‘Andor’: o thriller de espionagem que reinventa Star Wars

Analisamos como ‘Andor’ usa o universo Star Wars como pano de fundo para um thriller de espionagem político que dispensa conhecimento prévio da franquia. Por que os 96% no Rotten Tomatoes refletem qualidade real — e como a estrutura em arcos de três episódios cria uma experiência única.

Vou ser direto: se você desistiu de Star Wars depois da trilogia sequela, ou nunca se importou com a franquia, Andor pode ser a melhor surpresa dos últimos anos. Não pelo rótulo — apesar dele — mas porque esta série faz algo que poucos derivados de blockbusters ousam: existe como obra completa por direito próprio, não como extensão de marca.

A premissa parece desinteressante no papel. Um prequela de um filme que já é spin-off? Soa como exploração comercial. Mas o criador Tony Gilroy — o mesmo que reformulou a franquia Bourne com roteiros cirúrgicos — tinha outra ideia em mente: usar o universo Star Wars como pano de fundo para um thriller de espionagem político que nem George Lucas imaginou quando criou essa galáxia distante.

Como Andor transforma Star Wars em thriller político adulto

Como Andor transforma Star Wars em thriller político adulto

O salto de qualidade é imediato e visível. Desde os primeiros minutos, os showrunners decidiram ignorar quase tudo que aprendemos a associar ao “visual Star Wars”. Nada de transições em wipes horizontais. Nada de comicidade forçada. Nada de referências nostálgicas que servem apenas para fazer o fã acenar para a tela.

O que temos em vez disso? Uma série que se aproxima mais de ‘Slow Horses’ do que de ‘The Mandalorian’. A comparação não é exagero — ambos tratam de espionagem burocrática, de agentes operando nas sombras, de custos morais que heróis de blockbuster nunca precisam enfrentar. A diferença é que Andor tem orçamento de blockbuster e ambição de drama político adulto.

A fotografia de Adriano Goldman e Damián García merece menção específica. Onde os filmes Star Wars tradicionais optam por iluminação clara e cenários limpos, Andor abraça o sombrio — literalmente. Há sequências inteiras em penumbra, onde o que não vemos é tão importante quanto o que aparece. É uma escolha visual que serve a narrativa: estamos no lado sombrio da Rebelião, onde moralidade não é preto e branco.

Os 96% de aprovação crítica no Rotten Tomatoes não são acidente. E os 89% do público sugerem algo mais interessante: mesmo fãs que esperavam outra coisa reconheceram qualidade quando viram.

Por que funciona até para quem nunca viu um filme Star Wars

Aqui está o maior trunfo de Andor: você não precisa saber quem é Darth Vader, o que é a Força, ou por que aqueles robôs estão sempre brigando. A série se passa cinco anos antes de ‘Rogue One’ e foca em algo que a franquia sempre tratou como pano de fundo: como uma rebelião realmente se forma.

Não é heróis com espadas laser salvando o dia. É burocracia. É radicalização política. É gente comum percebendo que o império sob o qual vive não é benigno — e decidindo fazer algo sobre isso, mesmo sem superpoderes. O autoritarismo aparece na forma de prisões arbitrárias, propaganda estatal, e uma burocracia opressiva que esmaga dissidência.

A sequência da prisão industrial em Narkina 5 exemplifica isso perfeitamente. Durante três episódios, acompanhamos Cassian preso em uma fábrica subaquática onde detentos trabalham até a exaustão. Não há vilão com capa preta ameaçando o protagonista — há um sistema que o esmaga lentamente. A tensão não vem de perigo físico imediato, mas da claustrofobia de uma instituição que não oferece escape. É prisão como metáfora política, e funciona porque é específica demais para ser genérica.

A estrutura em arcos que transforma episódios em “filmes”

A estrutura em arcos que transforma episódios em

Um detalhe de construção que mostra quanto cuidado foi posto aqui: cada temporada de 12 episódios é dividida em blocos de três. Cada bloco funciona como unidade narrativa completa — quase como um filme de duas horas que desemboca no próximo.

