Em ‘Anne com um E’, a Netflix prova que adaptações podem modernizar clássicos sem trair sua essência. Analisamos como a série expande temas de feminismo e classe já presentes no livro de 1908, e por que seu cancelamento prematuro ainda frustra.
Adaptações de clássicos literários vivem um dilema: atualizar demais perde a essência; manter intacto aliena novos públicos. A maioria escolhe um dos extremos e falha. ‘Anne com um E’ é a exceção rara que encontra o caminho do meio — e o percorre com maestria.
Assisti à série quando estreou, em 2017, e recentemente revisei as três temporadas com meus filhos. A experiência de ver Anne Shirley através dos olhos de uma criança de hoje confirmou algo que já desconfiava: esta não é uma adaptação ‘para a família assistir’ — é uma obra que trata seu público, independente da idade, com inteligência.
Baseada no romance de Lucy Maud Montgomery, publicado em 1908, a série da Netflix (coprodução com a CBC) poderia ter sido apenas mais um drama de época com figurinos bonitos e diálogos polidos. Em vez disso, a criadora Moira Walley-Beckett — roteirista de ‘Breaking Bad’ que assina episódios como ‘Ozymandias’ — fez algo mais ambicioso: escavou os temas que já estavam latentes no material original e os trouxe para a superfície com coragem narrativa.
Por que a série expande o trauma que o livro apenas sugeria
O primeiro episódio já deixa claro que não estamos diante de uma adaptação ‘segura’. A câmera acompanha Anne Shirley (Amybeth McNulty) chegando a Avonlea, e há algo deliberadamente desconfortável na forma como ela é recebida. Os moradores não são apenas surpresos — são hostis. A série não suaviza o preconceito contra órfãos, contra pobres, contra ‘diferentes’. E isso estabelece o tom: este é um mundo onde ser uma menina falante, imaginativa e sem família não é apenas inconveniente — é perigoso.
A decisão de expandir o trauma de Anne antes de Green Gables é talvez a mudança mais significativa em relação ao livro. No romance original, o passado da protagonista é mencionado, mas não explorado com profundidade. A série mergulha nele. Vemos flashbacks de abuso, de negligência, de instituições que deveriam ser lares e eram tudo menos isso. Isso não é ‘inventar drama’ — é dar peso emocional ao que o livro apenas sugeriu. Quando Anne finalmente encontra estabilidade com Matthew e Marilla Cuthbert, a sensação de alívio é genuína porque o custo foi mostrado.
Ao longo das três temporadas, a série constrói um argumento implícito: Anne sempre foi uma personagem feminista, mas o contexto de 1908 não permitia que isso fosse explicitado. A adaptação simplesmente remove as amarras narrativas que a época impôs à autora. O resultado é uma protagonista que questiona seu lugar no mundo com uma clareza que Montgomery talvez desejasse ter podido escrever.
A atuação de Amybeth McNulty: excêntrica sem virar caricatura
Encontrar uma atriz para interpretar Anne Shirley era o desafio central do projeto. A personagem é intensa, loquaz, dramática — características que facilmente viram caricatura nas mãos erradas. Amybeth McNulty, no entanto, encontra o equilíbrio preciso entre excêntrico e genuíno.
Há uma cena no início da primeira temporada em que Anne tenta se desculpar por um erro, mas as palavras saem em cascata, uma após outra, sem pausa para respiração. McNulty não apenas entrega o texto rápido — ela faz sentir a ansiedade por trás dele. Anne fala demais porque o silêncio foi, por muito tempo, imposto a ela. É um detalhe de atuação que transforma um traço de personalidade em consequência de trauma.
A química com os coadjuvantes é igualmente crucial. R.H. Thomson, como Matthew, comunica volumes com o mínimo — um aceno de cabeça, um olhar de lado, as mãos trêmulas segurando um buquê de flores. A relação entre o velho solteão e a menina órfã é o núcleo emocional da série, e funciona porque os atores entendem que menos é mais. Já Geraldine James, como Marilla, constrói uma transformação gradual e convincente: de mulher rígida que vê Anne como fardo para alguém que descobre maternidade tardia e inesperada.
Como a série atualiza temas sem trair o espírito de 1908
Aqui está onde ‘Anne com um E’ se destaca de quase todas as adaptações recentes: os temas contemporâneos não são impostos artificialmente — são extraídos do material original.
O romance de Montgomery já abordava desigualdade de classe. Anne é uma órfã pobre em uma comunidade onde status social determina valor. A série expande isso dando espaço para personagens de classes diferentes expressarem suas perspectivas. A amizade entre Anne e Diana Barry, por exemplo, é constantemente tensionada pelas expectativas da família de Diana — uma menina de ‘boa família’ não deveria se misturar com uma órfã sem sobrenome respeitável. O que poderia ser apenas drama de escola se torna comentário sobre mobilidade social e preconceito de classe.
