A série ‘Alien: Earth’, criada por Noah Hawley para FX, ignora deliberadamente a mitologia de ‘Prometheus’ e ‘Covenant’, tratando os Xenomorphos como fenômeno natural independente. Analisamos por que essa “amnésia seletiva” é a melhor decisão para o futuro da franquia.
Em 2012, Ridley Scott olhou para a criatura mais icônica do terror sci-fi e decidiu: ela precisava de uma “origem”. O resultado foi ‘Prometheus’, um filme que dividiu públicos e críticos, mas que fez algo mais duradouro — reescreveu o DNA da franquia Alien de forma que nem sequências nem explicações posteriores conseguiram consertar completamente. Agora, mais de uma década depois, ‘Alien: Earth’ faz o que parecia impossível: ignora ‘Prometheus’, apaga a Black Goo da equação, e devolve aos Xenomorphos o mistério que os tornou lendários.
O “problema Prometheus” que assombrou a franquia por 13 anos
Para entender o que ‘Alien: Earth’ está corrigindo, precisamos voltar ao momento em que a franquia perdeu seu norte. ‘Prometheus’ não é um filme ruim — longe disso. Tem ambição visual, performances sólidas e uma cinematografia deslumbrante. O problema é o que ele faz com o cânone: introduz os Engineers, uma raça alienígena que supostamente criou a humanidade e os Xenomorphos, conectando tudo através de uma substância negra chamada Black Goo.
Ao fazer isso, Scott cometeu um erro narrativo fundamental: explicou demais. O terror do Xenomorph original de 1979 vinha do desconhecido — uma criatura biológica perfeita, sem motivação, sem origem explicável, simplesmente existindo como predador supremo. Ao transformá-lo em “arma biológica criada por Engineers”, a franquia trocou horror cósmico por mitologia confusa.
E a confusão era real. A Black Goo fazia diferentes coisas em diferentes cenas, as conexões entre Engineers, humanos e Xenomorphos eram sugeridas mas nunca explicadas claramente, e o filme deixava mais perguntas do que respostas — não no bom sentido de mistério, mas no ruim de roteiro subdesenvolvido.
‘Alien: Romulus’ tentou consertar, mas o dano estava feito
Foi preciso esperar até 2024 para que alguém tentasse dar sentido à bagunça. ‘Alien: Romulus’ fez um trabalho surpreendentemente competente em clarificar o que ‘Prometheus’ deixou vago: a Black Goo é Z-01, substância que a Weyland-Yutani usava para criar híbridos humano-Xenomorph. A criatura “Offspring” do filme, com sua aparência que remete aos Engineers, parecia confirmar a conexão entre as espécies.
Funcionou? Mais ou menos. ‘Romulus’ é um filme de terror eficiente que consegue integrar elementos de ‘Prometheus’ sem deixar a história incompreensível. Mas tinha algo estranho nisso tudo: a franquia estava gastando energia criativa tentando justificar decisões narrativas problemáticas em vez de simplesmente… seguir em frente.
É como se a série estivesse carregando uma mochila de pedras que ninguém pediu para carregar. Cada novo filme precisava lidar com Engineers, Black Goo, e a questão de “quem criou quem” — questões que ninguém estava fazendo antes de 2012.
Como ‘Alien: Earth’ apaga o passado e recomeça
A série da FX, criada por Noah Hawley (Fargo), ambienta-se três décadas antes dos eventos do filme original de 1979 — aproximadamente em 2092, quando a Weyland-Yutani já existe mas ainda não encontrou o que procura. E Hawley foi explícito sobre sua abordagem canônica: em entrevistas pré-lançamento, declarou que ignoraria a mitologia introduzida em ‘Prometheus’ e ‘Covenant’, tratando os Xenomorphos como fenômeno independente.
A decisão é radicalmente simples: não há menção à Black Goo. Não há Engineers. Os Xenomorphos são apresentados como uma espécie que existe independentemente da humanidade — predadores que foram encontrados, não criados. O elenco, liderado por Sydney Chandler e Timothy Olyphant, habita um universo onde a corporação busca monstros que já existem, não monstros que ela ajudou a inventar.
A implicação é enorme. Se personagens em ‘Alien: Earth’ encontram Xenomorphos antes de ‘Prometheus’, então a ideia de que David (o androide de ‘Prometheus’ e ‘Covenant’) pudesse ter “inventado” os Xenomorphos através de experimentos com DNA está morta. Os monstros já existiam. Sempre existiram. E isso, paradoxalmente, é a melhor notícia que a franquia poderia receber.
