Adam Scott subverte seu arquétipo de ‘bom moço’ em ‘Hokum’, novo folk horror irlandês de Damian McCarthy. Analisamos como o ator conduz uma narrativa quase sem diálogos — e por que o título funciona como armadilha para o público.
Há algo fascinante em ver um ator que passou décadas sendo o ‘cara simpático’ decidir, de repente, que quer te assustar. Adam Scott construiu uma carreira inteira sobre o charme do homem comum — o cunhado divertido de ‘Confusões de Leslie’, o pai amoroso de ‘Pequeno Demônio’, até mesmo o protagonista tenso de ‘Ruptura’ tinha uma qualidade fundamentalmente humana que nos fazia torcer por ele. Em ‘Hokum’, novo filme de Damian McCarthy, essa versão de Scott é deliberadamente desmontada.
Não é apenas uma mudança de gênero. É uma subversão completa do que esperamos dele. E a ironia? O terror de McCarthy exige que essa transformação aconteça quase inteiramente no silêncio.
Quando o ‘bom moço’ decide virar o jogo
Scott não está apenas fazendo um vilão em ‘Hokum’. Ele está jogando na cara do público anos de expectativas acumuladas. Seu personagem, Ohm Bauman, é descrito pelo próprio ator como ‘não a pessoa mais agradável do mundo’ — e essa era exatamente a atração.
‘Tem sido divertido reverter o curso’, Scott contou ao ScreenRant no SXSW. Depois de tantas variações do arquétipo afável, ele ativamente buscou papéis que desafiassem essa imagem. O resultado é um personagem que, nas palavras do diretor, arrisca ‘perder a audiência no início’ por sua antipatia. É uma aposta arriscada: pedir que o público acompanhe alguém fundamentalmente desagradável por quase duas horas.
Mas aqui está onde a escolha se torna brilhante — ‘Hokum’ é folk horror, um subgênero que prospera no desconfortável. A zona rural irlandesa, a pousada remota, as cinzas de pais mortos sendo espalhadas. Coloque um protagonista que você não necessariamente quer que sobreviva, e a tensão muda de natureza. Não é mais ‘será que ele escapa?’ — é ‘será que ele merece escapar?’
O desafio de conduzir um terror praticamente sem diálogos
Damian McCarthy não facilitou a vida de seu protagonista. Ohm Bauman passa ‘longos trechos sem diálogo’, segundo o diretor. Em certo ponto das filmagens, Scott relembra: ‘Tínhamos acabado esta parte do filme, e então íamos filmar apenas eu em um quarto. E isso era assustador.’
Assustador é a palavra certa. Atuar sem fala em terror exige um controle físico que poucos atores dominam — você precisa transmitir medo, desconfiança, deterioração mental, tudo através do corpo e do rosto. Não à toa McCarthy comparou o filme a ‘um one-man show simples’. A referência a John Carpenter faz sentido aqui: em ‘O Enigma de Outro Mundo’, muito do tensão vem de um homem isolado tentando sobreviver à noite. A diferdemça é que Kurt Russell tinha um elenco de apoio. Scott tem, por longas sequências, apenas ele e o silêncio.
É o tipo de desafio técnico que separa atores competentes de aqueles que verdadeiramente entendem seu ofício. Qualquer um pode recitar um monólogo de terror. Carregar uma narrativa inteira através de reações, respiração e expressão facial? Isso exige presença — e Scott parece ter aceitado o desafio de boa fé.
Por que o título ‘Hokum’ funciona como armadilha narrativa
O título não é aleatório. ‘Hokum’ significa algo absurdo, ridículo, nonsense — e reflete diretamente o personagem de Scott. Ohm não acredita em bruxas, fantasmas ou qualquer folclore local. Ele é, essencialmente, o cético em um filme que exige que ele enfrente justamente aquilo que ele nega existir.
McCarthy explicou que há também um significado mais profundo ligado ao que acontece com o personagem. Sem entrar em spoilers, o título funciona como uma armadilha temática: você entra pensando que é sobre descrença, e descobre que é sobre algo mais perturbador.
