‘Arquivo X’: por que a série é um ícone, mas nem sempre é boa

Analisamos se ‘Arquivo X’ ainda vale a pena em 2026. Descubra por que a série é um ícone da atmosfera e da química entre personagens, apesar de sofrer com roteiros irregulares e as limitações das produções televisivas dos anos 90.

Sejamos honestos: ‘Arquivo X’ vale a pena, mas não pelos motivos que a nostalgia coletiva tenta vender. A série é um pilar da cultura pop, um marco que mudou a forma como consumimos ficção científica na TV. No entanto, existe um abismo entre ser ‘importante’ e ser ‘consistentemente bom’. Ao revisitar a obra de Chris Carter hoje, percebemos que o pedestal onde ela descansa é sustentado muito mais por uma atmosfera hipnótica do que por roteiros infalíveis.

Cresci sob o feitiço da abertura de Mark Snow, esperando o sinal granulado da TV aberta para ver Mulder e Scully. Mas, ao reassistir as nove temporadas originais com o rigor técnico de quem acompanhou a ‘Era de Ouro’ da TV (Sopranos, Mad Men, Breaking Bad), a realidade é incômoda: ‘Arquivo X’ é uma série de picos geniais cercados por um oceano de mediocridade procedural.

A ‘Nota C’ que a nostalgia tenta esconder

A 'Nota C' que a nostalgia tenta esconder

Se avaliarmos a série sem o filtro do carinho de infância, a média geral é um ‘C’ generoso. ‘Arquivo X’ operava em um sistema de loteria. Tínhamos os episódios ‘Nota A’ — obras-primas como ‘Clyde Bruckman’s Final Repose’ ou ‘Beyond the Sea’ — que justificam toda a fama da série. Mas, para chegar neles, o espectador precisa navegar por dezenas de episódios ‘Nota C’ ou ‘D’, tramas esquecíveis que a memória afetiva convenientemente deletou.

O que mantinha o público engajado não era a perfeição do texto, mas a química visceral entre David Duchovny e Gillian Anderson. Eles transcendiam diálogos expositivos e resoluções apressadas. Somado a isso, a fotografia de Bill Roe e a direção de arte em Vancouver (nas primeiras cinco temporadas) criavam uma estética noir-sobrenatural que você sentia antes mesmo de entender a trama. Em ‘Arquivo X’, a ‘vibe’ frequentemente vencia o roteiro por nocaute.

A tirania dos 24 episódios por temporada

Para entender por que tantos episódios parecem ‘enchimento’, precisamos olhar para a matemática da produção dos anos 90. Diferente das séries atuais da Netflix ou HBO, com 8 a 10 episódios meticulosamente planejados, ‘Arquivo X’ entregava até 25 episódios por ano. Era uma linha de montagem industrial.

Roteiros eram finalizados em dias; revisões aconteciam no set enquanto a câmera rodava. Essa urgência criou o fenômeno dos episódios ‘Monster of the Week’ (Monstro da Semana) que, embora charmosos, muitas vezes sofriam com finais abruptos e lógica questionável. A série não era pensada para o binge-watching moderno, mas para o consumo semanal casual, onde um episódio ruim era esquecido na sexta-feira seguinte. Maratona-la hoje expõe essas costuras de forma impiedosa.

O colapso da ‘Mitologia’ e o triunfo do isolado

O colapso da 'Mitologia' e o triunfo do isolado

O maior erro de ‘Arquivo X’ foi sua própria ambição narrativa. A ‘Mitologia’ — a trama central sobre colonização alienígena e conspiração governamental — tornou-se um nó górdio que nem os próprios roteiristas sabiam desatar. O que começou como um thriller político tenso em ‘Deep Throat’ terminou em uma confusão de subtramas abandonadas e revelações contraditórias.

Curiosamente, a série brilha onde é contida. Os episódios escritos por Darin Morgan ou Vince Gilligan (que mais tarde criaria ‘Breaking Bad’) mostram o que a série poderia ter sido se tivesse o rigor de uma produção moderna. Gilligan, por exemplo, usava ‘Arquivo X’ para testar limites técnicos e narrativos, como no episódio ‘Drive’ (com Bryan Cranston), que é uma aula de tensão pura em tempo real.

Veredito: ‘Arquivo X’ ainda merece seu tempo?

Sim, mas com ressalvas. ‘Arquivo X’ vale a pena se você souber o que está procurando. Não espere uma narrativa serializada perfeita; espere uma antologia atmosférica. A série é o ápice do entretenimento ‘campy’ e investigativo, uma cápsula do tempo da paranoia pré-11 de setembro.

Se você é um novo espectador, a dica de ouro é: não tenha medo de pular os episódios ruins. Foque nos clássicos e na jornada da dupla de agentes mais icônica da TV. Mulder e Scully merecem o status de ícones não porque seus casos eram sempre brilhantes, mas porque eles nos fizeram acreditar que a verdade estava lá fora — mesmo quando o roteiro não tinha a menor ideia de onde ela estava.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Arquivo X’

Vale a pena assistir ‘Arquivo X’ completo hoje em dia?

Sim, mas com cautela. A série é longa e possui muitos episódios de ‘enchimento’. Para uma experiência melhor, muitos fãs recomendam seguir um guia de episódios essenciais (Mitologia + Melhores Monstros da Semana) em vez de assistir todos os 218 episódios.

Onde posso assistir ‘Arquivo X’ no streaming?

Atualmente, todas as 11 temporadas de ‘Arquivo X’ e os dois filmes estão disponíveis no Disney+ (antigo Star+) no Brasil.

Preciso assistir aos filmes para entender a série?

O primeiro filme, ‘Arquivo X: Resista ao Futuro’ (1998), é essencial, pois se passa entre a 5ª e a 6ª temporada e faz parte da mitologia central. O segundo filme, ‘Eu Quero Acreditar’ (2008), é uma história isolada e pode ser visto após a 9ª temporada.

Qual a diferença entre episódios de Mitologia e Monstros da Semana?

Os episódios de Mitologia focam na conspiração alienígena central. Já os ‘Monstros da Semana’ são casos isolados sobre lendas urbanas ou fenômenos paranormais. Ironicamente, os episódios isolados costumam ser os mais elogiados pela crítica hoje em dia.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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