. Isso cria uma dinâmica diferente — um homem mais jovem conectado a um passado que ele talvez não compre completamente, mas que carrega em seu DNA literal e corporativo.

A troca também reflete a mudança de foco da franquia. Enquanto ‘Tron: O Legado’ operava como uma sequência direta do filme de 1982 — com Jeff Bridges retornando como Kevin Flynn e a narrativa girando em torno de consequências de eventos passados — ‘Ares’ quer ser um ponto de entrada novo. A trama segue um programa de IA que chega ao mundo real, marcando “o primeiro encontro da humanidade com seres de inteligência artificial”. É uma premissa que não depende de conhecer a história anterior.

Quando a nostalgia atrapalha mais do que ajuda

Confesso: vi ‘Tron: O Legado’ no cinema em 2010 e o cameo de Murphy passou batido para a maioria da plateia. Eu entendi a referência porque conhecia o filme original — mas para o público geral, aquele executivo frio poderia ser qualquer personagem secundário. A semente plantada ali dependia de um conhecimento prévio que a maioria não tinha.

É exatamente esse o problema que Rønning parece ter identificado. Se ‘Tron: Ares’ trouxesse Murphy de volta como Sark, estaria apostando em uma recompensa que talvez nem existisse para a maior parte do público. Quantos espectadores lembram de um cameo de 30 segundos em um filme de 2010? Quantos conectariam isso ao vilão de um filme de 1982 que a maioria nunca viu?

A decisão de cortar Dillinger Jr. funciona como uma admissão inteligente: nem toda promessa feita em filmes anteriores precisa ser cumprida. Às vezes, a melhor escolha criativa é reconhecer que uma thread narrativa não serve à nova história — e deixá-la como uma curiosidade para fãs dedicados descobrirem depois, como essa concept art.

Isso não significa que ‘Tron: Ares’ abandona completamente seu passado. Jeff Bridges retorna como Kevin Flynn, e sua presença é justificada pela trama — não por obrigação nostálgica. A diferença é crucial: Flynn serve à história de ‘Ares’; Dillinger Jr. serviria apenas à história da franquia. São coisas diferentes.

O que perdemos — e ganhamos — com a ausência de Murphy

Ver a ilustração de Saunders provoca uma reação ambivalente. Por um lado, é impossível não imaginar como seria ver Murphy vestindo aquele traje em tela cheia — o ator tem uma capacidade única de misturar frieza calculista com humanidade inesperada, exatamente o que um Dillinger em transição para vilão precisaria. Por outro, a ausência dessa cena em ‘Ares’ representa algo valioso: uma franquia que prioriza sua história atual sobre seu próprio passado.

Saunders finaliza seu post com uma piada autoconsciente: “Dada a ausência dele do filme, espero que esta ilustração não seja o motivo de ele ter recusado!” É um comentário leve sobre algo sério — a arte que deveria atrair Murphy talvez tenha chegado tarde demais, quando os planos para o personagem já haviam mudado.

Para fãs da franquia, a concept art funciona como uma janela para um filme alternativo — aquele onde a linhagem Dillinger continua direta, onde Murphy expande seu cameo em performance completa, onde ‘Tron: Ares’ faz a escolha segura de conectar-se ao passado. Mas o filme que temos fez a escolha corajosa de seguir em frente. E no cenário atual de franquias eternamente olhando para trás, isso merece respeito.

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Perguntas Frequentes sobre Cillian Murphy em ‘Tron: Ares’

Cillian Murphy aparece em ‘Tron: Ares’?

Não. Apesar de ter feito um cameo como Edward Dillinger Jr. em ‘Tron: O Legado’ (2010) e existirem planos para seu retorno, o personagem foi cortado de ‘Tron: Ares’ por decisão criativa do diretor Joachim Rønning.

Quem interpreta o vilão em ‘Tron: Ares’?

O vilão Sark é interpretado por Evan Peters, que assume o papel de Julian Dillinger — neto do Ed Dillinger original do filme de 1982. Peters veste o traje de Sark durante o desfecho do filme.

Por que Cillian Murphy foi cortado de ‘Tron: Ares’?

O diretor Joachim Rønning explicou que a história chegou num ponto onde não precisava de personagens antigos em destaque. A decisão foi criativa, não logística — Rønning preferiu priorizar a narrativa atual da franquia em vez de callbacks nostálgicos.

Quem é Sark em Tron?

Sark é um programa vilão introduzido no filme ‘Tron’ original de 1982, interpretado por David Warner. Ele servia como executor do Master Control Program e se tornou um dos ícones visuais da franquia, com seu traje preto e linhas luminosas alaranjadas.

‘Tron: Ares’ tem conexão com o filme original de 1982?

Sim, mas funciona como um novo ponto de entrada. Jeff Bridges retorna como Kevin Flynn, e a família Dillinger permanece presente através de Evan Peters. No entanto, a trama foca no primeiro encontro da humanidade com IA, permitindo que novos espectadores acompanhem sem conhecer os filmes anteriores.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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