Em ‘Algo Horrível Vai Acontecer’, a Netflix dialoga com ‘O Bebê de Rosemary’ para reinventar o horror doméstico. Analisamos como a minissérie traduz a crítica feminista de 1968 para a pressão matrimonial contemporânea — e por que essa conversa entre filmes distantes 58 anos é mais atual do que parece.
Existe um tipo de série que você assiste e passa semanas conectando os pontos. ‘Algo Horrível Vai Acontecer’ é uma delas — mas não pelos motivos óbvios. Sim, é um thriller psicológico sobre casamento. Sim, tem suspense e reviravoltas. Mas o que torna essa minissérie da Netflix perturbadora é algo mais profundo: ela entende que o horror não precisa de monstros. Precisa apenas de promessas que você não tem certeza se quer cumprir.
Quando Haley Z. Boston criou ‘Algo Horrível Vai Acontecer’, ela não estava inventando do zero. Estava traduzindo. Traduzindo a linguagem de um filme que, em 1968, descobriu que o verdadeiro terror mora na domesticidade — e que as mulheres já sabiam disso há séculos. Estou falando de ‘O Bebê de Rosemary’, o clássico de Roman Polanski que Boston admitiu ser sua inspiração direta. A série não apenas copia o filme. Ela o atualiza para algo mais insidioso: a pressão moderna do casamento.
O filme que inventou o horror doméstico
Antes de 1968, horror era castelos góticos, vampiros, coisas que você sabia que não existiam. ‘O Bebê de Rosemary’ mudou isso radicalmente. Foi o primeiro grande filme de estúdio a trazer elementos sobrenaturais para um apartamento em Nova York, para um casal comum, para a vida que qualquer pessoa poderia estar vivendo naquele momento. Não é exagero dizer que o cinema de horror moderno começa ali — e especificamente na sequência em que Rosemary caminha pelo corredor do edifício Bramford, ouvindo sussurros através das paredes, enquanto a câmera de Polanski a segue como se o próprio prédio a estivesse engolindo.
Mas aqui está o detalhe que importa: ‘O Bebê de Rosemary’ não era apenas um filme de horror. Era uma crítica feminista disfarçada de thriller. Mia Farrow interpretava Rosemary, uma mulher que gradualmente percebe que está sendo manipulada, gaslighted, usada — tudo enquanto seu marido e vizinhos fingem que tudo está bem. O horror não era o bebê. Era a solidão de estar cercada por pessoas que não a acreditam.
Ira Levin, que escreveu o romance original publicado em 1967, capturou algo que as mulheres já conheciam intimamente: a forma como o casamento e a maternidade podem se transformar em armadilhas quando você está presa com a pessoa errada. O filme de Polanski apenas amplificou isso, usando a linguagem do horror para dizer algo que o cinema raramente ousava dizer em voz alta.
Como a série traduz o clássico para 2026
‘Algo Horrível Vai Acontecer’ começa onde ‘O Bebê de Rosemary’ termina — ou melhor, onde ele deveria ter começado. Camila Morrone interpreta Rachel Harkin, uma mulher prestes a se casar com Nick, e algo está errado. Não é um bebê amaldiçoado. É a sensação crescente de que ela está dizendo sim para algo que deveria ser não.
A série entende que o horror doméstico de 1968 não desapareceu. Apenas mudou de forma. Rosemary era isolada por seu marido e vizinhos. Rachel é isolada por expectativas sociais, por pressão familiar, por aquela voz interna que diz ‘você já está tão perto, por que desistir agora?’ A maldição não é sobrenatural. É institucional.
Boston faz algo preciso: ela pega a atmosfera gótica de Polanski — aquele tom de paranoia crescente, aquela sensação de que as paredes estão fechando — e a coloca em um cenário contemporâneo. Há rituais pseudorreligiosos, há figuras sinistras sussurrando avisos, há uma família que parece estar conspirando. Mas tudo isso serve a um propósito maior: explorar a pressão real que as mulheres enfrentam quando questionam o casamento.
Quando Rachel é advertida de que uma maldição a afligirá se não ‘fizer a coisa certa’ pela instituição do casamento, você está vendo ‘O Bebê de Rosemary’ reescrito para a era das redes sociais. A maldição agora é social. É o julgamento. É a perda de identidade. É a pergunta que ninguém faz em voz alta: ‘E se eu não quiser isso?’
A linhagem do horror feminista
O que torna ‘Algo Horrível Vai Acontecer’ mais do que um remake disfarçado: ela entende que ‘O Bebê de Rosemary’ não foi um acidente. Foi o primeiro de uma linhagem cinematográfica que usa horror para falar sobre o que assusta as mulheres de verdade.
