‘Alice in Borderland’: a intensidade que faz a série superar ‘Round 6’

Analisamos por que ‘Alice in Borderland’ supera ‘Round 6’ ao oferecer desafios mais complexos e uma mitologia profunda. Entenda como o sistema de cartas e a evolução de Arisu criam uma experiência de suspense superior para quem busca profundidade técnica.

Existe um tipo de série que te prende não pelo choque visual, mas pela arquitetura do desespero. ‘Squid Game’ (Round 6) conquistou o mundo em 2021 com sua crítica social afiada e estética pop — mas quem busca entender a comparação real entre Alice in Borderland e Round 6 precisa olhar além dos números de audiência. Enquanto a série coreana apostou na simplicidade mortal de brincadeiras infantis, a adaptação japonesa do mangá de Haro Aso construiu um labirinto onde sobreviver exige mais do que sorte ou força bruta; exige decifrar a alma humana sob pressão extrema.

Assisti às duas séries múltiplas vezes — ‘Squid Game’ no auge do hype coletivo, e ‘Alice in Borderland’ em maratonas solitárias que me mantiveram acordado até as 4h da manhã tentando antecipar a lógica do próximo jogo. A diferença é clara: uma é um evento social; a outra é uma obsessão técnica. Mas qual delas realmente leva o gênero death game mais longe?

O Sistema de Cartas: Por que ‘Alice’ exige mais inteligência que ‘Round 6’

O primeiro episódio de ‘Squid Game’ entrega a premissa em uma bandeja: dívidas, jogos de infância, morte. É imediato e visceral. Já ‘Alice in Borderland’ nos joga em uma Tóquio subitamente vazia, sem manual de instruções. Essa desorientação inicial é o primeiro grande acerto da série.

Cada jogo opera sob um sistema de cartas de baralho que define o tipo de desespero: Espadas para físico, Paus para equipe, Ouros para lógica e o temido Copas para traição psicológica. Essa estrutura transforma cada episódio em um quebra-cabeça único. Lembro-me de pausar o icônico episódio do ‘Sete de Copas’ três vezes, não por confusão, mas para tentar encontrar uma saída lógica que os personagens ainda não haviam visto. ‘Alice’ confia na inteligência do espectador; ‘Round 6’ foca na sua empatia.

Tensão Psicológica vs. Choque Visual: Onde as séries divergem

‘Round 6’ é mestre em criar ícones — a boneca gigante, os macacões rosa. A tensão ali vem da revelação de que brincadeiras inocentes matam. Uma vez que o choque passa, o mecanismo se torna repetitivo. Em ‘Alice in Borderland’, a tensão é construída na incerteza das regras.

No jogo de esconde-esconde com o Rei de Espadas na segunda temporada, por exemplo, a ameaça não é apenas a bala, mas a exaustão moral de uma caçada que parece não ter fim. A câmera de Shinsuke Sato não corta para mostrar apenas o sangue; ela demora-se nos rostos de Arisu e Usagi enquanto eles descobrem do que são capazes para viver mais um dia. É uma tensão que se acumula nos ombros do espectador, em vez de apenas saltar aos olhos.

Arco de Personagem: A evolução de Arisu vs. Seong Gi-hun

Arco de Personagem: A evolução de Arisu vs. Seong Gi-hun

Arisu começa como o clichê do gamer sem rumo. Seria fácil mantê-lo assim, mas a série permite que ele mude radicalmente. A performance física de Tao Tsuchiya como Usagi é um dos pilares da série — ela traz uma urgência atlética que faz as cenas de ação parecerem genuinamente perigosas, não coreografadas.

Enquanto Seong Gi-hun em ‘Round 6’ é carismático, ele termina a primeira temporada sendo fundamentalmente o mesmo homem, apenas mais traumatizado. Arisu, ao final da jornada em Borderland, é alguém irreconhecível em relação ao piloto. O peso das mortes que ele causou (especialmente no jogo das Copas) molda seu caráter de forma permanente, dando à série um peso dramático que a sátira social de ‘Round 6’ às vezes sacrifica em prol da mensagem política.

Do Mangá à Tela: A Mitologia que recompensa quem presta atenção

A maior vantagem de ‘Alice in Borderland’ é sua mitologia profunda, herdada do mangá original. ‘Round 6’ ainda se sustenta na conspiração de ‘ricos entediados’, o que é funcional como alegoria, mas superficial como construção de mundo. Já o universo de Borderland planta mistérios desde o primeiro minuto: O que são os lasers? Quem são os ‘Cidadãos’? Por que cartas?

As respostas, que chegam de forma catártica, recontextualizam tudo o que vimos anteriormente. É a diferença entre uma série que você assiste para ver quem morre e uma série que você estuda para entender o porquê daquele mundo existir. Para quem busca complexidade narrativa e um final que realmente amarre as pontas soltas, a obra japonesa é imbatível.

Conclusão: Qual maratona vale mais o seu tempo?

Se você busca crítica social direta e um fenômeno cultural para comentar na roda de amigos, ‘Round 6’ cumpre o papel. Mas se você quer ser desafiado, se quer sentir a adrenalina de um jogo onde a lógica é a única arma, ‘Alice in Borderland’ é a escolha superior. Ela não é apenas sobre morrer em um jogo; é sobre o que resta de nós quando as regras da civilização desaparecem. É densa, técnica e emocionalmente devastadora — o tipo de série que você não esquece quando os créditos finais sobem.

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Perguntas Frequentes sobre Alice in Borderland e Round 6

Qual série é melhor: Alice in Borderland ou Round 6?

Depende do seu gosto: ‘Round 6’ foca em crítica social e jogos simples, sendo mais acessível. ‘Alice in Borderland’ é focada em ficção científica, lógica complexa e uma mitologia de mundo mais detalhada, sendo preferida por fãs de thrillers psicológicos.

Alice in Borderland é baseada em quê?

A série é uma adaptação live-action do mangá homônimo escrito e ilustrado por Haro Aso, publicado originalmente entre 2010 e 2016.

Terá 3ª temporada de Alice in Borderland?

Sim! A Netflix confirmou oficialmente a produção da 3ª temporada de ‘Alice in Borderland’, que deve explorar o arco do ‘Coringa’ (Joker) que foi sugerido no final da segunda temporada.

Qual o significado das cartas em Alice in Borderland?

O naipe define o tipo de desafio: Paus (Trabalho em Equipe), Espadas (Físico), Ouros (Inteligência) e Copas (Psicológico/Traição). O número da carta indica o nível de dificuldade do jogo.

Onde assistir Alice in Borderland?

Ambas as séries, ‘Alice in Borderland’ e ‘Round 6’ (Squid Game), estão disponíveis exclusivamente no catálogo global da Netflix.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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