Lançado no auge da pandemia, ‘Aqueles Que Me Desejam a Morte’ passou batido. Analisamos por que o neo-western de Taylor Sheridan com Angelina Jolie merece uma segunda chance — e como timing e marketing falharam um filme que é melhor que sua reputação.
Se você menciona o nome Taylor Sheridan hoje, a conversa vai quase automaticamente para Yellowstone e seu universo de spin-offs. O cara construiu um império. Mas existe um filme na filmografia dele que praticamente ninguém discute — e que, francamente, merecia bem mais atenção. ‘Aqueles Que Me Desejam a Morte’ chegou em 2021 no pior momento possível e desapareceu. Foi engolido pela pandemia, por uma estratégia de lançamento confusa e por um público que simplesmente não estava prestando atenção. A pergunta que fica: o que perdemos deixando esse filme para trás?
O filme que Sheridan fez entre séries de TV
Antes de mais nada, um dado curioso: Taylor Sheridan só dirigiu três filmes até hoje. Ele deserdou o primeiro (Vile, de 2011), dizendo que só ajudou um amigo e não merece crédito. Restam dois: Terra Selvagem, de 2016, que ganhou status de cult entre fãs do neo-western, e este aqui. É pouco material para julgar um diretor, mas suficiente para notar uma evolução interessante. Em Terra Selvagem, Sheridan mostrou que sabia construir tensão a partir de silêncios e paisagens. Em ‘Aqueles Que Me Desejam a Morte’, ele adiciona algo que seus filmes não tinham: velocidade.
O enredo é enxuto demais para os padrões atuais de Hollywood. Uma “smokejumper” — esses bombeiros de elite que saltam de paraquedas em áreas de incêndio florestal — encontra um menino fugindo de dois assassinos profissionais. A partir daí, é basicamente uma corrida contra o tempo, com uma floresta em chamas servindo de pano de fundo. Angelina Jolie faz a protagonista, e a escolha é mais inteligente do que parece à primeira vista. Ela traz uma fisicalidade que o filme precisa — há cenas em que a personagem está literalmente quebrada, respirando com dificuldade, e Jolie vende cada momento de exaustão.
Por que funciona como neo-western moderno
Aqui está onde a expertise de Sheridan brilha. O filme se passa em 2021, tem celulares, carros modernos, mas a estrutura narrativa é pura gramática do Western clássico. Você tem a paisagem hostil de Montana funcionando como personagem. Tem uma protagonista marcada por trauma passado (um incêndio que ela não conseguiu controlar, crianças que morreram). Tem forasteiros chegando para trazer violência a uma comunidade isolada. Tem até um xerife local — no caso, um delegado interpretado por Jon Bernthal, que está casado com uma professora grávida. É Terra Selvagem encontra Duro de Matar, e a mistura funciona melhor do que deveria.
O que me impressionou na revisão que fiz recentemente: Sheridan sabe filmar ação de um jeito que a maioria dos diretores de blockbuster esqueceu. A câmera fica quieta. Os cortes são esparsos. Você consegue acompanhar a coreografia das cenas de luta e perseguição sem sentir que está tendo um ataque epilético. A sequência em que Jolie enfrenta Nicholas Hoult enquanto o fogo se aproxima é um exemplo perfeito — há clareza espacial, tensão real construída através de montagem inteligente, e um uso do ambiente que vai além de “fundo bonito”. O fogo não é apenas ameaça; é elemento narrativo que comprime o tempo e força decisões desesperadas.
A fotografia de Ben Richardson merece menção. Ele já havia trabalhado com Sheridan em Terra Selvagem e aqui repete a parceria com resultados impressionantes. A paleta de cores quentes — laranjas, vermelhos, amarelos — não é apenas estética; é diegética. O fogo que consome a floresta também consome a tela, criando uma atmosfera de sufocamento visual que complementa a narrativa. Richardson entende que num filme onde o ambiente é antagonista, a fotografia precisa ser agressiva sem ser invasiva.
Como o elenco transforma vilões genéricos em algo perturbador
Sheridan tem um olho assustadoramente bom para elenco. Hoult e Aidan Gillen interpretam os assassinos, e o que poderia ser mais dois vilões genéricos de thriller vira algo mais perturbador. Eles não são ameaçadores porque são fisicamente imponentes ou porque fazem discursos sobre poder. São ameaçadores porque são completamente desprovidos de drama — matam como você ou eu faríamos um café, sem segunda intenção, sem prazer, sem culpa. Gillen, especificamente, carrega uma frieza que lembra os melhores vilões dos Coen Brothers. Há algo de No Country for Old Men na forma como esses dois operam, e não é coincidência que Sheridan cite os Coen como influência.
