Matt Smith em ‘The Crown’ construiu o arquétipo que radicalizaria como Daemon Targaryen: o homem poderoso condenado à sombra. Entenda por que Philip Mountbatten é a chave para compreender o Rogue Prince de Westeros.
Quando Matt Smith surge em ‘A Casa do Dragão’ como Daemon Targaryen, algo parece familiar. Não é o visual — os cabelos prateados e os olhos violeta são puro Targaryen. É a energia: aquela mistura de carisma perigoso e ressentimento contido, de homem que nasceu para liderar mas foi condenado a servir. Quem assistiu a Matt Smith em ‘The Crown’ reconhece imediatamente: ele já construiu esse arquétipo antes, só que com uma diferença crucial — em ‘The Crown’, o personagem tinha que ser real.
Entre o Doutor benevolente de ‘Doctor Who’ e o príncipe impetuoso de Westeros, existe um Philip Mountbatten que funciona como ponte perfeita. E entender essa ponte é essencial para qualquer fã que queira compreender a profundidade do que Smith faz em ‘A Casa do Dragão’.
O príncipe que nunca seria rei — e como Smith encarna essa ferida
A primeira temporada de ‘The Crown’ começa com um Philip que ainda não é príncipe — é um homem de carreira naval promissora, confiante, acostumado a comandar. O casamento com Elizabeth não é apenas uma história de amor; é o começo de sua anulação pública. Smith entende isso em nível celular, e sua atuação carrega essa ferida em cada gesto.
Repare como ele usa o corpo: nos primeiros episódios, há uma arrogância física no modo como caminha, como se apodera dos ambientes. Conforme a série avança e Elizabeth assume o trono, essa postura vai sendo sutilmente corroída. Smith não precisa de diálogos explícitos para mostrar isso — ele deixa o corpo contar a história de um homem que perdeu sua identidade profissional para se tornar um “acessório real”.
Há uma cena específica na segunda temporada que cristaliza tudo: Philip está prestes a fazer uma tour internacional de meses, e a despedida com Elizabeth transmite uma tensão que vai além da ausência física. Smith deixa subentendido que aquele homem não está apenas partindo em viagem — está fugindo de um papel que o asfixia. E ao mesmo tempo, o olhar que ele lança para a esposa antes de sair revela algo que Daemon Targaryen raramente permite: vulnerabilidade genuína.
Por que Philip Mountbatten é o “ensaio” perfeito para Daemon Targaryen
A comparação não é óbvia à primeira vista. Philip é um homem moderno, racional, produto do século XX. Daemon é um guerreiro medieval que queima inimigos com fogo de dragão. Mas Smith encontrou o fio condutor entre eles: ambos são homens definidos pelo que não podem ter.
Philip nunca será rei. Sua esposa reina, e ele caminha três passos atrás dela para sempre. Daemon nunca será rei — não enquanto seu irmão Viserys viver, e depois, não enquanto a linha de sucessão favorecer outros. Ambos carregam uma legitimidade que o destino nega. E Smith explora essa ferida com precisão cirúrgica nos dois papéis.
A diferença está na resposta a essa ferida. Philip, em ‘The Crown’, eventualmente encontra uma forma de servir — com ressentimento, com petulância, mas com uma aceitação que Daemon jamais alcançaria. O príncipe de ‘The Crown’ tem uma elasticidade emocional que o Targaryen não possui. Quando Philip falha, ele se redobra. Quando Daemon falha, ele queima tudo ao redor.
Isso revela algo sobre a evolução de Smith como ator: em Philip, ele encontrou a complexidade moral que depois poderia radicalizar em Daemon. O “Rogue Prince” é, em muitos aspectos, o que aconteceria se Philip Mountbatten tivesse um dragão e nenhuma obrigação de manter aparências.
A química com Claire Foy que definiu o padrão da série
‘The Crown’ teria morrido na praia sem o duo Matt Smith e Claire Foy. Não é exagero — a série dependia de fazer um casamento real funcionar como drama humano, e isso requeria dois atores capazes de transmitir décadas de história com olhares. O orçamento de produção era astronômico, mas dinheiro não compra química.
Foy e Smith claramente fizeram seu dever de casa. Estudaram as figuras históricas, os maneirismos, as entrevistas de arquivo. Mas o que fez suas atuações funcionar foi uma escolha contraintuitiva: jogaram fora o “realismo” em favor da verdade emocional. Seu Philip e Elizabeth não são imitações de figuras históricas — são pessoas de carne e osso cujos problemas de casamento qualquer espectador pode reconhecer.
Aquela cena em que Philip precisa ajoelhar-se perante a esposa recentemente coroada — um ritual protocolar que Smith transforma em momento de devastação silenciosa. Ele não chora, não grita. Apenas deixa o peso daquele gesto físico carregar décadas de ressentimento. Foy, por sua vez, responde não com triunfo, mas com uma dor compartilhada: ela sabe o que está pedindo ao marido, e sabe o quanto isso custa a ele.
