Além de ‘The Expanse’: 9 séries que misturam ciência real e política

Selecionamos 9 séries que compartilham com ‘The Expanse’ o mesmo compromisso: ciência a serviço da narrativa e política como motor de conflitos. De ‘Battlestar Galactica’ a ‘Andor’, o critério não é ter naves — é tratar o espaço como extensão das contradições humanas.

Quem assistiu ‘The Expanse’ sabe o problema: depois de seis temporadas de física respeitada e política levada a sério, difícil aceitar qualquer space opera que trata naves como carros e planetas como cenários de videogame. A série criou um padrão novo — aquele elogio de “Game of Thrones no espaço” não era exagero. Era constatação de que ficção científica finalmente cresceu.

O que torna ‘The Expanse’ única não é apenas a precisão científica (embora astrofísicos tenham elogiado a física orbital e a gravidade por aceleração). É a forma como essa ciência serve à narrativa política: os Belters não são alienígenas genéricos, são trabalhadores explorados cuja biologia adaptada à baixa gravidade virou marca de marginalização. Ciência e política se alimentam. Raro encontrar isso.

Se você está procurando séries parecidas com The Expanse, o critério aqui não é “tem naves espaciais”. É: qual série trata o espaço como lugar de conflitos humanos reais, onde tecnologia tem consequências sociais e ninguém é herói ou vilão por acidente?

Battlestar Galactica: o predecessor que abriu o caminho

Battlestar Galactica: o predecessor que abriu o caminho

Se existe uma série que preparou o terreno para ‘The Expanse’, é o reboot de 2004 de ‘Battlestar Galactica’. Ron Moore criou algo que em 2004 parecia revolucionário: ficção científica que se recusava a ser escapismo. Os Cylons não são apenas robôs malvados — são espelhos distorcidos da humanidade, criados por nós, que retornam para cobrar o preço de nossa arrogância.

A similaridade com ‘The Expanse’ está na ambiguidade moral. Em ambas, personagens que você torce para viver tomam decisões questionáveis. Em ambas, a sobrevivência exige concessões éticas que nenhum herói de space opera tradicional precisaria fazer. A diferença: onde ‘The Expanse’ usa a física para criar tensão (o silêncio do vácuo, os limites de combustível), ‘Battlestar’ usa o apocalipse — a humanidade reduzida a uma frota fugindo de extinção.

A política aqui é de emergência: como manter democracia quando cada decisão pode eliminar os últimos sobreviventes da espécie? Os episódios sobre eleições fraudulentas e golpe militar não pareciam ficção em 2004 — e envelhecem ainda pior em 2026.

For All Mankind: ciência real como motor narrativo

Há quem chame ‘For All Mankind’ de “prequela espiritual” de ‘The Expanse’. A descrição faz sentido: a série de Ronald D. Moore imagina uma história alternativa onde a URSS chega à Lua primeiro, e a corrida espacial nunca termina. O resultado é um programa espacial acelerado por competição geopolítica real — não por MacGuffins de ficção científica.

As primeiras temporadas são quase documentário sobre engenharia: você aprende por que órbita lunar é diferente de órbita terrestre, como a ausência de atmosfera afeta construção, por que a NASA precisava de computadores humanos antes de confiar em máquinas. A ciência não é background — é o motor da trama.

Confesso: a série perde um pouco do rigor científico nas temporadas seguintes em favor do espetáculo. Os saltos temporais entre décadas criam uma competição espacial que se aproxima mais de fantasy do que do hard sci-fi inicial. Mas a política permanece convincente: a exploração espacial como extensão de conflitos terrestres, nunca como escapismo utópico.

Babylon 5: a política intergaláctica que definiu o formato

Antes de ‘The Expanse’ e antes de ‘Game of Thrones’, ‘Babylon 5’ já fazia política serializada em escala épica. A premissa parece simples: uma estação espacial serve de ponto neutro para diplomacia entre espécies. Mas o que J. Michael Straczynski construiu entre 1993 e 1998 era ambicioso demais para a época — uma novela de cinco anos com começo, meio e fim planejados, onde cada episódio aparentemente isolado continha sementes que floresciam temporadas depois.

A similaridade com ‘The Expanse’ está na compreensão de que diplomacia não é menos letal que guerra. Em ambas, a solução de conflitos exige tanto jogo político quanto poder de fogo. A diferença: ‘Babylon 5’ trabalha com alienígenas genuínos, cada espécie com psicologia e motivações próprias, enquanto ‘The Expanse’ mantém o foco em divisões humanas — Terra, Marte, Cinturão.

Visualmente, a série envelheceu. Os efeitos CGI pioneiros dos anos 90 hoje parecem datados. Mas a escrita permanece afiada — diálogos que tratam o espectador como adulto, arcos de personagens que não temem consequências permanentes. Aquele episódio em que um personagem principal morre de causas naturais no meio de uma guerra? Em 1996, isso não acontecia em TV de ficção científica.

