Alexander Skarsgård e o legado de ‘Succession’ como último grande show da HBO

Alexander Skarsgård construiu uma carreira na HBO que espelha a própria Era de Ouro da televisão — de ‘Generation Kill’ a ‘Succession’, ele foi testemunha e arquiteto de duas décadas de prestígio. Analisamos por que seu Lukas Matsson encerra não apenas uma série, mas um ciclo histórico do canal.

Existe um momento em ‘Succession’ que define tudo o que a série representou — e, por extensão, tudo o que a HBO foi durante três décadas. Não é a morte de Logan Roy, embora aquele episódio seja antológico. É uma cena silenciosa entre Alexander Skarsgård e o elenco, caminhando pela praia, onde seu Lukas Matsson observa a família Roy como um predador que já sabe que a presa está encurralada. A câmera de Andrij Parekh segura o plano em plano-sequência, forçando o espectador a habitar aquele desconforto. Ninguém fala por segundos que parecem minutos. É televisão no seu mais puro estado: narrativa visual, tensão não verbal, controle de ritmo que nenhum algoritmo de streaming consegue replicar. E Skarsgård, com aquele sorriso mínimo no canto da boca, encarna o que ele sempre fez na HBO — o homem que chega para desestabilizar o status quo.

A conexão entre Alexander Skarsgård Succession e o legado da HBO não é coincidência. É culminação. Este ator sueco de 1,94m, com rosto de deus nórdico e capacidade assustadora de alternar entre carisma e crueldade, passou quase duas décadas construindo uma filmografia dentro do canal que espelha a própria evolução da televisão de prestígio. De ‘Generation Kill’ a ‘True Blood’, de ‘Big Little Lies’ a ‘Succession’, Skarsgård não apenas participou dessa era dourada — ele foi um de seus arquitetos mais subestimados.

Lukas Matsson e a arte de odiar charmosamente

Lukas Matsson e a arte de odiar charmosamente

Quando Skarsgård entra em ‘Succession’ na terceira temporada, a série já tinha estabelecido os Roy como uma família de monstros simpatizáveis. Kendall é patético em sua sede por aprovação paternal. Roman esconde trauma atrás de piadas venenosas. Shiv é ambiciosa até a autodestruição. E Logan? Logan é o rei em declínio, Lear sem reino, tirano que prefere ver seu império ruir a entregá-lo a alguém que não seja ele mesmo. Entrar nesse elenco como antagonista exigia algo especial — e Skarsgård entregou.

Lukas Matsson é o que acontece quando o capitalismo tech encontra o capitalismo de velha guarda. Ele não quer o poder dos Roy porque precisa dele. Quer porque pode comprar. E Skarsgård joga isso com uma calma aterrorizante — aquele sotaque sueco suave, aquele jeito de vestir roupas caras como se fossem trapos, aquele desdém velado por tradições que ele considera obsoletas. Há uma cena específica, no finale da quarta temporada, onde Matsson oferece a Shiv uma posição de poder sabendo que nunca a entregará. O sorriso que Skarsgård esboça — meio triunfante, meio entediado — é aula de atuação em microexpressão. Diz tudo sem falar nada.

O que torna a performance notável é como Skarsgård se recusa a fazer Matsson um vilão cartunesco. Ele é perigoso, sim, mas também é engraçado — aqueles tuítes absurdos sobre ‘números duvidosos’, o jeito de tratar negociações bilionárias como se fossem apostas de bar. É a marca registrada do ator: homens que são monstros, mas monstros fascinantes. Perry Wright em ‘Big Little Lies’ abusava da esposa com uma violência física que fazia o estômago revirar, mas também tinha charme suficiente para explicar por que Celeste ficou presa por anos. Eric Northman em ‘True Blood’ era um vampiro assassino que se tornou ícone pop pela mesma razão — Skarsgård encontrava humanidade em lugares onde não deveria existir nenhuma.