O diretor também confirmou que, apesar dos títulos de uma palavra só e pôsteres com estética similar (‘O Alerta’, ‘Oddity: Objetos Obscuros’, agora ‘Hokum’), não há conexão narrativa entre os filmes. São primos estéticos, não um universo compartilhado. Uma decisão inteligente — cada filme permanece autocontido, mas cria uma identidade visual para o cineasta.
Adam Scott, Damian McCarthy e o futuro do folk horror irlandês
McCarthy chegou ao ‘Hokum’ após o sucesso de ‘Oddity: Objetos Obscuros’, descrito por Scott como ‘extraordinário’. O diretor cita influências claras: Carpenter, cinema dos anos 80, filmes de cerco como ‘Uma Noite Alucinante 2’. Mas há algo distintamente irlandês em seu terror — uma tradição de folk horror que remonta a ‘A Bruxa’ de Robert Eggers, mas com sotaque próprio.
A escolha deliberada de criar uma ambientação temporal vaga também merece atenção. Sem tecnologia explícita, carros antigos, figurino misto — McCarthy joga o público fora de equilíbrio. Você nunca sabe exatamente quando está. Isso amplifica o horror: o desconhecido não é apenas o que está no quarto, é o próprio mundo ao redor.
Para Scott, o filme representa uma evolução natural. Depois de ‘O Macaco’ de Osgood Perkins (adaptação de Stephen King), ele poderia ter seguido no terror mainstream. Escolher um projeto independente de um diretor em ascensão sugere alguém buscando desafios, não apenas contracheques.
Veredito: vale a pena conferir?
‘Hokum’ chega aos cinemas em 1º de maio, e as primeiras críticas do SXSW são majoritariamente positivas. Mas não é para todos.
Se você busca terror de jump scares constantes e ritmo acelerado, talvez se frustre. McCarthy constrói tensão da forma clássica: atmosfera, isolamento, silêncio. O humor presente, segundo o diretor, não diminui o medo — complementa. Pense em ‘O Enigma de Outro Mundo’ encontrando ‘Hereditário’ em uma pousada irlandesa.
Para fãs de Adam Scott, é uma oportunidade rara de vê-lo operar fora de sua zona de conforto. O ator que nos fez rir em ‘Confusões de Leslie’ agora quer nos fazer suar frio. E baseado no que ele descreveu sobre o roteiro — ‘assustador, perturbador, muito divertido’ — parece ter conseguido.
Fica a pergunta: depois de ver Scott como alguém ‘não agradável’, conseguiremos vê-lo da mesma forma como o Ben de ‘Confusões de Leslie’? Talvez não. E talvez seja exatamente isso que ele quer.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Hokum’
Quando estreia ‘Hokum’ nos cinemas?
‘Hokum’ chega aos cinemas brasileiros em 1º de maio de 2026. O filme foi apresentado no SXSW em março do mesmo ano.
Quem dirige e estrela ‘Hokum’?
O filme é dirigido pelo irlandês Damian McCarthy (de ‘Oddity: Objetos Obscuros’) e estrelado por Adam Scott, conhecido por ‘Confusões de Leslie’ e ‘Ruptura’.
‘Hokum’ tem conexão com ‘Oddity’ ou ‘O Alerta’?
Não. Apesar dos títulos de uma palavra e pôsteres visualmente similares, McCarthy confirmou que não há conexão narrativa entre os filmes. São ‘primos estéticos’, não um universo compartilhado.
Que tipo de terror é ‘Hokum’?
‘Hokum’ é folk horror irlandês com atmosfera de isolamento. O foco está em tensão construída através de silêncio e ambiente, não em jump scares. Comparável a ‘O Enigma de Outro Mundo’ e ‘Hereditário’.
Adam Scott já fez terror antes?
Sim. Antes de ‘Hokum’, Scott estrelou ‘O Macaco’ (2025), adaptação de Stephen King dirigida por Osgood Perkins. ‘Hokum’ marca sua segunda incursão no gênero.