Mas os verdadeiros destaques ficam por conta de Jon Bernthal e Medina Senghore como o delegado e sua esposa. Eles roubam todas as cenas em que aparecem, e há um momento específico — a esposa grávida enfrentando um dos assassinos em casa — que é genuinamente tenso de um jeito que poucos filmes de ação conseguem. Senghore traz uma urgência real para a cena, e Sheridan tem a inteligência de deixar a câmera com ela, sem cortes excessivos, permitindo que a performance carregue o peso do momento.
O timing que matou qualquer chance de sucesso
Vamos ser honestos sobre por que ‘Aqueles Que Me Desejam a Morte’ desapareceu: o filme foi lançado em maio de 2021. Estamos falando do auge da pandemia, quando cinemas ainda operavam com capacidade reduzida em grande parte do mundo. Warner Bros. adotou a estratégia de lançamento simultâneo em theaters e HBO Max — a mesma que prejudicou vários filmes desse período. O resultado? US$ 23 milhões de bilheteria global contra um orçamento estimado de US$ 20 milhões. Tecnicamente não foi prejuízo, mas também não foi nada que gerasse conversa.
Some a isso um marketing praticamente inexistente. O filme chegou nas plataformas sem alarde, competindo por atenção com Mortal Kombat (lançado uma semana antes) e toda a conversa sobre o retorno gradual dos cinemas. E as críticas? Mistas. Não foram devastadoras, mas também não criaram a impressão de que o público estava perdendo algo essencial. Foi o tipo de recepção que faz um filme escorregar para o esquecimento em semanas.
Por que vale a segunda chance
Revi ‘Aqueles Que Me Desejam a Morte’ recentemente, sem as expectativas de lançamento e sem o ruído de 2021. E o que ficou é um thriller sólido, competente, que faz exatamente o que promete — e faz com um nível de artesanato que a maioria dos filmes de ação mainstream ignora. Sheridan sabe que você não precisa de explosões constantes para criar tensão. Sabe que um assassino silencioso é mais assustador que um exército de capangas. Sabe que Montana filmada com reverência vira personagem, não apenas localização.
Para fãs de Yellowstone e 1883, há aqui uma oportunidade de ver Sheridan operando em formato diferente. A linguagem é a mesma — homens e mulheres lutando contra ambientes hostis, códigos morais sendo testados, violência que tem consequências físicas reais — mas comprimida em 100 minutos de thriller puramente cinematográfico. Não é Terra Selvagem, que carrega um peso existencial maior. Mas também não tenta ser. É um filme de gênero bem feito, e isso já coloca ele acima de 80% do que Hollywood produziu nos últimos anos.
Se você curte neo-western, ação com inteligência, ou só quer ver Angelina Jolie fazendo algo que não seja blockbuster de franquia, ‘Aqueles Que Me Desejam a Morte’ merece aquela noite de sexta-feira. Não vai mudar sua vida. Mas vai te dar duas horas de cinema bem feito — e, francamente, isso é mais raro do que deveria ser.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Aqueles Que Me Desejam a Morte’
Onde assistir ‘Aqueles Que Me Desejam a Morte’?
O filme está disponível na HBO Max no Brasil. Foi lançado simultaneamente em cinemas e streaming em 2021, seguindo a estratégia de lançamento híbrido da Warner Bros. durante a pandemia.
Quanto tempo dura ‘Aqueles Que Me Desejam a Morte’?
O filme tem exatamente 100 minutos de duração. É um thriller enxuto, sem gordura narrativa — algo raro em produções de ação contemporâneas.
‘Aqueles Que Me Desejam a Morte’ é baseado em livro?
Sim. O filme é adaptação do romance homônimo de Michael Koryta, publicado em 2014. Koryta também co-escreveu o roteiro ao lado de Sheridan e Charles Leavitt.
Qual a classificação indicativa do filme?
No Brasil, o filme é indicado para 14 anos. Nos EUA, recebeu classificação R (17+) por violência, linguagem forte e algumas cenas de nudez.
Angelina Jolie faz suas próprias cenas de ação no filme?
Jolie realizou parte significativa das cenas de ação, incluindo sequências de corrida em terreno acidentado e cenas de luta. A fisicalidade da performance é um dos pontos altos do filme — ela passa grande parte da história visivelmente exausta e ferida.