Quase 20 anos construindo a era de ouro da HBO

A relação de Alexander Skarsgård com a HBO começou em 2008 — ano que, não por acidente, marca o início do que chamamos de ‘Era de Ouro da Televisão’. Foi quando ‘Breaking Bad’ estreou, quando ‘Mad Men’ estava em sua segunda temporada, quando a televisão começou a ser levada a sério como arte. E lá estava Skarsgård, em dois projetos simultâneos: ‘Generation Kill’, minissérie sobre a invasão do Iraque, e ‘True Blood’, fantasia gótica que se tornaria fenômeno cultural.

Em ‘Generation Kill’, ele interpretou o Sgt. Brad ‘Iceman’ Colbert — apelido que poderia ser redundante, já que Skarsgård carrega naturalmente aquela frieza escandinava. O papel exigia contenção: um líder militar que processa o absurdo da guerra com silêncios significativos. Quem assistiu lembra da cena em que Colbert observa um oficial superior tomando uma decisão catastrófica, e o rosto de Skarsgård diz tudo sobre incompetência hierárquica sem que uma palavra seja pronunciada. Era HBO fazendo o que HBO fazia melhor: usar televisão para explorar complexidade moral que o cinema não tinha tempo de endereçar.

Depois veio Eric Northman. Em ‘True Blood’, Skarsgård transformou um personagem que poderia ser risível — vampiro viking de mil anos em uma série sobre Louisiana gótica — em fenômeno pop. O segredo estava no compromisso total: ele nunca tratou o material como inferior. Quando Eric perde memória e se torna uma criança em corpo adulto, Skarsgård joga com uma inocência genuína que torna a subsequente recuperação de memória tragicamente comovente. É ridículo no papel. Funciona completamente na execução.

Mas foi em ‘Big Little Lies’ que Skarsgård recebeu reconhecimento formal — Emmy de Melhor Ator Coadjuvante em 2017, merecido por uma performance que faz o espectador sentir a violência doméstica como presença física. A cena em que Perry ataca Celeste, filmada em plano único que se recusa a cortar, é das coisas mais difíceis de assistir na televisão recente. E Skarsgård, que poderia ter feito o agressor um monstro unidimensional, escolheu dar-lhe camadas — o pai dedicado que existe em paralelo ao abusador, a tensão psicológica que explica sem justificar.

Por que ‘Succession’ marca o fim de uma era

Por que 'Succession' marca o fim de uma era

Dizer que ‘Succession’ é o último grande show da HBO não é hipérbole — é diagnóstico. A série encerrou em 2023, e três anos depois, nenhum projeto do canal alcançou o mesmo nível de impacto cultural e crítica. ‘The White Lotus’ é excelente, mas funciona em registro diferente: antologia satírica que brilha pelo elenco rotativo, não pela ambição narrativa de longo prazo. ‘A Casa do Dragão’ é sucesso de audiência, mas herda prestígio de ‘Game of Thrones’ sem expandi-lo significativamente. ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ promete qualidade, mas ainda está por se provar como fenômeno cultural.

O problema não é específico da HBO. É sistêmico. A ‘Era de Ouro da Televisão’ — aquele período que vai de ‘Família Soprano’ (1999) a ‘Succession’ (2023) — dependia de condições que não existem mais. Streaming fragmentou audiências. Algoritmos substituíram programação curada. O volume de conteúdo produzido tornou imposs que qualquer série se torne evento cultural compartilhado da forma que ‘The Sopranos’ ou ‘Mad Men’ foram. Quando todo mundo assiste tudo, nada é obrigatório.

‘Succession’ foi o último show que funcionou como evento semanal — não por estratégia de marketing, mas por mérito artístico. Cada episódio gerava discussão real, não hype fabricado. O finale fechou o ciclo de uma forma que respeitou a inteligência do público: sem fan service, sem conclusão fácil, com a família Roy exatamente onde sempre esteve — presa em sua própria riqueza, incapaz de conexão humana genuína. Jesse Armstrong escreveu tragédia no sentido clássico: personagens movidos por falhas fatais que os levam à ruína. A diferença é que aqui os personagens são bilionários e a ruína é emocional, não financeira.

