Noah Hawley prova com ‘Alien: Earth’ que a ficção científica autoral supera a nostalgia industrial. Analisamos por que o horror transumanista da série é a lição de originalidade e peso narrativo que as produções de ‘Star Wars’ no Disney+ precisam desesperadamente aprender.
Noah Hawley acaba de fazer com a franquia ‘Alien’ o que Tony Gilroy fez com a galáxia muito, muito distante em ‘Andor’: ele lembrou ao público que a ficção científica de grande orçamento não precisa ser um exercício de nostalgia industrial. ‘Alien: Earth’ Star Wars não é apenas uma comparação de audiência, é um contraste de filosofias criativas. Enquanto a Disney+ parece presa em uma linha de montagem de ‘content’, Hawley entrega uma visão que ousa ser, acima de tudo, estranha.
O horror transumanista de Noah Hawley
Diferente das iterações recentes de ‘Star Wars’, que frequentemente parecem roteirizadas por um comitê de marketing preocupado com o fan service, ‘Alien: Earth’ carrega a assinatura digital de seu criador. Hawley, o cérebro por trás de ‘Fargo’ e ‘Legion’, não está interessado apenas no susto do xenomorfo. Ele mergulha no terror existencial e transumanista.
A subtrama envolvendo a transferência da consciência de uma criança terminal para um sintetizador é o exemplo perfeito. Não é apenas um ‘plot point’; é uma sequência filmada com uma simetria perturbadora e um silêncio clínico que evoca o melhor de Stanley Kubrick. Enquanto as séries de ‘Star Wars’ costumam explicar demais suas tecnologias com diálogos expositivos, Hawley nos força a habitar o desconforto visual daquela transição. É uma ficção científica que confia na inteligência — e no estômago — do espectador.
A armadilha do ‘Volume’ e a estética do real
Um dos grandes problemas de produções como ‘Obi-Wan Kenobi’ e ‘Ahsoka’ é a dependência excessiva do The Volume (StageCraft). Embora revolucionária, a tecnologia muitas vezes resulta em uma iluminação plana e uma sensação de claustrofobia artificial. Em contrapartida, ‘Alien: Earth’ aposta em uma textura tátil. A Terra de Hawley parece vivida, suja e perigosamente tangível.
As megacorporações aqui não são vilões de desenho animado como o Império muitas vezes se torna em séries menores. Elas são entidades burocráticas, frias e onipresentes. Essa abordagem ‘pé no chão’ — que ironicamente foca no horror em solo terrestre — é exatamente o que falta em ‘Star Wars’. A franquia de George Lucas se tornou tão obcecada em expandir o ‘lore’ (mitologia) que esqueceu de construir mundos que pareçam reais o suficiente para que nos importemos com sua destruição.
Por que ‘Andor’ continua sendo a exceção que confirma a regra
É impossível falar dessa lição sem citar ‘Andor’. Tony Gilroy provou que ‘Star Wars’ pode ser excepcional quando ignora os sabres de luz e foca na mecânica da opressão. ‘Alien: Earth’ segue essa mesma trilha de independência criativa. Ambas as séries usam suas marcas famosas como cavalos de Troia para contar histórias autorais complexas.
Onde ‘The Mandalorian’ (em suas temporadas recentes) se perdeu tentando conectar cada episódio a um personagem de desenho animado dos anos 2000, Hawley mantém o foco no tema. A série não existe para vender bonecos ou preparar o terreno para um ‘crossover’ cinematográfico; ela existe para explorar a arrogância humana diante do desconhecido. É a diferença entre um produto de catálogo e uma obra de gênero.
O veredito: O risco é o único caminho
A lição que a Lucasfilm precisa aprender com a FX e o Hulu é simples: o risco é o único caminho para a longevidade. Ridley Scott deu carta branca a Hawley, e o resultado é uma série que expande o universo ‘Alien’ sem desrespeitar seu DNA de horror e crítica social. ‘Star Wars’ tem um playground infinito, mas continua brincando apenas no tanque de areia da nostalgia de Tatooine.
‘Alien: Earth’ nos lembra que a melhor ficção científica é aquela que nos deixa levemente perturbados com o futuro, em vez de confortáveis com o passado. Se a Disney quer que o público continue assinando seu streaming por algo além de ‘arquivo morto’, ela precisa permitir que mais criadores tenham a liberdade de serem tão audaciosos — e esquisitos — quanto Noah Hawley.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Alien: Earth’ e ‘Star Wars’
Onde assistir à série ‘Alien: Earth’?
No Brasil, ‘Alien: Earth’ está disponível no Disney+ (integrado ao catálogo do antigo Star+). Nos EUA, a série é uma produção original do selo FX para o Hulu.
‘Alien: Earth’ faz parte do cânone oficial dos filmes?
Sim, a série é canônica, mas funciona como uma prequela ambientada cerca de 30 anos antes dos eventos do filme original de 1979, ‘Alien: O Oitavo Passageiro’.
Por que a série é comparada com ‘Star Wars’?
A comparação é crítica: analistas utilizam o sucesso criativo de ‘Alien: Earth’ (e de ‘Andor’) para mostrar como visões autorais funcionam melhor do que a fórmula repetitiva e nostálgica que a Disney aplica na maioria das séries de ‘Star Wars’.
Quem é o criador de ‘Alien: Earth’?
A série foi criada por Noah Hawley, renomado showrunner conhecido por suas adaptações premiadas de ‘Fargo’ e pela série visualmente inovadora ‘Legion’.
Preciso ter visto todos os filmes de ‘Alien’ para entender a série?
Não necessariamente. Por ser uma prequela ambientada na Terra, ela estabelece sua própria narrativa. No entanto, o conhecimento sobre a corporação Weyland-Yutani enriquece a experiência.