O feminismo, igualmente, já estava presente no livro. Anne é uma menina que valoriza educação, que compete academicamente com meninos, que sonha com independência. A série radicaliza isso colocando-a em situações onde o sexismo é explícito. Em um arco memorável, Anne descobre que professoras ganham menos que professores — e sua indignação não é tratada como anacronismo, mas como reflexo de uma injustiça real da época.
Há também a introdução de personagens e arcos que o livro não tinha, mas que se encaixam organicamente. A presença de comunidades indígenas em Prince Edward Island, por exemplo, é reconhecida através da amizade de Anne com Ka’kwet, uma menina Mi’kmaq. O arco mostra a tensão entre colonizadores e povos originários sem simplificar — há preconceito dos brancos, mas também há abertura ao diálogo. Não é uma correção ‘politicamente correta’ aplicada com força bruta; é uma expansão do mundo que torna Avonlea mais real.
Fotografia e direção: o visual da memória afetiva
Um aspecto pouco comentado de ‘Anne com um E’ é sua escolha visual deliberada. A fotografia de Bobby Shore e James Genn usa tons quentes, saturação elevada e luz natural de forma quase expressionista. Avonlea não é fotografada como um lugar realista — é fotografada como Anne a vê: um mundo de possibilidades, cores vibrantes, beleza onde outros veriam apenas lavoura e rotina.
A direção de episódios por mulheres em grande parte da série (incluindo a própria Walley-Beckett e Amanda Tapping) traz uma sensibilidade distinta para cenas de intimidade emocional. Os close-ups em Anne não são voyeurísticos — são empáticos. A câmera se aproxima quando ela está vulnerável, mas não a expõe; a acompanha.
O cancelamento prematuro que deixou fãs órfãos
Três temporadas. Foi tudo o que tivemos. E embora a conclusão ofereça algum fechamento para os arcos principais, a sensação de potencial desperdiçado permanece.
A série foi cancelada em 2019, vítima de uma decisão conjunta entre Netflix e CBC que nunca foi totalmente explicada — especula-se que questões de direitos internacionais e custos de produção tenham pesado. Os fãs organizaram campanhas, hashtags viralizaram, mas o destino estava selado. O que torna o cancelamento particularmente frustrante é que Montgomery escreveu oito livros sobre Anne Shirley. Havia material para explorar a vida adulta da personagem, seu casamento, sua carreira como escritora. Vemos apenas o início dessa jornada.
Dito isso, as três temporadas existentes formam uma unidade coerente. Se não há final perfeito para todas as tramas, há pelo menos uma conclusão emocional satisfatória para a relação central entre Anne e Gilbert Blythe — o rival que se torna algo mais. A química entre McNulty e Lucas Jade Zumann é construída com paciência: cada olhar, cada debate, cada momento de competição acadêmica adiciona uma camada até que a atração se torne inevitável.
Veredito: para quem esta série é essencial
Se você cansou de adaptações que confundem ‘relevante’ com ‘didática’, ‘Anne com um E’ é o antídoto. A série nunca se posiciona acima do material que adapta — ela o expande, o ilumina, o torna acessível para um público que talvez nunca abrisse um livro de 1908.
Para fãs do romance original, há detalhes para apreciar e mudanças para debater. A série não é fiel ao pé da letra, mas é fiel ao espírito — e, no fim, isso importa mais. Para quem nunca leu Montgomery, a série funciona como porta de entrada perfeita: você vai querer conhecer a fonte após ver a adaptação.
Para famílias, é uma obra que pode ser assistida intergeracionalmente sem constrangimento. Para adultos que apreciam drama de época com substância, há camadas suficientes. É raro encontrar uma série que equilibre entretenimento e profundidade com tanta naturalidade. Mais raro ainda é encontrar uma adaptação que respeite o original enquanto o torna urgentemente contemporâneo. ‘Anne com um E’ faz ambas as coisas.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Anne com um E’
Quantas temporadas tem ‘Anne com um E’?
‘Anne com um E’ tem 3 temporadas, totalizando 27 episódios. A série foi cancelada em 2019, apesar da campanha intensa dos fãs por uma quarta temporada.
Onde assistir ‘Anne com um E’?
A série está disponível na Netflix em todo o mundo. No Canadá, país de origem, também foi exibida pela CBC, mas a plataforma de streaming principal permanece sendo a Netflix.
‘Anne com um E’ é baseado em livro?
Sim, a série é adaptação de ‘Anne de Green Gables’ (1908), primeiro livro da série de Lucy Maud Montgomery. A autora escreveu oito livros sobre Anne Shirley, mas a série cobre apenas o início da jornada da personagem.
Por que ‘Anne com um E’ foi cancelada?
O cancelamento foi uma decisão conjunta entre Netflix e CBC, anunciada em novembro de 2019. As razões oficiais nunca foram esclarecidas completamente, mas especula-se que questões de direitos internacionais e custos de produção tenham sido determinantes.
‘Anne com um E’ tem final fechado?
Parcialmente. A terceira temporada oferece fechamento para o arco central entre Anne e Gilbert, mas deixa várias tramas em aberto. A sensação é de potencial não realizado, já que havia material para explorar a vida adulta da personagem.