Há uma elegância nessa solução. Em vez de tentar explicar ‘Prometheus’, ‘Alien: Earth’ simplesmente o ignora. A Weyland-Yutani continua existindo, sua natureza nefasta permanece intacta, mas o cânone volta ao básico: há monstros no espaço, a corporação quer explorá-los, e pessoas morrem tentando sobreviver.
Por que ignorar ‘Prometheus’ é a melhor decisão para o futuro de Alien
Franquias de longa data enfrentam um problema único quanto mais envelhecem: cada nova entrada precisa decidir o que manter, o que expandir, e o que convenientemente “esquecer”. Os filmes do MCU lidam com isso o tempo todo. A série ‘Halloween’ reiniciou seu cânone múltiplas vezes. ‘Star Wars’ decidiu que o “Universo Expandido” nunca aconteceu.
O que ‘Alien: Earth’ faz não é um reboot completo — é selective amnesia. Mantém o que funciona (Weyland-Yutani, o terror dos Xenomorphos, o design icônico de Giger), descarta o que atrapalha (Engines, Black Goo, mitologia forçada). É uma abordagem que demonstra compreensão do que torna a franquia especial.
E há algo mais: ao remover a necessidade de explicar “de onde vêm os Xenomorphos”, a série se liberta para fazer o que ‘Alien’ original fazia tão bem — focar no agora. Não em mitologia galáctica, não em filosofia sobre criação e criadores, mas em pessoas encurraladas com algo que quer matá-las. Simples. Aterrorizante. Eficiente.
O que isso significa para o cânone futuro
Aqui fica a pergunta inevitável: ‘Prometheus’ ainda “aconteceu”? A resposta parece ser: tecnicamente sim, narrativamente irrelevante. A Weyland-Yutani pode ter operações secretas que os personagens de ‘Prometheus’ desconheciam. A linha do tempo pode acomodar ambos. Mas para fins de história futura? ‘Alien: Earth’ sugere que a franquia seguirá o caminho de tratar os Xenomorphos como fenômeno natural, não como projeto de engenharia.
Isto é, francamente, um alívio. Não porque mitologia seja ruim — franquias como ‘Dune’ provam que worldbuilding complexo funciona. Mas ‘Alien’ nunca foi sobre entender. Foi sobre sobreviver. Cada explicação sobre a origem dos Xenomorphos diminui o que os torna aterrorizantes: eles não têm propósito que compreendemos, não têm motivação com a qual nos identificar. Eles simplesmente são.
‘Alien: Earth’ entende isso. E ao ignorar as complicações de ‘Prometheus’, faz algo que parecia impossível em uma era de universos cinematográficos interconectados: reconhece que menos pode ser mais, e que às vezes a melhor forma de expandir uma franquia é retornar ao que ela fazia melhor.
Para os fãs que acompanharam a série desde 1979, isso é uma vitória. Para os que chegaram com ‘Prometheus’ e apreciam sua abordagem filosófica? O filme ainda existe, ainda pode ser assistido, ainda tem seus méritos. Mas o futuro de Alien parece ter escolhido seu caminho — e esse caminho não passa pela Black Goo.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Alien: Earth’
Onde assistir ‘Alien: Earth’?
‘Alien: Earth’ está disponível na FX e Hulu nos Estados Unidos. No Brasil, a série chega através do Star+, plataforma que concentra o catálogo da FX.
Preciso ver ‘Prometheus’ para entender ‘Alien: Earth’?
Não. O criador Noah Hawley declarou explicitamente que a série ignora a mitologia de ‘Prometheus’ e ‘Covenant’. Os Xenomorphos são tratados como espécie independente, sem conexão com Engineers ou Black Goo.
Em que ano se passa ‘Alien: Earth’?
A série se passa aproximadamente em 2092, três décadas antes dos eventos do filme original ‘Alien’ (1979), que ocorre em 2122. A Weyland-Yutani já existe, mas ainda está em fase inicial de exploração espacial.
Quem criou ‘Alien: Earth’?
‘Alien: Earth’ foi criada por Noah Hawley, responsável pela série aclamada ‘Fargo’. Hawley também atua como showrunner e roteirista principal.
‘Alien: Earth’ tem conexão com os filmes da franquia?
Sim, faz parte do mesmo universo canônico. Ambienta-se antes do primeiro filme e mantém elementos como a Weyland-Yutani e o design dos Xenomorphos. A diferença é que ignora as origens introduzidas em ‘Prometheus’.