Fundação: política em escala civilizacional

Adaptar Asimov para TV era considerado impossível — a obra original é mais tratado de sociologia matemática que narrativa de personagens. A série da Apple TV+ resolveu o problema criando protagonistas que não existiam no livro, e a decisão foi controversa. Mas para fãs de ‘The Expanse’, a ambição compensa.

A premissa é paralela: em ‘Fundação’, um matemático prevê o colapso de um império galático e cria uma fundação para preservar conhecimento. Em ‘The Expanse’, a ameaça é externa (a protomolécula), mas os conflitos são igualmente sistêmicos — a humanidade dividida entre potências que se recusam a cooperar até que seja tarde demais. Ambas as séries entendem que política não é subtrama: é o próprio tecido da narrativa.

A escala é maior aqui — saltos temporais de séculos, dinastias que nascem e morrem, impérios que crescem e colapsam. A série exige paciência, mas recompensa com uma reflexão sobre civilização que poucas obras de qualquer mídia ousam fazer.

Andor: política sem fantasias de salvadores escolhidos

Colocar uma série de ‘Guerra nas Estrelas’ em uma lista de hard sci-fi parece heresia. Mas ‘Andor’ é o oposto de tudo que a franquia representou nas últimas décadas. Sem Jedi, sem sabres de luz, sem profecias místicas — apenas pessoas comuns construindo uma rebelião contra um império que esmaga sistematicamente qualquer dissentimento.

A conexão com ‘The Expanse’ está na forma como ambas tratam resistência. Os Belters não são salvadores mágicos; são trabalhadores explorados que se organizam contra uma ordem que os trata como descartáveis. Em ‘Andor’, a Rebelião não começa com heroísmo — começa com pessoas fazendo escolhas morais difíceis em circunstâncias impossíveis, muitas vezes pagando preço alto por isso.

O episódio “One Way Out” é talvez o melhor exemplo: um discurso sobre sacrifício e solidariedade que funciona como manifesto político, não como monólogo de fantasia. A série tem 96% de aprovação crítica no Rotten Tomatoes — mesma vizinhança de ‘The Expanse’ (95%). Não é coincidência. Ambas respeitam a inteligência do público.

Altered Carbon: desigualdade como tecnologia

Se ‘The Expanse’ mostra como a exploração de recursos cria castas sociais, ‘Altered Carbon’ radicaliza a premissa: e se a própria consciência pudesse ser comprada? A tecnologia de “stacks” — discos que armazenam personalidade e permitem transferir para novos corpos — cria uma sociedade onde os ultra-ricos são literalmente imortais, enquanto pobres lutam por corpos usados.

O tom noir das duas séries é similar. Em ‘The Expanse’, o detetive Miller investiga uma conspiração que vai do Cinturão até as elites de Terra. Em ‘Altered Carbon’, Takeshi Kovacs faz o mesmo em um futuro cyberpunk onde riqueza significa poder sobre a própria morte. Ambos são personagens torturados, competentes, moralmente flexíveis quando necessário.

A diferença crucial: onde ‘The Expanse’ mantém o foco na física e na geopolítica, ‘Altered Carbon’ mergulha em filosofia da identidade. O que significa ser humano quando seu corpo é descartável? A série tem mais estilo que substância em alguns momentos, mas a premissa é das mais provocadoras do gênero.

Firefly: o espaço como fronteira, não utopia

Firefly: o espaço como fronteira, não utopia

Uma temporada. Foi tudo que ‘Firefly’ teve antes do cancelamento prematuro. Mas essa temporada contém algo que fãs de ‘The Expanse’ reconhecerão imediatamente: o espaço como fronteira, não como utidade. A tripulação da Serenity não é elite — são marginais, mercenários, pessoas que caíram nas frestas de uma civilização que não os quer.

As equivalências de personagens são impressionantes: Zoë e Naomi como segundas em comando que seguram suas tripulações; Jayne e Amos como mercenários com códigos morais próprios. A diferença de tom — ‘Firefly’ é mais leve, mais humorística — não apaga a similaridade temática: o sistema não funciona para quem vive nas bordas.

Joss Whedon criou uma conspiração governamental que seria desenvolvida nos filmes e quadrinhos subsequentes, mas a série em si funciona como estudo de personagens marginalizados. O Western espacial pode parecer datado em alguns momentos, mas a ideia de que o espaço seria colonizado por quem não tem lugar na Terra é mais ‘The Expanse’ do que a maioria das space operas admite.

Jornada nas Estrelas: quando utopia encontra política real

Incluir ‘Jornada nas Estrelas’ em uma lista de séries similares a ‘The Expanse’ exige uma ressalva importante: tonalmente, são opostas. O universo de Gene Roddenberry foi criado como alternativa ao pessimismo da ficção científica dos anos 60 — um futuro onde humanidade superou suas divisões e explora o espaço por curiosidade, não por necessidade.