Boston mencionou ‘Carrie, A Estranha’ de Stephen King como outra inspiração — e faz sentido. Carrie é sobre o horror de ser uma mulher em um corpo que você não controla, cercada por pessoas que a odeiam ou a temem. ‘O Bebê de Rosemary’ é sobre o horror de estar presa em uma vida que você não escolheu, cercada por pessoas que fingem amá-la. ‘Algo Horrível Vai Acontecer’ combina os dois: é sobre estar presa em uma decisão que você não tem certeza se quer tomar.
Essa linhagem continua em filmes como ‘Corra!’ de Jordan Peele, que também usa horror para explorar dinâmicas de poder e controle. Mas há algo específico em ‘O Bebê de Rosemary’ que a série captura com precisão: a ideia de que o verdadeiro horror é quando ninguém acredita em você. Quando você tenta avisar sobre o perigo e as pessoas ao seu redor simplesmente sorriem e dizem que você está sendo paranéica.
O desfecho que coroa a herança
Se há um momento em que ‘Algo Horrível Vai Acontecer’ prova que merecia ser comparada a ‘O Bebê de Rosemary’, é no final. Sem spoilers: a série faz algo que poucos thrillers modernos têm coragem de fazer. Ela não oferece redenção fácil. Não oferece um herói que salva o dia. Oferece, em vez disso, uma masterclass em como quebrar a tensão acumulada de uma narrativa de longa duração.
Polanski terminou ‘O Bebê de Rosemary’ com uma imagem que ainda assombra: Rosemary, finalmente, aceitando o inaceitável. A série de Boston faz algo semelhante, mas com uma torção moderna. Ela pergunta: em que ponto você para de lutar contra o inevitável? E quando você para, o que você se torna?
Essa é a verdadeira continuação de ‘O Bebê de Rosemary’. Não é uma sequência. É uma conversa de 58 anos depois, entre um diretor que entendeu o horror da domesticidade em 1968 e uma criadora que entende o horror da pressão matrimonial em 2026. E a conversa é perturbadora porque ambas chegam à mesma conclusão: às vezes, o pior que pode acontecer já está acontecendo. Você apenas ainda não admitiu para si mesma.
Por que essa conversa importa em 2026
‘Algo Horrível Vai Acontecer’ não é apenas uma série de horror. É um documento sobre como as mulheres ainda estão tendo as mesmas conversas que tinham em 1968, apenas com Wi-Fi. A pressão para casar, para ter filhos, para ser ‘feliz’ dentro de um sistema que não foi projetado para sua felicidade — isso não mudou. Apenas ficou mais invisível.
O brilho de Boston é reconhecer que ‘O Bebê de Rosemary’ já havia dito tudo que precisava ser dito sobre isso. Então, em vez de reinventar a roda, ela a girou. Pegou a paranoia, a manipulação, o gaslighting, a solidão — todos os elementos que Polanski usou — e os colocou em um contexto onde você não pode mais fingir que é ficção.
Se você já viu ‘O Bebê de Rosemary’, ‘Algo Horrível Vai Acontecer’ vai fazer você revisitar o filme com novos olhos. Se você ainda não viu, a série é praticamente um convite para descobrir por que um filme de 1968 ainda é mais assustador do que a maioria do que é feito hoje. Porque ambos entendem que o verdadeiro horror não é o que você vê. É o que você sente quando percebe que está presa.
Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!
Perguntas Frequentes sobre ‘Algo Horrível Vai Acontecer’
Onde assistir ‘Algo Horrível Vai Acontecer’?
‘Algo Horrível Vai Acontecer’ é uma minissérie original Netflix, disponível exclusivamente na plataforma desde abril de 2026.
‘Algo Horrível Vai Acontecer’ é baseado em ‘O Bebê de Rosemary’?
Não é uma adaptação direta. A criadora Haley Z. Boston citou ‘O Bebê de Rosemary’ como inspiração principal, mas a série tem história e personagens originais, dialogando tematicamente com o filme de 1968 em vez de recontá-lo.
Precisa ver ‘O Bebê de Rosemary’ para entender a série?
Não é obrigatório. A série funciona sozinha como thriller psicológico. Porém, conhecer o clássico de Polanski enriquece a experiência — você vai reconhecer referências visuais, temáticas e estruturais que aprofundam o significado da narrativa.
Quantos episódios tem ‘Algo Horrível Vai Acontecer’?
A minissérie tem 8 episódios de aproximadamente 45 minutos cada. É uma narrativa fechada, sem previsão de segunda temporada.
Quem são os criadores de ‘Algo Horrível Vai Acontecer’?
A série foi criada e escrita por Haley Z. Boston, conhecida por seu trabalho em ‘Glow’ e ‘Sweet Tooth’. A produção executiva conta com nomes como Don Murphy e Susan Montford.

