‘Anaconda’ supera US$ 100 milhões: como o meta-humor resgatou a franquia

Analisamos como ‘Anaconda 2025’ quebrou um jejum de 28 anos ao trocar o terror pelo meta-humor. Entenda por que a química entre Jack Black, Paul Rudd e Selton Mello transformou um reboot improvável em um fenômeno de US$ 100 milhões.

Existe um tipo de ressurreição cinematográfica que desafia a lógica industrial. Não falo de sequências tardias que tentam mimetizar a glória do passado, mas de franquias dadas como mortas que, ao abraçarem o próprio ridículo, encontram uma nova vida. ‘Anaconda 2025’ é o exemplo definitivo desse fenômeno: um milagre de bilheteria que ultrapassou os US$ 101,6 milhões mundiais ao entender que, em 2025, o público prefere rir com o filme do que rir do filme.

O sucesso é histórico. Pela primeira vez em 28 anos, a marca atinge os três dígitos na bilheteria, algo que não acontecia desde o original de 1997 protagonizado por Jennifer Lopez. O que separa o novo longa das quatro sequências esquecíveis lançadas direto para o Syfy é uma mudança radical de DNA: a transição do terror B para a comédia meta-referencial.

O tédio dos monstros sérios vs. o caos planejado

O tédio dos monstros sérios vs. o caos planejado

O grande trunfo do diretor (e do roteiro de Tom Gormican) foi abandonar a pretensão. Enquanto ‘Anaconda 2: A Caçada pela Orquídea Sangrenta’ (2004) tentava ser um thriller de aventura genérico e fracassava, a versão de 2025 assume uma estrutura de ‘filme dentro do filme’. A trama acompanha um grupo de amigos em crise de meia-idade — liderados por Jack Black e Paul Rudd — que decide filmar seu próprio remake de ‘Anaconda’ na Amazônia, apenas para serem caçados por uma cobra real (e absurdamente grande).

Essa camada meta permite que o filme comente sobre os clichês da própria franquia. Em uma cena específica, o personagem de Steve Zahn discute a anatomia impossível da cobra do filme de 97 enquanto tenta escapar de uma versão digital ainda mais exagerada. É o tipo de humor autoconsciente que funcionou em ‘Jumanji: Bem-Vindo à Selva’ e que aqui salva a produção do ostracismo.

Selton Mello e o tempero internacional

A escalação de Selton Mello não foi apenas um aceno ao mercado brasileiro, mas uma escolha técnica precisa. Mello interpreta o guia local que, na verdade, é um aspirante a cineasta experimental. Sua dinâmica com Jack Black — que interpreta uma versão hiperbólica de si mesmo — traz uma textura de improviso que falta nos blockbusters engessados da Marvel ou DC.

A presença de Mello, somada a Thandiwe Newton e Daniela Melchior, dá ao filme um ar de produção global, mas com o coração de uma comédia de baixo orçamento (embora tenha custado US$ 45 milhões). É o ‘counter-programming’ perfeito para o final de ano, servindo de alternativa leve ao peso visual de ‘Avatar: Fire and Ash’.

Por que a crítica divergiu do público?

Por que a crítica divergiu do público?

Com 51% de aprovação no Rotten Tomatoes contra 76% da audiência, ‘Anaconda 2025’ expõe a velha ferida da crítica especializada: a dificuldade em avaliar o ‘besteirou planejado’. O filme não tem o rigor técnico de um suspense de sobrevivência, e sua fotografia, embora competente, não busca o realismo. A cobra, propositalmente, parece saída de um videogame de última geração — uma escolha estética que reforça o tom de farsa.

O ScreenRant definiu o longa como “tão sem osso quanto uma cobra”, o que é tecnicamente um elogio se considerarmos que a proposta é a fluidez da comédia física. Não há profundidade emocional, mas há uma química orgânica entre Rudd e Black que sustenta o ritmo mesmo quando a narrativa ameaça se perder no absurdo.

O futuro: A era das franquias ‘Self-Aware’

O sucesso de ‘Anaconda 2025’ dita uma tendência para 2026: a reanimação de IPs (Propriedades Intelectuais) através do humor. Se o público cansou de universos compartilhados e mitologias densas, a simplicidade de uma cobra gigante perseguindo atores carismáticos é um alívio financeiro para os estúdios. Com o lucro garantido, uma sequência já é discutida nos bastidores da Sony/Columbia Pictures.

No fim das contas, ‘Anaconda’ provou que nem toda criatura precisa de um origin story sombrio. Às vezes, tudo o que uma franquia precisa para sobreviver é de um elenco que não tenha medo de parecer ridículo e de uma cobra que saiba a hora certa de interromper um monólogo pretensioso.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre Anaconda 2025

‘Anaconda 2025’ é uma continuação ou um reboot?

O filme funciona como um reboot meta-referencial. Ele reconhece a existência do filme original de 1997 como uma obra de ficção dentro daquele universo, seguindo um grupo que tenta filmar um remake.

Qual é o papel de Selton Mello no filme?

Selton Mello interpreta um guia brasileiro e cineasta experimental que ajuda o grupo de americanos na Amazônia. É um dos papéis centrais da trama, com foco em alívio cômico e timing narrativo.

Onde assistir ‘Anaconda 2025’?

O filme foi lançado exclusivamente nos cinemas em dezembro de 2024 (temporada de 2025). Atualmente, ele está iniciando sua transição para plataformas de aluguel digital e deve chegar ao streaming da Sony/Netflix em breve.

O filme tem cenas pós-créditos?

Sim, há uma cena curta no meio dos créditos que brinca com o destino de um dos personagens secundários e sugere uma possível sequência em outro local exótico.

Qual a classificação indicativa de ‘Anaconda 2025’?

No Brasil, o filme recebeu classificação de 14 anos, devido à violência cômica (gore estilizado) e linguagem adulta.

Mais lidas

Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

Veja também