Mas a conexão existe na forma como ambas tratam diversidade cultural e diplomacia. A Frota Estelar é tanto corpo diplomático quanto militar; os episódios frequentemente resolvem conflitos através de negociação e compreensão, não apenas força. A diferença está na premissa: ‘Jornada nas Estrelas’ assume que humanidade resolveu seus problemas internos; ‘The Expanse’ assume que os levamos junto para o espaço.

Para quem achou ‘The Expanse’ muito sombria, as várias séries da franquia oferecem uma alternativa com similar profundidade temática, mas visão mais esperançosa. O legado de diversidade e influência cultural de ‘Jornada nas Estrelas’ é inegável — moldou como imaginamos exploração espacial por gerações.

Farscape: identidade e família escolhida no universo alienígena

Farscape: identidade e família escolhida no universo alienígena

Entre todas as séries desta lista, ‘Farscape’ é a mais estranha — e isso é elogio. A premissa de astronauta humano perdido em universo alienígena poderia render mais um “homem branco salva alienígenas”, mas a série australiana dos Henson (sim, os fantoches) subverte todas as expectativas.

A conexão com ‘The Expanse’ está no conceito de identidade e família escolhida. Os Belters desenvolveram sua própria cultura, língua e lealdades — identidade forjada em oposição às potências que os exploram. Em ‘Farscape’, personagens de espécies diferentes são forçados a cooperar não por idealismo, mas por sobrevivência. A família que você escolhe importa mais que a que o acaso te deu.

O humor peculiar da série pode afastar quem busca o tom sombrio de ‘The Expanse’. Mas os temas — identidade, lealdade, resistência contra forças maiores — são surpreendentemente próximos. Com 88% de aprovação do público no Rotten Tomatoes (acima dos 85% de ‘The Expanse’), a série claramente encontrou seu público.

O que nenhuma dessas séries promete

Se você chegou aqui esperando uma lista de “próximos passos óbvios”, preciso ser honesto: nenhuma dessas séries é ‘The Expanse’. A combinação específica de física respeitada, política sistêmica e narrativa serializada que a série da Syfy/Amazon alcançou é rara. ‘Battlestar Galactica’ chega mais perto no peso emocional; ‘For All Mankind’ na precisão científica inicial; ‘Babylon 5’ na complexidade política.

O que todas oferecem é algo que a ficção científica de TV frequentemente evita: a premissa de que o espaço não é um playground limpo, mas uma extensão de nossas contradições. Se você busca escapismo puro, há dezenas de space operas competentes. Se você quer ficção científica que respeita sua inteligência e assume que política não é subtrama — esta lista é um começo.

Fica a pergunta: ‘The Expanse’ abriu uma porta que outras séries começarão a atravessar, ou permanecerá como exceção que confirma a regra de que TV de ficção científica prefere facilidades? Em 2026, ainda não temos resposta. Mas pelo menos temos alternativas enquanto esperamos.

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Perguntas Frequentes sobre séries parecidas com The Expanse

Qual série é mais parecida com The Expanse?

‘Battlestar Galactica’ (2004) é a mais próxima em peso emocional e ambiguidade moral. ‘For All Mankind’ se aproxima mais no rigor científico das primeiras temporadas. ‘Babylon 5’ é a mais similar em complexidade política e narrativa serializada.

Por que The Expanse foi cancelada?

‘The Expanse’ foi cancelada pela Syfy após 3 temporadas por custos de produção e direitos de transmissão. A Amazon resgatou a série para mais 3 temporadas, encerrando em 2022 com 6 temporadas no total. A história principal foi concluída, mas deixou abertura para continuação.

Onde assistir The Expanse e essas séries?

‘The Expanse’ está na Amazon Prime Video. ‘For All Mankind’ e ‘Fundação’ são exclusivas Apple TV+. ‘Andor’ está no Disney+. ‘Battlestar Galactica’ e ‘Firefly’ estão em múltiplas plataformas. ‘Altered Carbon’ é Netflix original. Verifique disponibilidade na sua região.

Qual dessas séries tem mais ciência real?

‘For All Mankind’ tem o maior rigor científico nas primeiras temporadas, explicando física orbital e engenharia espacial. ‘The Expanse’ é elogiada por astrofísicos pela física orbital e gravidade por aceleração. ‘Battlestar Galactica’ prioriza drama sobre precisão científica.

Precisa assistir essas séries em ordem?

São séries independentes, não relacionadas entre si. Pode escolher pela temática que mais interessa: política (‘Babylon 5’, ‘Andor’), ciência (‘For All Mankind’), ou tom sombrio (‘Battlestar Galactica’, ‘Altered Carbon’).

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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