‘Alien: Earth’ reinventa a franquia na Terra, mas divide com final inconcluso

A Alien Earth série traz xenomorphos para a Terra e mistura horror com reflexões sobre IA em um dos projetos mais ambiciosos de Noah Hawley. Analisamos por que a ousadia criativa é prejudicada pelo modelo de streaming que se recusa a encerrar histórias.

Quando anunciaram que ‘Alien’ viraria série de TV, minha primeira reação foi ceticismo puro. A franquia funciona como “casa mal-assombrada no espaço” — estender isso para oito horas parecia receita para diluição. Mas Noah Hawley, o mesmo cara que transformou ‘Fargo’ em uma das melhores séries da TV sem desrespeitar o material original, provou que eu estava errado. Pelo menos, parcialmente. A Alien Earth série é uma das apostas mais interessantes da ficção científica recente, mas carrega um problema que está se tornando epidemia no streaming: recusa em terminar o que começa.

Como Noah Hawley trouxe o horror para casa — literalmente

Como Noah Hawley trouxe o horror para casa — literalmente

A decisão de trazer os xenomorphos para a Terra não é apenas mudança de cenário. É uma reconfiguração completa do que ‘Alien’ significa. Nos filmes, o horror vinha do isolamento — você está sozinho no espaço, ninguém pode ouvir seu grito, e a corporação que deveria te proteger está mais interessada em armas biológicas do que em sua sobrevivência. Hawley inverteu a lógica: agora o horror está na familiaridade. O monstro não está em uma nave distante; está no seu quintal.

A Terra que a série constrói é distópica de forma específica: corporações dividiram todo o território terrestre entre si, e um trilionário ambicioso está transformando crianças terminalmente doentes em um exército de androides. Isso soa mais ‘Blade Runner’ do que ‘Alien’, e essa é a genialidade do projeto. Hawley entendeu que para justificar uma série, precisava de um mundo — não apenas de um monstro. O design de produção reflete essa hibridização: laboratórios corporativos com estética cirúrgica que lembram a Tyrell Corporation convivem com florestas terrestres onde a natureza se revela tão hostil quanto o espaço.

A série que ousa ser sobre mais do que dentes afiados

Os sete primeiros episódios de ‘Alien: Earth’ fazem algo que poucas produções de gênero tentam: usam o horror como veículo para reflexões sociais reais. A ascensão da inteligência artificial, a luta contra doenças terminais, e — surpreendentemente — uma narrativa sobre recusa em crescer que ecoa “Peter Pan” se entrelaçam sem sentir forçado. Wendy, a protagonista, carrega um nome que não é acidente: sua jornada é sobre escolher a dura realidade da maturidade em vez da eterna infância que a corporação oferece.

A sequência de abertura já estabelece que Hawley sabe exatamente o que está fazendo. Em uma nave à deriva, encontramos sobreviventes de um ataque de xenomorfo — corpos mutilados, fluidos corporais flutuando em gravidade zero, e uma criatura que se revela não como monstro, mas como predador no topo de uma cadeia alimentar que inclui humanos. A direção de arte usa sangue e vapor de forma quase orgânica, criando texturas que lembram H.R. Giger sem copiar. Isso é apenas o gancho. O que segue é uma exploração de humanidade em cenário tecnológico — perguntas sobre o que nos torna humanos quando podemos ser substituídos por máquinas, sobre o valor da vida quando corporações tratam pessoas como recursos. Se ‘Alien: O Oitavo Passageiro’ era sobre medo do desconhecido, ‘Alien: Earth’ é sobre medo do que estamos nos tornando.

O final que não é final — e por que isso é problema

O final que não é final — e por que isso é problema

E então chegamos ao oitavo episódio, e aqui é onde a série perde parte do público. Não porque o conteúdo seja ruim — mas porque simplesmente não há encerramento. O episódio termina como mais um capítulo, não como uma conclusão de temporada. Você espera que haverá outro episódio na semana seguinte, mas não há. Acabou. Assim.

Isso não é exclusividade de ‘Alien: Earth’. ‘Pacificador’ temporada 2, ‘A Casa do Dragão’ temporada 2, ‘The Walking Dead: Daryl Dixon’ temporada 3 — todos sofrem do mesmo mal. Streamers descobriram que podem manter audiências presas por anos simplesmente se recusando a oferecer closure. É uma estratégia de negócio que funciona para métricas, mas que assassina a experiência narrativa.

Para uma série que construiu tanto com tanta inteligência, terminar com um “continue esperando” é frustrante. Não é cliffhanger bem executado — aquele que te deixa ansioso mas satisfeito. É simplesmente… uma interrupção.

O que a segunda temporada promete (e precisa entregar)

O lado positivo é que ‘Alien: Earth’ já provou seu valor. A segunda temporada não precisará gastar tempo estabelecendo mundo e personagens — pode ir direto ao que importa. Hawley demonstrou que pode ser ambicioso, e com a série já consolidada como sucesso, terá mais liberdade para arriscar.

A questão é se essa liberdade será usada para contar uma história completa, ou para estender ainda mais uma narrativa que já deveria ter chegado ao ponto. O streaming criou um modelo onde séries podem durar indefinidamente — mas nem toda história deveria.

Veredito: ousadia que merece sua atenção, com ressalvas

‘Alien: Earth’ é ficção científica televisiva em seu melhor momento criativo, atrapalhada por uma prática de indústria em seu pior momento artístico. Hawley criou algo que honra a franquia enquanto expande suas possibilidades — raro em adaptações. A mistura de horror com reflexões sobre IA e humanidade funciona porque nunca perde de vista que, no centro, precisamos nos importar com as pessoas na tela.

Para quem gosta de ficção científica que respeita sua inteligência, a série é obrigatória. Mas vá sabendo: você vai terminar a temporada frustrado, não porque a história não funcionou, mas porque se recusou a terminar. Em 2026, isso parece ser o preço de entrada para séries de qualidade — um preço que nem todo público está disposto a pagar.

Se você aguenta a ideia de investir horas em algo que não resolve seus mistérios, ‘Alien: Earth’ oferece uma das visões mais frescas do gênero em anos. Se prefere histórias completas, talvez espere a segunda temporada chegar — e torça para que Hawley tenha aprendido que promessas futuras não substituem satisfação presente.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Alien: Earth’

Onde assistir ‘Alien: Earth’?

‘Alien: Earth’ está disponível exclusivamente no FX on Hulu nos Estados Unidos e no Disney+ Star internacionalmente. A primeira temporada completa foi lançada em 2026.

Quantos episódios tem a primeira temporada de ‘Alien: Earth’?

A primeira temporada de ‘Alien: Earth’ tem 8 episódios, cada um com aproximadamente 50-60 minutos de duração.

Precisa ver os filmes de Alien para entender a série?

Não. ‘Alien: Earth’ funciona como prequel da franquia e se passa antes dos filmes. Hawley construiu a série para ser acessível a novos viewers, embora fãs da franquia reconheçam referências e easter eggs.

Em que ano se passa ‘Alien: Earth’ na cronologia da franquia?

‘Alien: Earth’ se passa aproximadamente 30 anos antes do primeiro filme ‘Alien’ (1979), que ocorre em 2122. A série está situada no final do século 21, quando a humanidade ainda está estabelecendo colônias espaciais.

‘Alien: Earth’ tem segunda temporada confirmada?

Sim, a segunda temporada foi confirmada antes mesmo do lançamento da primeira. Noah Hawley planejou a história para múltiplas temporadas, mas ainda não há data de estreia anunciada.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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