A ironia é que Alexander Skarsgård, como Lukas Matsson, encarna a força que tornou esse tipo de televisão obsoleto. Matsson é o tech bro que adquire impérios de mídia sem entender seu valor cultural — espelho do que aconteceu com a própria HBO quando a Warner foi adquirida por corporações que veem conteúdo como commodity. Skarsgård interpretou o símbolo do que matou a era que o consagrou.

O futuro da HBO e o legado inacabado

A HBO não morreu. Continua produzindo conteúdo de qualidade. Mas algo mudou fundamentalmente quando ‘Succession’ encerrou — a sensação de que cada novo projeto poderia ser o próximo marco cultural, o próximo ‘Família Soprano’ ou ‘The Wire’ ou ‘Succession’. Essa promessa implícita se foi. O canal agora é mais uma opção entre dezenas, não a referência que definia o padrão.

Para Alexander Skarsgård, o futuro é incerto da mesma forma. Ele completou um ciclo na HBO que poucos atores conseguem — de revelação em minissérie a estrela de fenômeno pop a ator premiado em drama sério a antagonista em obra-prima. O que vem depois? Cinema mainstream, como em ‘The Northman’? Projetos autorais em outras plataformas? A carreira dele, como a própria HBO, está em momento de redefinição.

Fica a pergunta que nenhum executivo de streaming quer responder: ainda existe espaço para televisão que priorize ambição artística sobre engajamento algorítmico? ‘Succession’ provou que sim, que público e crítica podem convergir quando o material é suficientemente bom. Mas provou também que esse tipo de sucesso é exceção, não regra — e que a era que permitiu sua existência pode ter se encerrado com ele.

Skarsgård, com sua capacidade de fazer monstros cativantes e heróis ambíguos, merece um próximo projeto à altura do que construiu. A HBO, se quiser manter relevância cultural, precisa encontrar criadores que ousem tanto quanto Jesse Armstrong ousou. E nós, espectadores, talvez precisemos aceitar que testemunhar Alexander Skarsgård em seu auge, dentro da HBO em seu auge, foi privilégio que não se repete.

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Perguntas Frequentes sobre Alexander Skarsgård e a HBO

Quais séries Alexander Skarsgård fez na HBO?

Skarsgård participou de quatro produções originais HBO: ‘Generation Kill’ (2008), ‘True Blood’ (2008-2014), ‘Big Little Lies’ (2017-2019) e ‘Succession’ (2021-2023). É uma das carreiras mais extensas de um ator dentro do canal.

Alexander Skarsgård ganhou Emmy por ‘Succession’?

Não. Skarsgård foi indicado ao Emmy de Melhor Ator Coadjuvante em Série de Drama por ‘Succession’ em 2023, mas não venceu. Seu Emmy veio por ‘Big Little Lies’ em 2017, como Melhor Ator Coadjuvante em Minissérie ou Telefilme.

Quem é Lukas Matsson em ‘Succession’?

Lukas Matsson é um bilionário sueco do setor de tecnologia que surge na terceira temporada como potencial comprador da Waystar Royco. Interpretado por Alexander Skarsgård, ele representa o capitalismo tech que ameaça o império de mídia tradicional dos Roy.

Por que ‘Succession’ é considerado o último grande show da HBO?

‘Succession’ encerrou em 2023 como o último projeto HBO que funcionou como evento cultural semanal obrigatório — algo que dependia de condições que o streaming fragmentou. Após seu fim, nenhum novo projeto do canal alcançou o mesmo nível de impacto crítico e cultural simultâneo.

Quanto tempo durou a ‘Era de Ouro’ da HBO?

Convencionalmente, a Era de Ouro da televisão — com a HBO como principal referência — vai de ‘Família Soprano’ (1999) até ‘Succession’ (2023), aproximadamente 24 anos. Durante esse período, o canal produziu marcos como ‘The Wire’, ‘Deadwood’, ‘Game of Thrones’ e ‘True Detective’.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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