Esse tipo de nuance estabeleceu o blueprint para as temporadas seguintes. Olivia Colman, Imelda Staunton, Tobias Menzies, Jonathan Pryce — todos se beneficiaram do trabalho fundacional de Foy e Smith. Mas há um consenso crítico que os números corroboram: as duas primeiras temporadas permanecem o pico artístico da série.
As temporadas que definiram o tom — e por que o declínio posterior importa
Os números do Rotten Tomatoes contam uma história clara: temporada 1 com 88%, temporada 2 com 89%, temporada 3 com 90%, temporada 4 com 96%… e então o colapso. Temporada 5 cai para 71%, temporada 6 despenca para 55%. O que aconteceu?
A resposta está ligada ao que Foy e Smith estabeleceram. Nas duas primeiras temporadas, ‘The Crown’ priorizava drama de personagem sobre documentação histórica. Philip não era um recorte biográfico — era um homem em crise existencial. Elizabeth não era uma monarca distante — era uma jovem sobrecarregada por deveres que não pediu.
Conforme a série avançou, ela se tornou vítima de sua própria ambição. A necessidade de cobrir eventos históricos recentes — o divórcio de Charles e Diana, a morte da Princesa de Gales — transformou o que era drama psicológico em soap opera com figurinos caros. A “fantasma de Diana” na sexta temporada foi o ponto baixo: um recurso narrativo que traía o realismo que Foy e Smith haviam construído.
Isso não diminui o trabalho dos atores subsequentes — Elizabeth Debicki foi uma Diana extraordinária. Mas revela que o fundamento estabelecido nas temporadas 1 e 2 era insustentável quando a série perdeu o foco no humano em favor do espetáculo.
Por que assistir às duas primeiras temporadas é essencial para fãs de Daemon
Se você chegou a este artigo porque ama Daemon Targaryen e quer entender o ator por trás do personagem, aqui está a recomendação direta: assista às duas primeiras temporadas de ‘The Crown’, disponíveis na Netflix. Não pelo valor histórico — a série toma liberdades consideráveis com fatos. Assista para ver Matt Smith construindo, em tempo real, o arquétipo do “homem poderoso condenado à sombra” que ele depois radicalizaria em Westeros.
Ver Philip Mountbatten descobrir que sua carreira naval acabou, que seus filhos não carregarão seu sobrenome, que ele sempre caminhará atrás de sua esposa — e assistir Smith transformar tudo isso em algo trágico em vez de patético — é ver um ator no auge de sua capacidade de encontrar humanidade em figuras que poderiam ser caricaturas.
Daemon Targaryen é o que acontece quando você dá a esse mesmo arquétipo um dragão e licença para quebrar todas as regras. Mas Philip Mountbatten é onde Smith aprendeu que a melhor forma de interpretar homens assim não é fazer o público admirá-los — é fazer o público entender por que eles são como são.
Para fãs de ‘A Casa do Dragão’, isso é essencial. Para qualquer pessoa interessada em atuação como arte, é obrigatório.
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Perguntas Frequentes sobre Matt Smith em ‘The Crown’
Onde assistir ‘The Crown’ com Matt Smith?
‘The Crown’ está disponível exclusivamente na Netflix. Matt Smith aparece nas temporadas 1 e 2, que cobrem o reinado inicial da Rainha Elizabeth II.
Por que Matt Smith foi substituído em ‘The Crown’?
A substituição foi uma escolha criativa da produção. Como a série cobre décadas da monarquia, o elenco é trocado a cada duas temporadas para refletir o envelhecimento dos personagens. Tobias Menzies assumiu o papel de Philip na terceira temporada.
Matt Smith ganhou prêmios por seu papel em ‘The Crown’?
Matt Smith foi indicado ao Emmy de Melhor Ator Coadjuvante em Série de Drama por ‘The Crown’, mas não venceu. Claire Foy, sua co-estrela, ganhou o Emmy de Melhor Atriz em 2017 e 2018 pelo mesmo papel.
‘The Crown’ é fiel aos fatos históricos?
Não inteiramente. A série toma liberdades criativas significativas, especialmente nos diálogos e cenas privadas. O criador Peter Morgan prioriza verdade emocional sobre precisão documental — o que torna as duas primeiras temporadas mais eficazes como drama do que como registro histórico.
Qual a relação entre Philip Mountbatten e Daemon Targaryen?
Ambos são homens definidos pelo que não podem ter: Philip nunca será rei porque sua esposa reina; Daemon nunca será rei enquanto a linha de sucessão o excluir. Matt Smith usa essa ferida comum como fio condutor entre os dois personagens, radicalizando em Daemon o que construiu com nuances em Philip.