Isso torna Andor perfeito para maratonas. Você não precisa devorar 12 episódios de uma vez para sentir progressão. Três episódios te dão um arco completo, com início, desenvolvimento e conclusão que satisfazem — mas deixam ganhos para continuar.

Com duas temporadas completas no Disney+, são 24 episódios que somam cerca de 24 horas de conteúdo. A densidade narrativa faz cada hora valer mais do que temporadas inteiras de séries que esticam tramas para preencher episódios.

Diego Luna expande o espião que vimos em ‘Rogue One’

Diego Luna retoma o personagem que interpretou em ‘Rogue One’, mas agora tem espaço para explorar como Cassian Andor se tornou o espião assassino que conhecemos. A jornada é de alguém que começa querendo apenas sobreviver — e termina sendo peça central de uma revolução. O arco não é original, mas a execução tem nuances que o diferenciam.

O elenco de apoio impressiona menos pelos nomes e mais pelo que fazem com eles. Stellan Skarsgård traz gravitas que eleva cada cena — seu personagem Luthen Rael tem um monólogo sobre sacrifício moral que está entre os melhores momentos da série. Ben Mendelsohn, que já interpretou o vilão Krennic em ‘Rogue One’, retorna com a mesma autoridade ameaçadora. Adria Arjona demonstra alcance que sua filmografia anterior só sugeria.

Em uma era onde atuações competentes frequentemente salvam material fraco, aqui temos o cenário ideal: elenco talentoso servindo texto que já é forte por si só.

O veredito: para quem Andor é essencial

Se você curte thrillers de espionagem como ‘Slow Horses’ ou os filmes Bourne, Andor é obrigatório. Se você gosta de dramas políticos com peso real — pense ‘House of Cards’ em sua primeira temporada — vai encontrar aqui algo similar em cenário sci-fi.

Para fãs de Star Wars, a experiência é diferente. Você reconhece referências, entende o destino do protagonista (já que ‘Rogue One’ veio antes), e aprecia como a série expande temas que a franquia sempre prometeu explorar mas raramente aprofundou. A Rebelião não nasceu pronta. Foi construída com sacrifícios morais complicados que heróis limpos nunca precisaram enfrentar.

Para não-fãs, a recomendação é simples: esqueça o rótulo. Trate como thriller político com orçamento de blockbuster e ambição de prestígio. Os 96% no Rotten Tomatoes não mentem — e os 89% do público confirmam que não é apenas crítica se impressionando com algo “sério” em franquia comercial.

Andor merece existir porque faz algo que a maioria do conteúdo derivado de propriedades intelectuais não faz: justifica sua existência artisticamente, não apenas comercialmente.

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Perguntas Frequentes sobre Andor

Onde assistir a série Andor?

‘Andor’ está disponível exclusivamente no Disney+. As duas temporadas completas (24 episódios no total) podem ser assistidas na plataforma desde 2025.

Precisa ver Rogue One antes de Andor?

Não é obrigatório. ‘Andor’ funciona como thriller de espionagem independente. Ver ‘Rogue One’ antes adiciona contexto sobre o destino do protagonista, mas não é necessário para entender ou aproveitar a série.

Quantas temporadas tem Andor?

‘Andor’ tem duas temporadas completas, com 12 episódios cada, totalizando 24 episódios. A segunda temporada encerra a história que leva diretamente aos eventos de ‘Rogue One’.

Qual a classificação indicativa de Andor?

‘Andor’ tem classificação indicativa de 14 anos no Brasil e TV-14 nos EUA. A série contém violência moderada, temas políticos densos e algumas cenas de tortura sugestionadas, sendo mais madura que a maioria das produções Star Wars.

Andor tem conexão com outros filmes Star Wars?

‘Andor’ é prequela direta de ‘Rogue One: Uma História Star Wars’ (2016), mostrando a origem do protagonista Cassian Andor cinco anos antes dos eventos do filme. A série expande a formação da Aliança Rebelde mencionada nos filmes originais.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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