Alan Ritchson quer adaptar ‘Die Trying’ antes de sair de ‘Reacher’. Analisamos por que o livro 2 expõe o Reacher mais vulnerável — e como essa escolha pode render um desfecho raro: fechado por tema e personagem, não por escalada de espetáculo.
Atores raramente conseguem escolher seu próprio desfecho. A indústria decide por eles — cancelamentos súbitos, renovações inesperadas, contratos que expiram no momento errado. Alan Ritchson está tentando fazer diferente. Em entrevista após entrevista, ele insiste no mesmo desejo: adaptar ‘Die Trying’ antes de pendurar o casaco do personagem em ‘Reacher’. E não soa como capricho; soa como instinto narrativo.
Ritchson já contou que leu a série inteira de Lee Child para se preparar. No meio de mais de duas dezenas de romances, um virou o favorito pessoal: ‘Die Trying’ (1998), o segundo livro, escrito quando Child ainda estava afinando o que Jack Reacher seria — não só como máquina de resolver problemas, mas como homem que tenta (em vão) não se meter neles.
Por que ‘Die Trying’ expõe o Reacher mais interessante: o que queria ficar invisível
A premissa é brutal justamente por ser banal. Reacher está em Chicago, tentando passar despercebido, quando vê uma mulher com dificuldade para caminhar — uma muleta, pressa, desequilíbrio. Ele oferece ajuda para atravessar a rua e, no instante seguinte, é jogado num sequestro junto com ela. A mulher, logo descobrimos, não é uma civil qualquer: é agente do FBI. E a história vira estrada, cativeiro e pressão.
Isso muda o eixo moral da série. Em muitas tramas, Reacher chega a uma cidade, fareja corrupção, escolhe intervir e assume o conflito. Em ‘Die Trying’, ele não escolhe nada: ele só foi decente por reflexo — e paga por isso. É um Reacher mais “real” (e, portanto, mais dramático): alguém que queria ser deixado em paz, mas cujo código ético transforma qualquer gesto mínimo em gatilho para uma guerra.
Quando Ritchson diz que esse livro “mostra quem Reacher realmente é”, a frase funciona porque aponta para um paradoxo central do personagem: a liberdade que ele busca é constantemente sabotada pela própria bússola moral. Para uma série que, no streaming, vive de escalada, esse é um motor mais forte do que “ameaça maior” ou “vilão mais cruel”.
A cena do escuro (e por que ela parece escrita para uma temporada final)
Há um momento em ‘Die Trying’ que muda a temperatura do livro: Reacher precisa rastejar por uma caverna completamente escura. Não é set piece “esperta”; é humilhação física e psicológica. O personagem que costuma dominar o espaço — lendo ambiente, calculando risco, impondo presença — vira alguém preso, desorientado, reduzido a tato e respiração.
Como final de ‘Reacher’, isso tem um valor que TV de ação raramente prioriza: coloca o protagonista numa vulnerabilidade que não se resolve com tamanho, força ou intimidação. E conversa diretamente com a versão que Ritchson construiu na Amazon: um Reacher capaz de ser carismático e até bem-humorado, mas com rachaduras visíveis quando a situação o arranca do controle.
Em termos de desfecho, a ideia é simples e potente: terminar com um arco que não “aumenta o volume”, e sim estreita o foco — não no mundo a ser salvo, mas no homem obrigado a encarar limites que ele passa a vida negando que existam.
Por que ‘Die Trying’ ainda é um problema de adaptação (e como isso pode virar virtude)
Há também uma explicação prática para a demora: uma parte grande da história acontece em espaços confinados — especialmente dentro de uma van — e a segunda metade se fecha num compound isolado. Em produção, isso é faca de dois gumes: por um lado, pode soar repetitivo visualmente; por outro, pode exigir soluções caras para manter ritmo, variedade e tensão sem parecer “episódio de garrafa” esticado.
Mas o problema também é a oportunidade. Um bom comando de direção e montagem pode transformar confinamento em linguagem: planos fechados que negam respiro, som como mapa emocional (motor, correntes, silêncio), e a sensação de tempo que não passa. Quando a série acerta, ela já entende isso — o “peso” de Reacher não é só físico; é a forma como a cena te obriga a sentir o espaço.
Além disso, o terceiro ato abre escala com uma milícia e um plano maior — material suficiente para dar à temporada final o contraste necessário: claustrofobia primeiro, explosão depois. Ritchson chegou a brincar com a ideia de Reacher “abraçar o interior ‘Rambo IV’” — e a referência é reveladora: violência menos coreografada e mais desesperada, com sensação de custo, não de glamour.
Encerrar no livro 2 é voltar ao ponto em que Reacher começou a ganhar forma
Existe uma elegância particular em querer terminar pelo segundo livro. ‘Killing Floor’ já foi a temporada 1 e serviu como origem eficiente. ‘Die Trying’, porém, é onde Lee Child começa a calibrar o equilíbrio que define a série: ação como superfície, estudo de personagem como subtexto. É quando Reacher deixa de ser só “o cara que vence” e vira “o cara que vence mesmo quando não queria estar ali”.
Se ‘Reacher’ acabar por escolha — e não por exaustão, números ou desgaste — esse tipo de fechamento importa. Dá ao público a sensação rara de que a história parou no lugar certo, não no lugar possível.
No curto prazo, nada muda: a terceira temporada está no ar, a quarta já foi confirmada e o spin-off ‘Neagley’ vem aí. Mas, quando a pergunta inevitável surgir (“como terminar isso sem virar paródia de si mesmo?”), a resposta já está na mesa. Adaptar ‘Die Trying’ como despedida não é só um desejo do ator — é uma forma de proteger a série do final automático.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Die Trying’ e ‘Reacher’
‘Die Trying’ é qual livro na ordem de Jack Reacher?
‘Die Trying’ é o 2º livro da série Jack Reacher, publicado em 1998. Ele vem logo depois de ‘Killing Floor’.
Preciso ler ‘Killing Floor’ antes de ‘Die Trying’?
Não é obrigatório. ‘Die Trying’ funciona sozinho como thriller, mas ler ‘Killing Floor’ antes ajuda a pegar melhor o “modo de vida” do Reacher e o contraste do personagem quando ele perde controle da situação.
‘Die Trying’ já foi adaptado em ‘Reacher’?
Até agora, não. A primeira temporada adaptou ‘Killing Floor’. A ideia de levar ‘Die Trying’ para a série tem sido mencionada em entrevistas, mas não houve anúncio oficial confirmando a adaptação.
Por que ‘Die Trying’ é considerado difícil de adaptar?
Boa parte da trama se passa em espaços confinados (como uma van) e depois num local isolado, o que exige soluções de direção, fotografia e som para manter variedade e tensão sem depender de muitas locações.
‘Die Trying’ seria um bom final para ‘Reacher’ na Amazon?
Pode ser, especialmente se a série quiser encerrar com foco no personagem. O livro coloca Reacher em vulnerabilidade (sem poder “resolver” tudo na força) e dá um fechamento temático mais forte do que simplesmente aumentar a escala do vilão.

