Analisamos o marco histórico de Amy Madigan, que quebrou um recorde de 55 anos no Oscar ao garantir sua segunda indicação após um hiato de quatro décadas. Entenda como sua atuação em ‘A Hora do Mal’ desafia o idadismo em Hollywood e eleva o cinema de horror.
Quarenta anos. Quatro décadas. O tempo que separa a queda do Muro de Berlim do lançamento do primeiro iPhone. O intervalo entre a estreia de ‘E.T.: O Extraterrestre’ e a consolidação do streaming como força dominante na indústria. É também o abismo temporal que Amy Madigan atravessou entre suas duas indicações ao Oscar.
Quando a Academia anunciou os indicados para o Oscar 2026, a crítica celebrou a presença de ‘A Hora do Mal’ — um sinal de que o horror psicológico finalmente rompeu a barreira do preconceito dos votantes. Mas um detalhe histórico escapou ao público geral: a atriz de 74 anos acaba de pulverizar um recorde que parecia intocável há mais de meio século.
O recorde de Helen Hayes que resistiu por 55 anos
Até esta semana, a lendária Helen Hayes detinha a marca de maior intervalo entre indicações para uma atriz. Sua primeira nomeação ocorreu em 1931, por ‘O Pecado de Madelon Claudet’. A segunda veio apenas 39 anos depois, em 1970, por ‘Aeroporto’. Desde então, nomes como Angela Bassett e Jodie Foster ensaiaram quebrar esse hiato, mas pararam na marca de três décadas.
A trajetória de Amy Madigan no Oscar 2026 não é apenas uma estatística de almanaque; é a reescrita de um capítulo sobre longevidade. Com 40 anos de distância entre ‘Duas Vezes na Vida’ (1985) e ‘A Hora do Mal’ (2025), ela superou Hayes por um ano. No papel, parece um detalhe. Na prática, é uma eternidade em uma indústria que historicamente descarta atrizes assim que ultrapassam os 40 anos.
O peso político de uma indicação aos 74 anos
Hollywood tem um problema crônico com o envelhecimento feminino. Enquanto atores como Liam Neeson e Harrison Ford reinventam suas carreiras como heróis de ação ou mentores ranzinzas aos 70 e 80 anos, papéis femininos complexos costumam escassear drasticamente após a meia-idade. Nesse cenário, Madigan conseguir uma indicação aos 34 e outra aos 74 não é apenas persistência — é um ato de resistência profissional.
Em entrevista recente, Madigan manteve o pragmatismo que define sua carreira: “Significa que você pode ter uma carreira longa. E eu tive uma carreira longa e continuo tendo”. Sem sentimentalismo excessivo, ela reforça que sobreviver a quatro décadas de mudanças tecnológicas e culturais no cinema exige uma resiliência que o Oscar, agora, decide premiar.
Tia Gladys: O horror como veículo de prestígio
O papel que trouxe Madigan de volta ao palco da Academia é o de Tia Gladys em ‘A Hora do Mal’. Diferente de muitos papéis de suporte em filmes de gênero, Madigan não se apoia em sustos fáceis (jump scares). Ela constrói uma presença física que incomoda pela imobilidade e pelo olhar translúcido, comunicando uma ameaça latente que precede qualquer elemento sobrenatural.
A indicação também sinaliza uma maturidade dos votantes. Por anos, performances viscerais em filmes de terror foram negligenciadas — vide os esquecimentos imperdoáveis de Toni Collette em ‘Hereditário’ e Lupita Nyong’o em ‘Nós’. Ao reconhecer Madigan, o Oscar valida o horror como um espaço legítimo para o alto calibre interpretativo.
A comparação com o recorde masculino (Hirsch e Fonda)
Embora Madigan agora lidere entre as mulheres, o recorde absoluto de hiato na atuação ainda pertence a Judd Hirsch, com 42 anos entre ‘Gente Como a Gente’ (1980) e ‘Os Fabelmans’ (2022). Henry Fonda aparece logo atrás, com 41 anos entre ‘As Vinhas da Ira’ (1940) e ‘Num Lago Dourado’ (1981).
Madigan ocupa o terceiro lugar geral. Contudo, considerando que Hirsch e Fonda operaram em um sistema que sempre favoreceu a longevidade masculina, o feito de Amy carrega um simbolismo adicional sobre a quebra de tetos de vidro etários para mulheres no cinema.
O que esperar da noite da premiação
A corrida para Melhor Atriz Coadjuvante está acirrada, mas Madigan chega com o fôlego de quem venceu o Critics’ Choice Awards. Se levar a estatueta, ela se tornará a segunda atriz mais velha a vencer na categoria, atrás apenas de Jessica Tandy. Mais do que colecionar recordes, Madigan ilustra uma verdade incômoda: o talento das veteranas não desaparece com o tempo; apenas as oportunidades desaparecem. Que ela tenha precisado esperar 40 anos para um papel dessa magnitude diz muito sobre o que o cinema precisa mudar.
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Perguntas Frequentes sobre Amy Madigan e seu Recorde no Oscar
Qual é o recorde que Amy Madigan quebrou no Oscar?
Amy Madigan estabeleceu o maior intervalo de tempo entre duas indicações ao Oscar para uma atriz: 40 anos. Ela superou o recorde anterior de Helen Hayes, que era de 39 anos.
Por qual filme Amy Madigan foi indicada ao Oscar em 2026?
Ela foi indicada na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante por seu papel como Tia Gladys no filme de horror ‘A Hora do Mal’ (The Deliverance).
Qual foi a primeira indicação de Amy Madigan ao Oscar?
Sua primeira indicação ocorreu em 1985, também como Melhor Atriz Coadjuvante, pelo filme ‘Duas Vezes na Vida’ (Twice in a Lifetime).
Quem detém o maior hiato entre indicações entre todos os atores?
O recorde geral pertence a Judd Hirsch, que teve um intervalo de 42 anos entre suas indicações por ‘Gente Como a Gente’ (1980) e ‘Os Fabelmans’ (2022).
Onde assistir ao filme ‘A Hora do Mal’?
O filme ‘A Hora do Mal’ (The Deliverance), dirigido por Lee Daniels, está disponível no catálogo global da Netflix.

