‘Andor’ é a obra-prima que o MCU tenta (e falha) em alcançar

Analisamos por que ‘Andor’ superou a fórmula do MCU ao apostar em um roteiro de autor, tensão real e autonomia narrativa. Entenda como a série de Tony Gilroy provou que é possível fazer arte profunda dentro de uma franquia bilionária sem depender de fan service.

Existe um momento em ‘Andor’ — precisamente no episódio 6, ‘The Eye’ — que expõe a fragilidade criativa que assombra o MCU há anos. É uma sequência de assalto, mas sem o conforto dos quips (piadinhas fora de hora), sem uma trilha épica manipulando suas emoções e, crucialmente, sem a segurança de que todos sairão vivos. Só existe a tensão física do silêncio, construída tijolo por tijolo. Quando a ação explode, o peso é real porque a dinâmica Andor vs Marvel não é apenas uma disputa de marcas, mas um confronto entre o cinema de autor e a linha de montagem industrial.

O roteiro como arquitetura, não como manual

O roteiro como arquitetura, não como manual

A superioridade de ‘Andor’ reside em sua estrutura. Enquanto as séries da Marvel parecem filmes de duas horas esticados artificialmente para preencher seis episódios, Tony Gilroy (o arquiteto por trás da franquia ‘Bourne’) utiliza arcos de três episódios. Cada bloco funciona como um micro-filme com identidade própria.

No arco de Aldhani, Gilroy gasta duas horas apenas na preparação. Nós sentimos o cheiro da chuva, o desconforto dos rebeldes e a burocracia asfixiante do Império. Investimos tempo naquelas pessoas, não em seus codinomes. Compare isso com ‘Gavião Arqueiro’ ou ‘Invasão Secreta’, onde o roteiro corre para apresentar personagens, estabelecer conexões com o próximo filme e resolver conflitos em 30 minutos. O resultado é uma narrativa que não respira; ela apenas cumpre tabela.

A coragem de ignorar o ‘Universo Conectado’

O maior trunfo de ‘Andor’ é o que ela escolhe não mostrar. Não há participações especiais de Jedis para salvar o dia, não há menções forçadas ao Imperador e, milagrosamente, não há cenas pós-créditos. A série confia que a história de Cassian, Mon Mothma e a ascensão do fascismo é interessante o suficiente por si só.

Essa autonomia é o que falta ao MCU. ‘Invasão Secreta’ tinha o potencial para ser um thriller de espionagem paranoico, mas foi soterrada pela necessidade de explicar onde estavam os Vingadores e preparar terreno para ‘As Marvels’. ‘Andor’ prova que, para uma obra ter peso, ela precisa ser o destino, não apenas uma parada no caminho para o próximo evento bilionário.

Tony Gilroy e a estética do realismo sujo

Tony Gilroy e a estética do realismo sujo

A Marvel construiu um sistema que, por design, neutraliza a visão do diretor em favor de uma estética de estúdio coesa (e muitas vezes lavada). Gilroy trouxe para Star Wars algo que o MCU raramente permite: uma assinatura visual e temática. Em vez do uso excessivo do ‘Volume’ (a tela de LED da Disney), ‘Andor’ priorizou locações reais e cenários práticos massivos no Pinewood Studios.

Isso se traduz em tela. A fotografia de Adriano Goldman usa luz natural e sombras profundas para criar uma atmosfera que lembra o cinema político dos anos 70, como ‘Todos os Homens do Presidente’. A trilha de Nicholas Britell abandona o estilo John Williams para abraçar sintetizadores frios e percussão industrial. É uma série que dialoga com ‘Brasil: O Filme’ de Terry Gilliam e a brutalidade de ‘Os Infiltrados’, distanciando-se da fórmula de cores saturadas e batalhas de CGI genéricas que encerram quase todas as produções da Marvel.

O paradoxo da Marvel: o sucesso impede o risco

É injusto dizer que a Marvel não se importa com qualidade, mas é preciso entender que o MCU é uma máquina de bilhões. Cada decisão criativa é uma variável em uma equação financeira que envolve parques temáticos e brinquedos. ‘Andor’ pôde ser ousada porque a Lucasfilm estava em um momento de crise criativa e precisava recuperar o prestígio crítico.

Para o MCU alcançar esse patamar, Kevin Feige precisaria abrir mão do controle total. Precisaria permitir que uma série terminasse sem conexões, que um herói falhasse de forma definitiva ou que o terceiro ato não fosse uma explosão de efeitos visuais. ‘WandaVision’ tentou isso e recuou no último episódio; ‘Loki’ chegou perto, mas ainda preso às amarras do Multiverso.

Veredito: Por que ‘Andor’ é o padrão de ouro

Se você busca entretenimento escapista e o conforto do familiar, a Marvel continua entregando o esperado. Mas se você busca televisão que desafia, que analisa a ‘banalidade do mal’ dentro de uma estrutura imperial e que respeita a inteligência do espectador, ‘Andor’ é imbatível. Ela não é apenas a melhor série de Star Wars; é o lembrete de que franquias podem, sim, ser arte séria quando o roteiro precede o marketing.

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Perguntas Frequentes sobre Andor vs Marvel

Preciso ter assistido a todos os filmes de Star Wars para entender ‘Andor’?

Não. Embora se passe no universo Star Wars, ‘Andor’ é construída como um drama de espionagem independente. Conhecer ‘Rogue One’ ajuda a entender o destino do protagonista, mas a série funciona perfeitamente para novos espectadores.

Por que ‘Andor’ é comparada com as séries da Marvel?

A comparação surge porque ambas pertencem à Disney e utilizam o modelo de séries para expandir universos cinematográficos. Críticos apontam que ‘Andor’ foca em roteiro e desenvolvimento de personagem, enquanto o MCU prioriza conexões entre filmes.

Onde assistir ‘Andor’?

A série está disponível exclusivamente no Disney+, contando atualmente com uma temporada completa e a segunda temporada prevista para encerrar a história.

‘Andor’ é baseada em fatos reais?

Embora seja ficção científica, o criador Tony Gilroy se inspirou em movimentos de resistência históricos e na política real para criar a atmosfera de opressão e revolta da série.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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